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AS testemunhas de Jeová e a Bíblia

tjeovaEm síntese: As Testemunhas de Jeová apregoam o próximo fim do mundo dominado pela Serpente ou por Satanás. Dando preponderância ao Antigo Testamento sobre o Novo, negam a Divindade de Cristo e o mistério da SS. Trindade, o que faz que já não possam ser considerados cristãos.

A sua mensagem se prende à interpretação singular e arbitrária que fazem das Escrituras Sagradas; violentando o texto, apresentam uma tradução da Bíblia que não corresponde à dos Protestantes e, muito menos, à dos Católicos.

Especialmente estranha é a introdução do nome Jeová nos livros do Novo Testamento, escritos em grego; Jeová também não se encontra no texto hebraico do Antigo Testamento, mas resulta da combinação das consoantes J H W H com as vogais de A D O N A Y (meu Senhor) feita pelos judeus medievais.

É notícia a propaganda que fazem de suas idéias as Testemunhas de Jeová, das quais dão freqüentes notícias os jornais e revistas. Verifica-se, porém, que a maioria da população está pouco informada a respeito do que tal corrente professa e significa na sociedade contemporânea. Eis por que passamos a apresentar um pouco da história dessa denominação e a maneira como trata a Bíblia, pois este ponto é altamente significativo para se conhecer a índole das Testemunhas.

1. Esboço histórico

O jeovismo (como o chamam alguns estudiosos) teve origem nos Estados Unidos da América por obra de Charles Taze Russell (1852-1916).

Era filho de um comerciante de Allegheny (Pennsylvania). Pouco depois dos quinze anos entrou em crise religiosa por causa das doutrinas da punição eterna e da predestinação. Superou a problemática lendo intensamente a Bíblia; sem outro preparo, com dezoito anos de idade reuniu amigos para a leitura semanal da Bíblia (de 1870 a 75). Foi-se aproximando aos poucos da corrente adventista, que havia fixado a data do fim do mundo para 1844. Em 1877, Russell escreveu o livro “Três mundos e a messe deste mundo”, em que afirmava: em 1874 Cristo voltou invisivelmente à Terra; levará para o paraíso os seguidores de Russell em 1914, ou seja, quarenta anos mais tarde. Este anúncio encontrou ressonância positiva em muitos admiradores de Russell. Entrementes, porém, o mestre esteve envolvido em problemas sociais diversos, como reconheciam os seus próprios discípulos: separou-se da esposa após dezoito anos de vida conjugal; vendeu sementes de trigo comuns como sendo grão milagroso, que valia um preço mais elevado do que o comum. Foi acusado de imoralidade, coisa de que o defenderam os seus discípulos.

Passou-se o ano de 1914 sem que Russell visse o cumprimento de sua “profecia”. Morreu em 1916, com 64 anos de idade.

Os seus seguidores, chamados “Sérios Estudiosos da Bíblia” ou “Russellianos”, perplexos com a não verificação dos dizeres do mestre, dividiram-se em diversos grupos, ficando à frente de um destes Joseph Franklin Rutherford (1869-1942).

Este novo mestre refez os cálculos para a segunda vinda de Cristo, estipulando os anos de 1918 e, depois, 1925. Introduziu várias mudanças na sua congregação: abolição da cruz de dois braços, extinção de todas as festas clássicas (Natal, Epifania, Páscoa…); direcionamento para Jeová, que desviou a seita da sua linha cristã (a 1º/03/1939 a revista jeovista “Torre de Vigia” substituiu o seu sub-título “Arauto da Presença de Cristo” por “mensageiro do Reino de Jeová”!). Aos 26/07/1931, Rutherford deu aos seus seguidores o nome de “Testemunhas de Jeová”, aos quais ele impunha direção fortemente autoritária.

O sucessor foi Nathan Homer Knorr (1915-1977), desde 1942. Formou emissários da doutrina jeovista de tempo integral; proibiu as transfusões de sangue em 1944/5, e profetizou o fim do mundo para 1975, valendo-se, como os seus antecessores, de textos bíblicos (especialmente de Daniel). Também morreu sem ver cumprida a sua predição.

