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Considerações sobre a campanha da ATEA

charles-chaplin4Vivemos em uma sociedade diariamente acometida por diversos tipos de protótipos.

Um protótipo pode ser definido como o modelo primeiro de determinado objeto ou conceito. As pessoas geralmente modelam sua percepção de mundo por base em alguns desses protótipos.

Por exemplo, quando se fala em preconceito racial, as pessoas rapidamente associam o tipo de preconceito a uma pessoa de cor de pele branca sendo preconceituosa com uma outra pessoa de cor de pele negra. Isto é, o protótipo de preconceito racial é o preconceito de brancos para com negros.
Assim se segue em diversos setores da sociedade.

Mas o maior problema com o uso desta ferramenta cognitiva é que o protótipo (seja social ou não) pode gerar um tipo de tendenciosidade no que se refere a interpretação dos fatos cotidianos, levando o sujeito a não perceber certas coisas: no caso, o sujeito que lança mão de algum protótipo (vamos usar o exemplo do preconceito) e fixa sua consciência nele, terá uma chance menor de detectar um caso de preconceito contrário ao protótipo previamente estabelecido (e.g. dificilmente dirá que um negro agiu com preconceito para com um branco porque a palavra “preconceito” está atrelada em sua mente ao inverso).

Em suma, um protótipo, na maioria das vezes, maqueia a “realidade”.

Mas onde quero chegar?

Nos últimos dias, a Associação brasileiro de Ateus e Agnósticos (ATEA), depois de algum esforço e recusas a sua “campanha dos ônibus”, finalmente conseguiu algum sucesso em Porto Alegre, onde a campanha passou a ser exibida pela capital em formato de outdoors.

Segue abaixo um trecho da matéria indicada pelo site da ATEA sobre o conteúdo dos outdoors:

    “(…)As peças são polêmicas e falam sobre fé, moralidade e ateísmo. Uma delas exibe as fotos de Charles Chaplin, que era ateu, e Adolf Hitler, que não era ateu, com os dizeres “religião não define caráter”. Outra afirma “Somos todos ateus com os deuses dos outros”, e traz imagens de uma divindade hindu, uma divindade egípcia e de Jesus de Nazaré, com as legendas “mito hidu”, “mito egípcio” e “mito palestino”. Uma terceira diz que “A fé não dá respostas, só impede perguntas”. Os cartazes devem ser exibidos ao longo de um mês (…) Para o presidente da entidade, Daniel Sottomaior, o propósito da campanha é aproximar o ateísmo do dia-a-dia da sociedade e assim ajudar a diminuir o preconceito que existe contra ateus.” (você pode ver a reportagem completa com as imagens aqui). Grifos meus.

Como a campanha tem claramente um teor militante (e você verá isso no decorrer do texto), merece ser comentada.

Segue abaixo algumas breves considerações:

Primeiramente, é consenso, não só entre os teístas e religiosos de forma geral mas também entre muitos ateus, que a campanha é totalmente tendenciosa e que, a despeito do que Daniel Sttomaior afirma, não tem como objetivo promover o diálogo sadio ou aproximar o ateísmo da sociedade, mas sim o de promover um ataque gratuito e sutil a fé das pessoas.

Podemos começar pensarmos no número de pessoas simples (sem muita bagagem intelectual) que passarão pelos outdoors todos os dias. A imagem que terão, em uma associação simples e rápida, é a de que suas crenças estão sendo comparadas com um personagem odiado e taxado historicamente como um símbolo de crueldade, como é a figura de Hitler. Será que depois dessa associação as pessoas realmente passariam a ver os ateus de forma melhor (partindo do pressuposto de que realmente haja preconceito contra ateus)?

Ou seja, as chances de que dessa forma o ateísmo ficará mais próxima da sociedade são, levando em conta o número de pessoas religiosas e simples que existem no Brasil (demografia de Porto Alegre), muito baixas.

Isso, é claro, sem contar na analogia feita entre Jesus, Xiva e Rá. O criador da campanha pretende dizer que um cristão (que crê em Jesus) é ateu em relação a Rá (um “mito egípcio”) ou a qualquer outra divindade não cristã. Uma incoerência semântica (não tem como um teísta ser ateu em relação a outro deus, porque A-teu é justamente um SEM-deus: na verdade, existem alguns cristãos que realmente acreditam que figuras mitológicas como Rá, Osíris, Baal, existem e são representações de demônios), embora me pareça que o uso do termo “ateus para outros deuses” não passe de uma figura de linguagem.

Mas além disso está o fato de que a idéia vendida pela campanha falha em comparar uma pessoa histórica como Jesus com mitos, ignorando todo o estudo acadêmico, tanto histórico quanto teológico, sobre a pessoa de Jesus em suas diversas “faces” (Jesus como um profeta, um simples judeu, ou como a manifestação do Logos divino), coisa que não é possível de se fazer com os personagens em questão, pois se tratam de mitos – e é óbvio que um outdoor não poderia contemplar dados tão contundentes; mas o que soa mais honesto, publicar imagens associadas erroneamente (falsa analogia) para passar uma mensagem (os fins justificando os meios) ou pensar em uma outra forma de passar esta mensagem?

Em segundo lugar, a campanha erra, ataca e ofende, ao dizer que a “fé não da respostas, só impede perguntas” com uma imagem de fundo de uma pessoa atrás de grades com uma bíblia em mãos, passando a idéia de que a fé aprisiona.

Sobre isso, dois pontos precisam ser levantados: primeiro, a fé fornece SIM respostas; mas respostas a nível espiritual e até metafísico (não que a religião faça metafísica), não científico; segundo, será mesmo que a fé impede as perguntas como a campanha vende? Uma afirmação solta e reticente não tem muito significado além de mero apelo psicológico. Por que a fé impediria as perguntas se grandes mentes religiosas (que obviamente tinham fé) foram responsáveis por grandes progressos na história do conhecimento e da arte (Newton e as contribuições para a Física; Lemaître e as contribuições para a Cosmologia; Agostinho e as contribuições para a Psicologia; Mendel e as contribuições para a Biologia; Dostoievski e Tolstoi e as contribuições para a Literatura; entre muitos outros – mais sobre isso aqui.)?

Bom, qualquer um que ache que isto é uma forma saudável de produzir diálogo, realmente precisa rever seus conceitos sobre percepção e imagem; talvez começando a campanha do zero e dessa vez partindo do pressuposto de que as chances de que seu vizinho te ouça sobre alguma questão são bem menores se você chegar na casa dela arrombando a porta e gritando.

E para terminar: lembra sobre o que eu falei sobre protótipos no início do texto?

É muito comum que, quando ouvimos falar sobre intolerância religiosa, pensemos em uma pessoa colocando sua religião em detrimento de uma outra religião ou de algum comportamento antagônico aos seus dogmas. Bom, analisando essa campanha, parece que esse protótipo pode impedir muitos de visualizarem um caso claro de intolerância religiosa por parte de alguns ateus portadores de conceitos completamente equivocados e tendenciosos sobre a religião em seus múltiplos aspectos.
(Inclusive, a parte dedicada no site da ATEA para “refutar” os “argumentos” teístas é bem, digamos, tendenciosa e rasa, bem a gosto das “refutações” dirigidas pelos novos ateus em seus respectivos livros).

Enfim, se é através de comparações esdrúxulas, falsas analogias e frases vagas e despidas de conteúdo sério, que a ATEA pretende aproximar o ateísmo da sociedade, então realmente estamos indo pior do que eu imaginava.

Fonte:  Teísmo.net

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