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O anticristo: Quem é ele ?

110310Em síntese : O artigo analisa os textos dos Evangelhos, de São Paulo e do Apocalipse, procurando o fundamento bíblico para a figura que comumente é chamada “o Anticristo”. – Pode-se dizer, que não há base neotestamentária para se conceder tal personagem. Trata-se, antes, de uma noção rabínica, que entrou na tradição cristã, fundindo-se com figuras de literatura posterior a Cristo, especialmente com a expectativa romana do Nero redivido: o Imperador, cruel como fora, o primeiro e típico perseguidor da Igreja, ressuscitaria no fim dos tempos, para seduzir os fiéis e ser definitivamente punido por Cristo.

Costuma impressionar os cristãos a perspectiva de um Anticristo ou um pujante Adversário de Cristo, que deverá manifestar-se no fim dos tempos. Todavia tal expectativa permanece obscura. Verifica-se que os textos bíblicos sobre os quais se apoia tal concepção, são suscetíveis de mais de uma interpretação. Redigidos em estilo apocalíptico, usam de muitas figuras literárias, entre as quais a personificação de conceitos abstratos e de realidades coletivas.

Examinemos, pois, estas passagens bíblicas para compreender o que objetivamente significam.

1. Os Sinóticos

No se sermão escatológico diz Jesus:

“Surgirão numerosos falsos profetas, os quais seduzirão muita gente” (Mt 24,11).

“Surgirão falsos cristos (messias) e falsos profetas, os quais realizarão portentos e prodígios notáveis, de modo a seduzir, se fosse possível, até os escolhidos. Eis que de antemão vo-lo anuncio” (Mt 24, 24s).

No sermão do Senhor, os falsos messias e profetas, sedutores dos últimos tempos, aparecem como verdadeira legião, mas legião acéfala; Jesus não menciona um chefe que possa ser dito “O ANTICRISTO”.

Ainda é de notar que Jesus não fala de Anticristo(s), mas de pseudocristos, embora os falsários sejam inimigos (antitéticos) a Cristo; o termo técnico e clássico Anticristo se deve a época posterior, isto é, a S. João, que escreveu no fim do século I (cf. 1Jo 2, 18-22; 4,3; 2 Jo 7).

Em conclusão : o Anticristo, no Evangelho, não aparece nem com este título nem sob a forma de indivíduo único. Não falta, porém, a predição de que, no fim dos tempos, adversários de Cristo surgirão, mais numerosos e astutos que nunca, usurpando o nome e os poderes do messias (= Cristo).

 2. Escritos joaneus

S. João, nas suas epístolas, por quatro vezes menciona explicitamente o Anticristo, tanto no singular como no plural:

“Filhinhos, esta é a última hora. Assim como ouvistes, vem um (não: o) Anticristo; já agora existe grande número de anticristos; é o que nos diz que esta é a última hora” (1 Jo 2,18);

“Quem é o mentiroso senão aquele que nega que Jesus é o Cristo (Messias) ? Eis o Anticristo : aquele que nega o Pai e o Filho” (1 Jo 2,22);

“Todo espírito que não confessa Jesus, não é de Deus; tal espírito, porém, é o do Anticristo, do qual ouvistes dizer que vem e que já agora está no mundo” (1 Jo 4,3).

“Muitos sedutores apareceram no mundo, os quais não professam que Jesus Cristo se encarnou; ei-lo, o Sedutor e o Anticristo” (2Jo 7).