Depois de Knorr, a direção suprema passou para Frederick W. Franz. Este continuou a incutir a iminência da consumação da história, mas sem definição de data precisa.

As Testemunhas são fervorosos mensageiros de catástrofes, que se devem desencadear sobre o mundo sujeito à Serpente ou a Satanás. O seu pessimismo leva-os a rejeitar até mesmo instituições de ordem social, como o serviço militar, a celebração de aniversários natalícios, o dia das Mães, o dos Pais, a antiga Liga das Nações, etc. – É o que torna tal corrente fanática e infensa aos que não compartilham suas idéias.

A organização das Testemunhas é assaz autoritária, como dito.

Compreende: 1) o Corpo de Direção, ou seja, o Presidente e quinze e dezoito assessores, que gozam de amplos poderes. Seguem-se 2) as Sedes Filiais, que zelam pela execução das diretrizes gerais em cada nação ou em amplos territórios; são chefiadas por equipes de três a sete pessoas. As Filiais se subdividem em 3) Distritos. Estes, por sua vez, compreendem 4) Circunscrições, que constam de 5) Congregações (o eqüivalente de paróquias). Cada Congregação tem seu Salão do Reino, que não é chamado “igreja”. Cada Congregação, a seu turno, consta de áreas, que as Testemunhas costumam percorrer, passando de casa em casa, com a sua Bíblia e seus livros doutrinários. A Congregação é dirigida por Anciãos.

Duas são as revistas editadas pelas Testemunhas nos Estados Unidos (Brooklyn) em várias línguas: “Torre de Vigia” e “Despertai!”. Isto faz que a doutrina das Testemunhas seja uniforme; nas sessões de doutrinação, os novatos aprendem a responder exatamente a perguntas clássicas que os mestres lhes fazem; quem destoa da forma oficial de responder ou de proclamar a mensagem, é desligado da Congregação.

As Testemunhas refizeram a tradução da Bíblia para seu uso, a fim de torná-la esteio (ao menos, aparente) das suas proposições doutrinárias. Este traço é típico de tal denominação. Embora digam que seguem os originais hebraico e grego, qualquer estudioso que se aprofunde no assunto, pode verificar que o texto crítico original da Bíblia não fundamenta a versão das Testemunhas; para o comprovar, basta lembrar que nenhuma denominação protestante (e muito menos a Igreja Católica) traduz como as Testemunhas traduzem; estas, nos últimos decênios, terão descoberto o verdadeiro sentido das Escrituras, que os estudiosos de dezenove séculos (católicos e não católicos) nunca perceberam!

Eis como os fatos se apresentam.

2. A tradução Bíblica das Testemunhas

A tradução da Bíblia editada pelo jeovismo tem por título “Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas. Tradução da versão inglesa de 1961 mediante consulta constante ao antigo texto hebraico, aramaico e grego”. Além do texto sagrado, apresenta o que se chama geralmente “Chave Bíblica” (ocorrências de certos vocábulos nas Escrituras) e dois Apêndices, que reúnem citações atinentes aos termos nefesh (alma, segundo as Testemunhas) e Jeová, palavras-chaves para o jeovismo.

Eis alguns exemplos de falta tradução do texto bíblico:

2.1. Jeová

Nenhum manuscrito grego apresenta a palavra Jeova¹, que nem sequer se encontra no texto hebraico, como diremos a seguir. Não obstante, Jeová aparece no texto português de Mt 1,20.22..24; 2,13.15.19; 3,3; 4,4.7.10; 5,33… A lista continua até Ap 22,6.

Ora este fato é verdadeira aberração lingüística.

Com efeito. O nome Jehveh é o nome revelado por Deus a Moisés, conforme Ex 3,14s. Tornou-se muito freqüente no Antigo Testamento, onde ocorre 6.820 vezes, não, porém, no Cântico dos Cânticos, nem em Ester, nem no Eclesiastes. – Os hebreus só escreviam as consoantes J H V H, suprindo mentalmente as vogais a e.

