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A controvérsia das Imagens

imagens_artigo_thumbA controvérsia iconoclasta teve como uma de suas conseqüências um maior distanciamento da Itália e do lmpério bizantino. Esse afrouxamento religioso, administrativo e político foi um dos antecedentes do cisma de 1054 entre orientais e ocidentais. Estudemos agora o debate iconoclasta; este ocorreu numa época em que os principais artigos da fé tinham acabado de ser formulados (em 681 o monotelitismo, fora condenado; ver capítulo 10); versava sobre uma prática tradicional dos cristãos.

Os inícios da controvérsia

Já os primeiros cristãos usavam imagens nos lugares de culto, nos cemitérios e nas catacumbas. Sabiam que a proibição de fazer imagens em Ex 20,4 era contingente ou devida ao perigo de idolatria que ameaçava o povo de Israel cercado de nações pagãs. Ademais o fato de que Deus apareceu sob forma visível no mistério da Encarnação parece um convite a reproduzir a face humana do Senhor e dos seus amigos.

As primeiras imagens eram inspiradas pelo texto bíblico (cordeiro, Bom Pastor, pomba, peixe, âncora, Daniel, Moisés); mas podiam também representar o Senhor, a Virgem Maria, os santos Apóstolos e mártires. Desde os inícios da arquitetura sacra, as igrejas foram enriquecidas com imagens tanto a título de ornamentação quanto a título de instrução dos iletrados.

No século IV, ouve´se uma ou outra voz contrária às imagens; assim a do concílio regional de Elvira (cerca de 306). O Papa S. Gregório Magno († 604), porém, escrevia a Severo, bispo de Marselha, que mandara destruir imagens por causa do perigo de falso culto: “Era preciso não as quebrar, pois as imagens não foram colocadas na igreja para ser adoradas, mas apenas para instruir as mentes dos ignorantes” (ep. 9,105).

O culto das imagens foi-se ampliando na Igreja, principalmente no Oriente; os monges e os simples fiéis muito as estimavam. Todavia no início do século VIII acendeu-se uma controvérsia sobre as mesmas, que durou mais de um século (com breve pausa) e deu ocasião à violência de toda espécie. A luta foi aberta pelo Imperador Leão III o Isáurico (717´741). Vejamos em que circunstâncias: Em 723 o califa Yezid mandou destruir todas as imagens dos templos e casas de seus súditos, quer muçulmanos, quer cristãos.

Maomé mesmo não proibia as imagens, mas os seus sucessores o fizeram. A proibição do califa Yezid provocou entre os cristãos um movimento iconoclasta, que se comunicou ao Imperador e a diversos bispos. As razões que devem ter movido o monarca, foram, além da influência de judeus e muçulmanos, a própria personalidade do Imperador. Este queria reorganizar o Império promovendo a unidade religiosa condição da unidade política no reino; ora as imagens eram um ponto de discórdia entre judeus e maometanos, de um lado, e cristãos, do outro lado. Leão III tinha índole fortemente absolutista e cesaropapista; dizia textualmente que era “Imperador e Sacerdote”; devia, portanto, subordinar ao seu poder a Igreja e, em particular, os monges, sempre ciosos da liberdade.

Quem considera esta tendência do Imperador, há de reconhecer que a defesa das imagens por parte dos católicos era não somente uma questão de ortodoxia, mas também o desejo de afirmar a independência da Igreja frente ao despotismo imperial. A luta ardente Por conseguinte, em 726 Leão III investiu contra as imagens por palavras e gestos violentos. Procurou o apoio do Patriarca Germano de Constantinopla, que lhe resistiu. Escreveu também ao Papa Gregório II, ameaçando depô-lo, caso defendesse as imagens. Gregório em duas cartas condenou a conduta do Imperador, dizendo-lhe que a questão era da competência dos bispos.