A respeito destes textos, é de se notar que S. João, o primeiro escritor a usar da palavra Anticristo na literatura cristã,1 emprega este termo tanto no singular como no plural. Mesmo, porém, quando o toma no singular, atribui-lhe sentido coletivo, pois o aplica a todo e qualquer indivíduo que negue a Jesus Cristo, isto é, que deturpe o sentido ortodoxo da Encarnação; Anticristo, para S. João, é, pois, todo e qualquer herege. Suposto este conceito, assim se interpretaria a advertência do Apóstolo nos versículos acima citados: “Ouvistes dizer que vem um Anticristo ? Com efeito, a tradição judaica já vo-lo insinua … Em verdade, porém, vos asseguro: desde que irromperam no mundo erros e heresias a respeito de Jesus Cristo, o Anticristo já fez sua aparição; e notai que não é um só, mas são muitos os Anticristos, são tantos quantos negam a messianidade de Jesus; na realidade, um Anticristo não é senão um negador do Cristo”.

No Apocalipse, S. João não fala explicitamente de Anticristo(s), mas apresenta duas figuras de Bestas, fantásticas, adversárias de Cristo ( (13, 1-8, 11-17); estas combatem na Terra contra a Igreja e, por fim, são projetadas no lugar de perdição. Portanto, a noção de Anticristo não é alheia ao Apocalipse; todavia, dois são aí os Anticristos. Mais ainda: conforme os melhores exegetas, eles significam duas coletividades, a saber: o poder político que em qualquer época seja contrário à Igreja, coisa que sempre existiu e existirá (ao menos em surtos periódicos); e o poder das falsas religiões ou filosofias que, também por todo o decorrer da história, travam luta contra a Verdade trazida por Cristo. As duas Bestas do Apocalipse realizam prodígios, suscitando a admiração dos homens, marcam com sinal próprio seus adoradores, blasfemam soberbamente etc., à semelhança do que se lê nos textos escatológicos do Evangelho e de S. Paulo. Todavia, o apocalipse não conhece o Anticristo individual.

3. As Cartas de São Paulo

S. Paulo propõe em 2Ts 2,3-10 a famosa descrição do Adversário e do Obstáculo que o detém. Esta passagem não menciona os muitos falsos profetas ocorrentes no Evangelho, e parece incutir a noção de um Inimigo individual, caracterizado como “Homem do pecado, Filho da perdição (homem destinado à ruína temporal e eterna), Adversário, Iníquo”, nomes que, de resto, não se conseguiram impor na tradição, mas cederam ao termo de S. João: Anticristo. A função do Iníquo será imitar o Cristo com o fito de O combater: arrogante e sacrílego, realizará milagres e far-se-á entronizar como Deus.

Como entender a descrição de tal personagem ?

Embora apresente muitos traços que favorecem a crença num Anticristo individual, ela pode ser interpretada na linha do Evangelho e de S. João acima reproduzida. Eis como então se explicaria o texto paulino:

O Adversário, agente que atua pelo poder de Satanás (cf. v.9), parece ser contemporâneo a S. Paulo mesmo, pois o Apóstolo julgava que, em 51 da nossa era, ele só não se manifestaria em público, visto estar detido por um Obstáculo. Existia, pois, mas coibido e velado, pronto a se manifestar em toda a sua pujança; e este estado latente inegavelmente se protrai até os nossos dias, devendo mesmo prolongar-se até que seja removido o Obstáculo, ou seja, até os últimos tempos. Na base desta verificação, julga-se que o Adversário “paulino” não pode ser um indivíduo humano, mas deve ser uma coletividade de inimigos que vem atravessando os séculos: “anticristos” se sucedem a “anticristos”, assumindo diversos tipos conforme as respectivos épocas em que vivem; Satanás; porém, é impedido de desenvolver por eles toda a malícia que intenciona; e tal estado de coisas durará até o fim dos tempos, quando, por permissão de Deus, se desencadeará todo o furor do Malígno e de seus agentes multiplicados.