Após o exílio (587-538 a.C.), porém, os judeus tendiam sempre mais a não pronunciar o santo nome de Deus, a fim de não correr o risco de o profanar; quando, pois, encontravam as quatro consoantes sagradas, pronunciavam Adonay (meu Senhor). Ora, nos séculos VI e seguintes após Cristo, os massoretas (rabinos judeus) quiseram colocar as vogais por escrito no texto bíblico; mas ao nome de J H V H não deram vogais, apenas escreviam na sua proximidade as vogais de A D O N A Y, a saber: a mudo (com pronúncia de e), o e a². Donde se fez Jehovah. Vê-se, pois, que o nome Jeová nem sequer está na Bíblia, mas resulta da combinação, feita pelos judeus medievais, dos nomes Jahveh e Adonay.

2.2. A Santíssima Trindade

As Testemunhas não interpretam o Antigo Testamento à luz do Novo Testamento, o que contraria a toda a tradição cristã, que diz: “O Antigo Testamento está patente no Novo, e o Novo está latente no Antigo”.

O próprio texto bíblico em Hb 1,3s nos diz que Deus falou outrora muitas vezes de vários modos aos Pais pelos Profetas, mas nos últimos tempos nos falou pelo Filho, que é a sua própria Palavra (Jo 1,1..14). Também nos diz que Cristo é o Fim ou o ponto de chegada da Lei de Moisés (Rm 10,4).

Em vez de dar preponderância ao Novo Testamento, as Testemunhas subordinam-no ao Antigo. Por isto não aceitam o mistério da SS. Trindade; negam, pois, a Divindade de Jesus Cristo (= Deus feito homem) e a do Espírito Santo.

Em conseqüência, infligem violência a alguns textos do Novo Testamento, a saber:

2Cor 13,13: o texto original diz: “A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós”.

As Testemunhas, porém, traduzem: “A benignidade imerecida do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus e a participação no espírito santo sejam com todos vós”. Escrevendo “espírito santo” com letras minúsculas (como sempre fazem), os jeovistas querem insinuar que ele não é a terceira Pessoa da SS. Trindade.

Quanto à segunda Pessoa, também não é reconhecida como Deus, conforme se vê a seguir.

2.3. Jesus Cristo

Cl 2,9: “Em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”. Este texto é traduzido por: “Em Cristo mora corporalmente toda a plenitude da qualidade divina”. Ora em grego theótes é a Divindade ou a natureza de Deus.

Hb 1,8: “Ao Filho diz: “O teu trono, ó Deus, é para os séculos”. As Testemunhas lêem: “Com referência ao Filho: “Deus é o teu trono para sempre”. Assim a palavra Deus já não se refere a Jesus Cristo, mas ao Pai.

Em Cl 1,16s o texto jeovista acrescenta entre colchetes o adjetivo outras para insinuar que o Cristo também é uma criatura, a primeira criatura. Assim, pois, lêem eles:

“Mediante ele foram criadas todas as [outras] coisas nos céus e na terra, as coisas visíveis e as coisas invisíveis, quer sejam tronos, quer sejam senhorios… Todas as [outras] coisas foram criadas por intermédio dele e para ele. Também ele é antes de todas as [outras] coisas e todas as [outras] coisas vieram a existir por meio dele”.

Para as Testemunhas de Jeová, Jesus não é mais do que um homem, o segundo Adão, que teve por papel realizar positivamente o que o primeiro fizera negativamente; assim Jesus terá restituído à humanidade o paraíso terrestre (entendido física e geograficamente), que o primeiro Adão perdeu.

Conforme o jeovismo, Deus criou primeiramente Jesus e serviu-se deste para criar as outras criaturas ou o mundo angélico, humano, infra-humano. Mais exatamente: antes de criar o mundo, Deus criou dois filhos – Jesus (que tinha o nome de Miguel Arcanjo) e Lucífero. Este pecou e induziu o homem ao pecado, tornando-se o Príncipe deste mundo. Jesus na terra era apenas o representante de Deus, que veio dizer Sim ao Eterno, em reparação do Não que lhe dissera Adão.