Ao saberem da imposição do Imperador, as populações do Norte da Itália teriam eleito novo Imperador se o Papa não as tivesse dissuadido. Havia na época motivos de animosidade entre bizantinos e ocidentais: o Império acabrunhava de impostos a Itália; mais de uma vez, funcionários do Imperador haviam atentado contra a vida do Papa; Gregório II, porém, manteve-se leal e exortou os italianos à sujeição. Também os habitantes da Grécia se revoltaram, proclamando um anti-Imperador, Cosmas; mandaram a Constantinopla uma frota numerosa, que foi vencida com seus chefes. Isto tudo só contribuía para irritar cada vez mais o Imperador. Em 730, Leão III depôs o Patriarca Germano e conseguiu a eleição de Anastásio, iconoclasta. Este logo publicou um edito contra as santas imagens; clérigos, monges e monjas foram decapitados e mutilados… Em 731 o Papa Gregório III convocou um Sínodo em Roma, que puniu com a excomunhão quem combatesse as imagens. Leão III, exasperado, mandou uma frota à Itália, que foi destruída no Mar Adriático por violenta tempestade (732); confiscou os bens da Igreja Romana na Calábria e na Sicília e, a quanto parece, quis subtrair à jurisdição de Roma territórios ocidentais, que ficariam sujeitos ao Patriarcado de Constantinopla. O filho de Leão III, Constantino V Coprônimo, subiu ao trono em 741. Queria convocar um Concílio para decidir a questão; antes, porém, escreveu um tratado de (índole iconoclasta, que chegava a por em xeque definições dos Concílios de Efeso e Calcedônia a respeito do mistério da Encarnação: por exemplo, Maria não devia ser dita “Mãe de Deus”, mas apenas “Mãe de Cristo”.

O Concílio convocado pelo Imperador reuniu´se em 754 e em Constantinopla com a presença de 338 bispos, sem o Papa nem os Patriarcas orientais. Declarou o culto das imagens obra de Satã, e nova idolatria. Tal Concíclio não era legítimo; por isto, foi excomungado pelo Papa Estevão III em 769. Em conseqüência, a perseguição aos fiéis ortodoxos se tornou bárbara: em todas as igrejas as imagens foram removidas ou substituídas por motivos profanos (árvores, pássaros…).

Os monges eram quase os únicos a opor resistência: muitos mosteiros foram destruídos ou transformados em quartéis, arsenais…. Fez-se tudo para tornar o monaquismo odioso aos cristãos: foi proibido o hábito monásticos; os iconoclastas procuraram seduzir os monges para prevaricação com mulheres; muitos tiveram os olhos crivados, a barba queimada, os cabelos arrancados…. A situação era comparável à dos piores dias do paganismo. Finalmente Constantino V morreu em 775, recomendando´se à Mãe de Deus; da qual fora adversário. Seu filho Leão IV mostrou´se mais tolerante que seu pai, mas não revogou os decretos anteriores. Faleceu em 780, sucedendo´lhe a Imperatriz Irene como regente do filho Constantino VI.

Irene era piedosa, amiga das imagens e dos monges, embora ambiciosa. Permitiu logo o culto das imagens e, a conselho dos Patriarcas Paulo e Tarásio de Constantinopla, e de acordo com o Papa Adriano, a regente convocou um Concílio ecumênico. Este, de fato, se reuniu em 787, com a presença de dois legados papais, em Nicéia. Foi o sétimo ecumênico e o segundo de Nicéia, freqüentado por 350 bispos. Notemos que a primeira sessão desse Concílio se reuniu já em 786 em Constantinopla, mas teve que se dissolver, porque Os militares, iconoclastas, apoiados por alguns bispos, impediram os trabalhos, que teriam sido um triunfo da ortodoxia.

Em Nicéia, o falso Concílio de 754 foi rejeitado; a intercessão dos Santos e o título “Mãe de Deus” foram reabilitados. Os conciliares declararam, apoiados na tradição, que às imagens de Cristo, de Maria Virgem, dos anjos e dos Santos convém uma veneração honorífica com lamparinas, incenso, inclinações, pois essa veneração recai sobre o protótipo (ou a pessoa representada); ao contrário, a verdadeira adoração compete a Deus só. A última sessão desse Concílio realizou´se em Constantinopla, sob a presidência da Imperatriz regente e de seu filho, que assinaram a definição conciliar; isto lhes valeu as aclamações dos padres conciliares e dos fiéis, dirigidas ao novo Constantino e à nova Helena.25 As decisões de Nicéia II ficaram em vigor no Oriente durante quase trinta anos, ou seja, até 813.

