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«Jesus de Nazaré»: Bento XVI fala em julgamento político que levou à morte de Cristo

Papa aborda calculismo do governador romano Pôncio Pilatos, que não absolve de responsabilidades

Lisboa, 02 Mar (Ecclesia) – O novo volume da obra de Bento XVI sobre «Jesus de Nazaré» considera que o julgamento que levou à morte de Cristo foi político e condena a ambiguidade do governador romano, Pôncio Pilatos.

“Depois do interrogatório, ficou claro para Pilatos aquilo que, em princípio, ele já sabia antes: aquele Jesus não era um revolucionário político, a sua mensagem e o seu comportamento não constituíam um perigo para a dominação romana”, escreve o Papa numa passagem da obra que a Agência ECCLESIA divulga hoje.

Num capítulo dedicado ao «processo de Jesus», Bento XVI considera que “Pilatos sentiu também um certo temor supersticioso diante daquela figura estranha”, receando colocar-se “contra uma potestade divina”.

O Papa afirma que o prefeito romano “conhecia a verdade de que se tratava neste caso”, mas optou por uma “interpretação pragmática do direito: mais importante do que a verdade do caso era a força pacificadora do direito”.

Bento XVI sublinha que o Evangelho de João é o único que refere o diálogo entre Jesus e Pilatos, “no qual é esquadrinhada em toda a sua profundidade a questão da realeza de Jesus, do motivo da sua morte”.

“A reivindicação da realeza messiânica era um delito político que devia ser punido pela justiça romana”, recorda, destacando que um rei sem legitimação de Roma “era um rebelde que ameaçava a «pax romana»e, consequentemente, se tornava “réu de morte”.

O Papa passa em revista vários testemunhos (Flávio Josefo, Filão de Alexandria) sobre Pilatos e recusa a ideia de que os Evangelhos o apresentam de forma positiva, numa perspectiva “filoromana”, para carregar “progressivamente os judeus com a responsabilidade da morte de Jesus”.

“Quando foram redigidos os Evangelhos, a perseguição de Nero tinha já mostrado o lado cruel do Estado romano e toda a arbitrariedade do poder imperial”, sublinha o texto de Joseph Ratzinger.

Nos Evangelhos, diz o actual Papa, “a imagem de Pilatos mostra-nos, muito realisticamente, o prefeito romano como um homem que sabia intervir de forma brutal”, mas sabia também que “Roma devia o seu domínio sobre o mundo – e não em último lugar – à tolerância perante as divindades estrangeiras e à força pacificadora do direito romano”.

Pilatos, indica Bento XVI, “sabia que não surgira de Jesus um movimento revolucionário” e diz que este lhe deve ter “parecido um exaltado religioso, que violava talvez ordenamentos judaicos relativos ao direito e à fé”.

“À autoridade romana não chegara nenhuma notícia sobre qualquer coisa que, de algum modo, pudesse ameaçar a paz legal”, acrescenta.

Na conversa com Pilatos, Jesus admite a sua “realeza”, mas sublinha que “ninguém combate por essa realeza”, afirmação que, para o Papa, deveria “ser decisiva para o juiz romano”.

“No fim, a preocupação com a carreira é mais forte do que o medo diante das potestades divinas”, conclui Bento XVI, a respeito da decisão do governador romano, que opta pela condenação à morte.

“Uma absolvição do inocente não só podia prejudicá-lo a ele pessoalmente (este medo foi certamente um motivo determinante para o seu agir), mas podia também provocar novos dissabores e desordens que, precisamente nos dias da Páscoa, havia que evitar”, indica ainda.

A segunda parte da obra «Jesus de Nazaré» é lançada no Vaticano, a 10 de Março, e vai ser apresentada em várias dioceses de Portugal, a partir de dia 11.

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