Para firmar sua posição, as Testemunhas se valem de textos bíblicos, entre os quais

Jo 14,28: “O Pai é maior do que eu”. Na verdade, Jesus aqui fala de si como homem ou como Messias, tanto que a frase citada começa pelas palavras: “Vou para o Pai porque o Pai é maior do que eu”. Aliás, no começo do mesmo capítulo 14 de João, Jesus se apresentara como Deus: “Filipe, quem me viu, viu o Pai… Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim?… O Pai que está em mim, realiza as suas obras… Eu estou no Pai e o Pai está em mim” (Jo 14,9-11).

Mc 14,32: “A respeito do dia e da hora… ninguém sabe, nem o Filho, mas somente o Pai”. – Jesus, neste caso, fala como homem e Messias: não estava em sua missão de Messias revelar aos homens o dia e a hora do juízo final. Jesus mesmo disse: “Não compete a vós saber os tempos e os momentos que o Pai dispôs em seu poder” (At 1,7).

1Cor 15,28: “E, quando tudo lhe estiver submetido, também o Filho se submeterá Àquele que tudo lhe submeteu, para que Deus seja tudo em todos”. – De novo, a submissão mencionada é a do Messias; no fim dos tempos terá encerrado a sua obra messiânica e a entregará ao Pai consumada. “Para que Deus seja tudo em todos” não exclui que Jesus seja Senhor e Rei para sempre. Com efeito; lemos em Ef 5,5: “… no reino de Deus e de Cristo” e em 2Pd 1,11: “… o reino de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”.

2.4. Eucaristia

Em Mt 26,26-28; Mc 14,22-24; Lc 22,19s; 1Cor 11,23-25 as Testemunhas lêem: “Tomai, comei; isto significa meu corpo… Isto significa meu sangue do pacto”. Evidentemente tem-se aqui desvio do texto original, que diz, sem mais, esti (= é) e não semainei (= significa). Nem os protestantes, que não admitem a real presença de Cristo na Eucaristia, ousam retocar o texto bíblico a tal ponto; conservam os dizeres: “Isto é meu corpo… Isto é meu sangue”.

A Ceia do Senhor, entendida simbolicamente, deve ser celebrada uma vez por ano apenas, segundo as Testemunhas, que apelam para o uso da Páscoa judaica (Ex 12,14.18; Lv 23,4s). Esquecem que Jesus mandou repetir a Eucaristia em memória dele, e não da Páscoa judaica (Lc 22,19; 1Cor 11, 24-26) e que os primeiros discípulos eram assíduos na celebração da Eucaristia; cf. 2,42.

2.5. A cruz

As Testemunhas afirmam que a cruz é um símbolo pagão, que, por isto, deve ser eliminado da arte cristã. Jesus terá sido pregado a uma estaca, com as mãos transpassadas por um só prego. Em conseqüência, traduzem a palavra grega staurós (cruz) por “estaca, estaca de tortura”. Assim em Cl 1,20: “… fazer a paz, por intermédio do seu sangue na estaca de tortura”.

Gl 5,24: “Os que pertencem a Cristo Jesus, penduraram na estaca a carne com as suas paixões e desejos”.

Rm 6,6: “A nossa velha personalidade foi pendurada na estaca com ele”.

1Cor 1,17: “… a fim de que a estaca da tortura do Cristo não se torne inútil”.

O argumento segundo o qual a cruz era um instrumento usual entre os pagãos, nada prova, pois, na verdade, o Cristianismo, sendo a mensagem de Deus Encarnado, utilizou elementos humanos pré-cristãos para exprimir o que é de Deus: utilizou, sim, linguagem humana, carne humana, caminhos humanos, recursos humanos…, só não utilizou o pecado.

Objetam outrossim as Testemunhas que a palavra grega staurós significa originariamente um poste. – Respondemos que isto é verdade nos escritos de Homero, Esíquio e outros antigos. Mas é certo que passou a indicar duas traves (uma vertical e outra horizontal) atravessada uma na outra e que Jesus foi pregado não só a uma trave vertical, mas também à horizontal.

Com efeito; tanto os escritores pagãos como os cristãos nos dão a conhecer a Cruz com duas traves usual no tempo de Cristo para punir os criminosos: havia uma trave vertical geralmente fixa ao solo, chamada stipes ou staticulum, e uma outra dita patibulum, que era fixada à anterior em sentido horizontal.