Ecos tardios e fim No Ocidente reinava Carlos Magno. O Papa Adriano procurou fazer que o monarca reconhecesse os decretos de Nicéia II; mas o soberano se lhes opôs, porque ´ era ambígua ou errônea a tradução latina das atas de Nicéia II; Os latinos conheciam cada vez menos o grego; por isto deram a entender que o culto de adoração, devido exclusivamente à SS. Trindade, havia de ser prestado às imagens; ´ reinava forte tensão política entre o Ocidente e Bizâncio ´ a ufania de Carlos Magno não lhe permitia reconhecer um Concílio do qual não tivessem participado bispos francos.

O rei então convocou um Concílio de 300 bispos francos para Francoforte em 794. Sob a presidência de Carlos, os conciliares condenaram as decisões do Niceno II. O Papa Adriano I, que defendia o Concílio de 787, tomou uma atitude de reserva e prudência para evitar ulteriores amarguras ou mesmo represálias da parte do monarca. Em breve, porém, também no Oriente foram atacadas as decisões do Niceno II. O Imperador Leão V em 815 renovou o iconoclasmo, atribuindo ao culto das imagens as desgraças do Império na guerra contra os sarracenos. Os decretos de 754 foram postos de novo em vigor; Os monges, mais uma vez, foram especialmente atingidos. Como na primeira fase da disputa se distinguira São João Damasceno (†749)qual campeão da ortodoxia, nesta segunda etapa sobressaiu o monge Teodoro de Studion, intrépido entre os maus tratos, a flagelação e o exílio A perseguição durou cerca de três decênios. Paralelamente à primeira fase do iconoclasmo, depois de três imperadores heterodoxos, surgiu uma mulher, a Imperatriz viúva Teodora, como regente de seu filho menor Miguel III; Teodora sempre fora amiga das imagens; conseguiu que um sínodo em Constantinopla (843) reabilitasse o culto das mesmas.

Para a perpétua recordação deste feito, os gregos introduziram no seu calendário a “grande festa da ortodoxia”, que todos os anos, no primeiro domingo da Quaresma, comemorava esta vitória e todas as demais vitórias levadas sobre as heresias na Igreja. Sabe-se que até hoje os orientais dedicam grande veneração aos seus ícones, símbolos de valores transcendentais. O ardor da nova discussão comunicou-se também ao Ocidente. Em 824 o Imperador Miguel II mandou uma legação ao rei Luís o Piedoso dos francos convidando´o a uma ação comum iconoclasta. Luís, com a licença do Papa Eugênio II, em 825 reuniu bispos e teólogos em Paris a fim de estudarem o assunto. Essa assembléia manifestou-se no sentido do Concílio de Francoforte (794), que, aliás, tomou posição contrária ao Niceno II, mas em termos assaz ambíguos, como se depreende desta fórmula: as imagens não devem ser nem adoradas nem veneradas nem destruídas, mas hão de ser conservadas em memória daqueles ou daquilo que representam. Não se sabe qual tenha sido a atitude do Papa diante deste pronunciamento de Paris. Finalmente o bibliotecário Anastásio refez a tradução das atas do Concílio de Nicéia II sob o Papa João VIII (872´882). Isto permitiu que as determinações conciliares fossem finalmente aceitas no Ocidente; grande parte da problemática se achava na deficiência de tradução.

Como se percebe, a veemência e a duração da controvérsia iconoclasta se devem ao cesaropapismo dos Imperadores. Os Papas perceberam que nada mais tinham a esperar dos Imperadores Bizantinos, pois, desde a época do arianismo(século IV), haviam freqüentemente favorecido as heresias e perseguidos os pastores e fiéis ortodoxos; as suas intervenções dogmatizantes eram, muitas vezes, movidas por razões políticas. Pode´se, pois, dizer que o iconoclasmo se ligam intimamente a origem do Estado Pontifício, a proclamação do Império Romano no Ocidente e, de maneira mais remota, mas não menos real, o cisma grego de 1054; por mais de um século Oriente e Ocidente tinham estado em dissensão e, quando em 843 a luta iconoclasta terminava, já Fócio, o campeão do cisma, aparecia na corte da Imperatriz Teodora, para em breve subir à cátedra patriarcal de Constantinopla. Com toda a razão, Teodoro de Studion, um dos últimos grandes católicos de Bizâncio, clamava o Papa: “Salva-nos, arquipastor da Igreja que está debaixo do céu; pereceremos!”

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