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A hipótese de consórcio sexual de anjos maus com seres humanos

inferno_260_210O demônio, sendo criatura espiritual, não pode, em hipótese algu ma, praticar consórcio carnal. Ele não tem carne, nem experimenta as cobiças da carne. Ele pode, sim, tentar o homem a atitudes de cobiça carnal ou de apetites desregrados (Jesus, como homem, quis ser tenta do a aceitar falsas concepções messiânicas; cf. Mt 4, 1-10; Lc 4, 1-11); mas ele mesmo não sente (nem pode sentir) os afetos sensuais que a criatura humana sente.

Em conseqüência, compreende-se que é totalmente insustentável a sentença dos que atribuem aos espíritos maus consórcio com mulheres.

É certo, porém, que desde a época pré-cristã há pensadores que falam de relações sexuais de demônios com seres humanos. Assim os judeus de Alexandria, entre 250 e 100 a.C, ao traduzirem a Bíblia do hebraico para o grego (tradução alexandrina ou dos LXX), verteram o hebraico bene-eiohim (filhos de Deus) de Gn 6, 2 por ángeloi tou Theou (anjos de Deus) e atribuíram a estes relações sexuais com as filhas dos homens; de tal consórcio teriam nascido homens gigantescos (cf. Gn 6, 1-4). Os escritores judeus Filon de Alexandria (t 44 d.C.) e Flávio José (| 100 d.C.) repetiram a mesma concepção (cf. Filon, De Gigantibus 6ss; De somniis 133ss: Flávio José, Antiquitates 131 § 73), que se tornou freqüente nos apócrifos judeus.

Vários escritores cristãos dos quatro primeiros séculos, por sua vez, professaram a mesma teoria; assim S. Justino (f 165), Taciano (t após 172), Atenágoras (f 177), S. Ireneu (f 202), Clemente de Alexan dria (f antes de 215), S. Metódio de Olimpo (f 311), S. Cipriano de Cartago (t 258), S. Basílio de Cesaréia (f 379), S. Ambrósio (f 397). Esta tese era devida à falsa tradução apresentada pelos LXX e aceita pelos anti gos. Favorecia-a o inadequado conceito de espírito que muitos escrito res dos primeiros séculos professavam: influenciados pelos estóicos, admitiam, sim, que os espíritos tivessem uma corporeidade sutil, a qual explicaria o pretenso relacionamento com mulheres.

Com o tempo, porém, foi-se implantando entre os cristãos a tradu ção da Vulgata de S. Jerônimo (f 421), que em Gn 6, 2 não falava de anjos, mas simplesmente de filhos de Deus, como o texto hebraico. Além disto, o conceito de espírito foi-se depurando, de modo a não se lhe atribuir corporeidade.

Muito típico da evolução de pensamento é, por exemplo, o livro dos Diálogos, atribuído a S. Gregório de Nazianzo. Este se pergunta como os anjos, sendo incorpóreos, puderam ter consórcio carnal com mulhe res e gerar gigantes. Acaba julgando absurda e blasfema tal tese. O mes mo se lê nas obras de S. Cirilo de Alexandria (f 444): afirma que os anjos não têm corpo nem procuram as volúpias da carne; além do quê, obser va que as Escrituras em Gn 6, 2 falam de filhos de Deus e não de anjos de Deus. Muitos outros testemunhos da transição do pensamento dos doutores da Igreja nos séculos IV/V se encontram no artigo “Démon d’après les Pères”, de E. Mangenot, em “Dictionnaire de Théologie Catholique” IV/1, col. 339-384.

Isto explica que na Idade Média os grandes teólogos como S. Boaventura (f 1274), S. Tomás de Aquino (t 1274), Duns Scoto (t 1308), S. Alberto Magno (f 1280)  tenham abandonado por completo a teoria de relações carnais dos anjos com mulheres. Todavia ficou na crença popu lar a concepção de que os demônios podiam unir-se sexualmente a se res humanos; por isto algumas publicações da Idade Média (e ainda de épocas posteriores) falavam de demônios ácubos (os que se deitavam por cima) e de súcubos (os que se deitavam por baixo)… Alguns pronunci amentos de Concílios e de Papas atribuíram largas partes ao demônio na vida dos homens, admitindo mesmo a possibilidade de relações carnais dos mesmos com mulheres. Ampla documentação a propósito acha-se coletada no artigo “Documentos Eclesiásticos sobre Práticas Supersticio sas e Demoníacas” de Frei Constantino Coser O.F.M., publicado em REB, vol. XVII, março de 1957, pp. 54-88. É certo, porém, que nenhum desses documentos tem a força de definição dogmática; trata-se de orientações dadas para atender à problemática de séculos passados muito propensos a admitir o demônio em todo fenômeno física ou moralmente hediondo.

Em nossos dias, está totalmente fora de cogitação a hipótese de consórcio sexual de anjos maus com seres humanos; a teologia só pode classificar tal crença como falha em suas próprias premissas, visto que supõe corporeidade nos demônios; trata-se, pois, de um produto da fan tasia, que a piedade popular pôde alimentar, mas que há de ser estrita mente dissipado.

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