O réu era preso à trave horizontal com os braços abertos e depois fixo ao poste vertical. Eis testemunhos significativos:

Plauto, poeta romano (+ 184 a. C.): “Patibulum ferat per urbem, deinde adfigitur cruci. – Carregue o patíbulo através da cidade; depois seja preso à cruz”.

Firmício Materno, retórico pagão feito cristão (séc. IV d.C.): “Patibulo suffixus, in crucem tollitur. – Pregado ao patíbulo, é erguido na cruz”.

A mais antiga representação da cruz de Cristo data do século II: no Palatino (Roma) se encontrou um grafito, que apresenta a Cruz com dois braços e um Crucificado com cabeça de asno, diante do qual se vê um indivíduo em adoração. – Uma inscrição explica: “Alexámenos venera o seu Deus”. – Este desenho bem ilustra como os antigos pensavam ter sido a Cruz de Cristo.

São Justino (+ 165 d. C..) observa que Moisés a orar com os braços estendidos (cf. Ex 17,10-12) era figura de Jesus intercedendo pela humanidade, pregado à Cruz (Diálogo com o judeu Trifão 90,4).

Tertuliano (+ 222 aproximadamente), autor cristão, diz que as aves com as asas abertas para voar significam a cruz de Cristo (De Oratione 29,4).

Todos estes testemunhos são anteriores ao Imperador Constantino (285-337), que, segundo as Testemunhas, terá introduzido a Cruz de dois braços na iconografia e na piedade cristãs.

2.6. Nefesh (= alma?)

As Testemunhas ensinam que a morte física destrói por completo a vida humana. Deus, porém, re-cria a vida dos justos, de modo que gozarão do paraíso, em lugar excelente, os 144.000 de que fala Ap 7, 1-8.

Os pecadores que morram obstinados nas suas faltas, não terão o inferno, mas, simplesmente, serão aniquilados por Deus; assim em Ez 18,4, segundo os jeovistas: “A alma que peca, essa morrerá”. – O bom ladrão teria, sim, a recompensa, mas só depois de haver sido destruído e recriado por Deus; daí a tradução de Lc 23,43: “Deveras eu te digo hoje: Estarás comigo no Paraíso”, terá dito Jesus ao bom ladrão – o que não corresponde ao modo geral de pontuar a frase: “Em verdade eu te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso”.

Para incutir a sua doutrina, as Testemunhas traduzem, sistematicamente, a palavra hebraica nefesh e a grega psyché por alma, de modo que, quando a Escritura diz que a nefesh ou a psyché morre, julgam que afirma a extinção do princípio vital ou da vida mesma do ser humano¹.

Para tentar provar que têm razão, os jeovistas apresentam, no fim da sua Bíblia, um Apêndice ou uma longa série de citações escriturísticas, nas quais a palavra nefesh lhes parece significar alma: assim Gn 1,20s.24.30;2,19;5,1;2Rs 12,4; 1Cr 5,21; Sl 19,7 … Disto resulta que Deus tem alma (1Sm 2,35; Pr 6,16; Is 1,14; 42,1…).

Ora quem abre qualquer Dicionário da Língua Hebraica, verifica que nefesh tem vários significados: hálito, garganta, avidez, alma, vida, o composto humano, e até cadáver… O mesmo se diga com relação ao vocábulo grego psyché.

Na verdade, já o Antigo Testamento afirma a sobrevivência de um núcleo da pessoa após a morte; era chamado refaim (sombras) e encontrava-se no cheol (lugar subterrâneo e tenebroso) adormecido ou inconsciente. Vejam-se, por exemplo, os seguintes textos:

Gn 15,15: “Quando a ti, em paz irás para os teus pais, serás sepultado numa velhice feliz”, diz Deus a Abraão;

Gn 25,8s: “Abraão expirou; morreu numa velhice feliz, idoso, e foi reunido à sua parentela. Isaac e Ismael, seus filhos, enterraram-no na gruta de Macpelá”.

Gn 35,29: “Isaac expirou. Morreu e reuniu-se à sua parentela…; seus filhos Esaú e Jacó o enterraram”.