Mais ainda: verifica-se que o Adversário, assim entendido, há de ser identificado com o “Mistério da Iniqüidade” (outra expressão paulina que designa a coletividade das forças malignas”, mistério que também em 51 “já se achava em atividade” (cf. v.7). S. Paulo personificou o Mistério da iniqüidade, dando-lhe os títulos de “Adversário, Iníquo …”; este proceder é muito habitual no estilo apocalíptico, que tende a representar coletividades como se fossem indivíduos: assim as duas Bestas de Ap 13 são o símbolo de todos os artifícios humanos (políticos e filosóficos) anticristãos; as duas testemunhas de Ap 11 significam o conjunto dos pregadores do Evangelho através dos séculos; o rei de Tiro, em Ez 28, designa a cidade capital e o reino de Tiro; o Faraó, em Ez 29-32, representa todo o Egito. E não há dúvida de que o texto apocalíptico de 2 Ts2, por muito original que pareça, na realidade repete expressões clássicas da literatura apocalíptica do Antigo Testamento, a ponto de poder ser considerado como um tecido de fórmulas proféticas … tomadas de empréstimo. 1 De resto, o Apóstolo, ao expor suas idéias, comprazia-se em atribuir a um indivíduo o que ele reconhecia convir a muitos; cf. 1Cor 4,6. Em favor da identificação do Iníquo (sujeito masculino) com o Mistério da Iniqüidade (sujeito neutro, em grego) aponta-se ainda o fato de que o Apóstolo, do outro lado, designa o Obstáculo igualmente sob a forma masculina (= Aquele que detém, v.7) e sob a forma neutra (= Aquilo que detém, v.6). Há, pois, entre as duas forças que se opõem, um paralelismo de designações; isto insinua que, assim como o Obstáculo já era contemporâneo a S. Paulo e ainda perdura, assim também o Adversário, o Iníquo, existe desde o início do Cristianismo e ainda aguarda, latente, o tempo de sua parusia. Donde mais uma vez se conclui que o Anticristo há de ser uma coletividade, e não um indivíduo.

Acrescentam, porém, os autores que a concepção coletiva não exclui que no fim dos tempos tenha o poder maligno seu expoente máximo nas atividades de um homem, o qual será como que a “encarnação” de todos os artifícios da iniqüidade. Não se restrinja, porém, o conceito de Anticristo a este indivíduo.

4. Origem de um “Anticristo individual”

A idéia de um Anticristo individual parece ter origem não nas Escrituras do Novo Testamento, mas na tradição judaica. Não há dúvida de que os israelitas, nos últimos séculos antes de Cristo, tendiam a dar sentido literal às descrições muito figuradas de Ez 27; 38s; Dn 11; a partir do séc. II a.C., inseriam sempre nas suas cenas apocalípticas a imagem sinistra de um indivíduo que recapitularia em si todo o poderio do mal. Ademais, aconteceu que em 63 a.C. o general romano Pompeu se apoderou de Jerusalém e profanou o Templo de Javé, reduzindo os traços do grande Adversário, o Profanador, que já cem anos antes fora Antíoco Epifanes (175-164 a.C.). ora, a figura de Pompeu, sobrepondo-se à de Antíoco, veio corroborar, na mente dos judeus, a idéia do Homem Iníquo, perseguidor no fim dos tempos; os salmos ditos de Salomão, apócrifo provavelmente escrito na época do general romano, aludem a Pompeu como sendo o Pecador (2,1), o Dragão soberbo (2, 29), o Impio (17,13). Pois bem; é na linha desta tradição judaica que se situa o texto de S. Paulo, 2Ts 2: o Apóstolo não fez senão repetir os traços literários do grande Perseguidor e Sedutor, sem, por isto, exigir para as suas palavras a interpretação estritamente literal que as fontes judaicas, utilizadas pelo Apóstolo, não pedem; o que Paulo certamente queria incutir é que, nos últimos tempos, a mais violenta das perseguições será desencadeada sobre o povo de Deus, consoante o que claramente dizem os escritos escatológicos do Antigo Testamento (cf. Ez 38s; Jl 4,1-13; Zc 12, 1-10). Quanto a S. João, ele alude, como acima foi dito, à expectativa judaica de um Perseguidor (Anticristo); corrige-a, porém, pela afirmação de que o Anticristo já veio e é múltiplo, pois múltiplos são os hereges que aparecem.

Entre os cristãos subseqüentes, os traços do Perseguidor, a crença no Anticristo individual, se pautaram sobre figuras da história e da literatura posterior a Cristo; não raro a concepção se fundia com a expectativa romana do Nero redivido: o Imperador matricida, o primeiro e típico Perseguidor da Igreja, ressuscitaria no fim dos tempos, para seduzir os fiéis e ser definitivamente punido por Cristo. Assim ainda pensavam contemporâneos de S. Agostinho (+ 430) e Sulpício Severo (+ cerca de 420).1

Seria descabido enunciar outras tentativas feitas pelos autores cristãos para descrever o Anticristo futuro ou identificá-lo no decorrer da história; esses esforços foram por vezes demasiado arbitrários. Retenha-se apenas que o caráter individual ou coletivo do Anticristo não modifica as concepções gerais da escatologia cristã; aos católicos fica a liberdade de optar por uma ou outra opinião. A Igreja recomenda principalmente sobriedade nas elucubrações atinentes a este assunto.

1. O termo composto pode significar tanto “Aquele que é contrário a Cristo (ao Messias)” como “Aquele que se coloca em lugar do Cristo”. Praticamente não há muita diferença entre estes dois sentidos.

2. As figuras bíblicas a que S. Paulo alude, são principalmente Antíoco Epifanes; o rei de Tiro, e Gog, rei de Magog. A respeito de Antíoco, ímpio perseguidor da verdadeira fé no séc. II a.C., escreve Daniel:

“O rei procederá como bem quiser, elevar-se-á a exaltar-se-á acima de todo deus; contra o Deus dos deuses dirá coisas monstruosas, e será bem sucedido, até que a cólera chegue ao auge, pois o que foi decretado se cumprirá” (Dn 11,36: cf. 7,25; 9,27). Ao rei de Tiro, personificação do reino de Tiro, escreve Ezequiel em nome de Deus: “Teu coração se exaltou e disseste: “Sou um deus, ocupo um trono de deus no coração dos mares”. Na verdade, porém, és um homem e não Deus; não obstante, queres ter um coração semelhante ao coração de um deus” (Ez 28,2).

Semelhante tipo ímpio é o do rei tirânico da Babilônia apresentado em Is 14,13s. Gog, rei de Magog, é personagem desconhecido na história, mero símbolo literário. Ezequiel, nos capítulos 38s, o introduz como o chefe do exército dos inimigos de Deus, que no fim dos tempos fará uma incursão devastadora sobre o povo de Deus. Em sua soberba, e apesar do seu aparato pomposo, Gog, com seus súditos, será exterminado pelo Senhor Deus.

Os nomes “Iníquo, Homem do Pecado ou da Iniquidade” podem Ter sido sugeridos a S. Paulo por Sl 89, 23; 94,20.

1 Cf. S. Agostinho, De civitate Del 20,19:

“Julgam que, ao dizer: Já agora está ativo o mistério da iniqüidade, o Apóstolo tinha em vista Nero, cujos feitos pareciam ser os do Anticristo. Donde não poucos suspeitam que Nero há de ressuscitar e ser o Anticristo. Alguns, porém, crêem que Nero não foi morto, mas, sim, arrebatado, de sorte a ser tido por morto; permanece vivo no vigor da Idade que tinha quando o deram por extinto; ficará oculto até ser revelado no tempo devido e restabelecido no trono. A mim tanta presunção por parte dos que conjeturam, causa grande surpresa”.

Eis o testemunho de Sulpício Severo:

“Crê-se que, embora se tenha traspassado com uma espada, (Nero) foi curado de sua chaga e conservado em vida, conforme o que dele está escrito: A sua chaga mortal foi curada (Ap 13,3); no fim dos tempos há de ser lançado (no mundo) para consumar o mistério da iniquidade” (Hist. Sacr. 2,29).

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