Gn 49,39: “Quando Jacó acabou de dar suas instruções a seus filhos (= fosse sepultado em Macpelá, conforme o v. 29),… expirou e foi reunido aos seus”.

Em todos estes textos nota-se a distinção entre “reunir-se com os pais” e “ser sepultado”. Os cadáveres foram colocados na sepultura de Macpelá (que não era a sepultura dos antepassados de Abraão, filho da Mesopotâmia), ao passo que o cerne da pessoa (nefesh ou ruach) se reunia aos pais ou antenatos no cheol.

O cheol certamente não é o sepulcro, mas um imaginário lugar comum a todos os que deixam este mundo, conforme a concepção dos judeus antigos; vejam-se:

Gn 37,33.35: “Jacó disse: “É a túnica de meu filho! Um animal feroz o devorou. José foi despedaçado”… Ele recusou toda consolação e disse: “Não; é luto que descerei ao cheol para junto do meu filho”. – Se José havia sido devorado por uma fera, ele não teria sepultura; por conseguinte, o lugar onde Jacó esperava encontra-lo não era o sepulcro.

Jó 30,23: “Bem vejo que me levas à morte, ao lugar de encontro de todos os mortais”, disse Jó. Esse lugar de todos os mortais não pode ser a sepultura.

Nm 16,31-33: “O solo se fendeu sob os pés de Coré, Datã e abirã, a terra abriu a sua boca e os engoliu, eles e suas famílias, bem como todos os homens de Coré e todos os seus bens. Desceram vivos ao cheol, eles e tudo aquilo que lhes pertencia. A terra os recobriu e desapareceram do meio da assembléia”. – Vê-se que o cheol é tido como um lugar no profundo da terra, e não como uma sepultura.

2.7. Universalismo da salvação

Mt 28,19: “Ide, pois, e fazei discípulos todas as nações” é redigido pelas Testemunhas do seguinte modo: “Ide, pois, e fazei discípulos de pessoas de todas as nações”.

Tratar-se-ia de pessoas de cada nação, e não de todas as pessoas da terra. A razão da alteração realizada pelas Testemunhas é a seguinte: acreditam que apenas um pequeno número em cada país se salvará.

2.8. Desconsideração dos gêneros literários

A Linguagem humana de todos os tempos tem os seus gêneros literários ou suas maneiras de se exprimir: assim há um modo próprio de escrever uma carta, uma lei, uma poesia, uma página de história, um romance, uma parábola…

Cada gênero literário, assim como tem suas regras de redação próprias tem também suas regras de interpretação, de tal modo que não é lícito entender uma poesia como uma crônica, uma parábola como um romance, uma carta como uma lei… – Ora também na Bíblia há gêneros literários, que é preciso saber discernir a fim de não incidir em interpretações errôneas.

Todavia as Testemunhas não levam em conta tal fato: tomam ao pé da letra e interpretam simbolicamente os textos sem proceder ao exame literário e lingüístico dos mesmos, mas, antes, atendendo às suas premissas doutrinárias.

São estes alguns pontos que, entre outros, exemplificam bem o uso arbitrário ou violento que as Testemunhas de Jeová fazem da Bíblia para disseminar uma doutrina que apavora as pessoas incautas ou despreparadas.

A propósito ver:
¹ As Testemunhas dizem ter utilizado as edições críticas do Novo Testamento para fazer a sua tradução. Todavia quem consulta qualquer desses textos críticos (o de Westcott-Hort, o de Nestle, o de Bover, o de Merk, o de Kurt-Alland…) verifica que nenhum traz o vocábulo Jeová.
² Y em hebraico seria iod, uma semi-consoante, e não uma vogal (embora em português seja pronunciado como i).
¹ Eis o raciocínio das Testemunhas: Deus disse a Adão que ele havia de morrer (cf. Gn 3,19); ora Adão era uma nefesh (cf. Gn 2,7); donde… a alma há de morrer ou é mortal. – Não levam em conta que nefesh, em hebraico, pode significar o próprio homem inteiro, e não apenas a sua alma ou o seu princípio vital.

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