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A Bíbila: o livro e os livros

bibliapapiroNuma página célebre do Gênio do Cristianismo, Chateaubriand descreveu a desventura do leitor que pela primeira vez aborda a Bíblia. Mostra-o voltando as páginas e completamente perturbado ante essa sucessão de livros de aspectos tão diversos. Aqui e ali reconhecem-se de passagem alguns episódios, retidos da História Santa, Mas, a par disso, quantas páginas bizarras, incoerentes ou pura e simplesmente incompreensíveis! Descobre a existência dos Profetas, dos livros Sapienciais. Pasma também ao encontrar no mesmo volume o Evangelho e as epístolas de São Paulo que conhecia pelos extratos que delas dá o missal. E quê, isso também faz parte da Bíblia? Porque a maioria dos católicos crê que a palavra Bíblia não designa senão o Velho Testamento.

É, portanto, indispensável, antes de abordar a Bíblia, ter uma ideia sumária do seu conteúdo e das condições materiais em que ela nos chegou.

OS LIVROS DA BÍBLIA

A palavra “Bíblia” é a tradução portuguesa duma palavra grega que significa “Livro”. Foi, ao principio, usada pelos judeus de origem grega para designar os seus textos sagrados; mas quando a Igreja lhe acrescentou os primeiros escritos cristãos, fez incluir neste termo o conjunto dos livros por ela reconhecidos como inspirados. Por este meio, pretendia a Igreja exprimir a sua fé e mostrar que este conjunto de livros constitui para ela o Livro por excelência.

Com efeito, mesmo sob o ponto de vista material, nenhum livro teve um sucesso tão prodigioso. Desde os primeiros séculos da nossa era, a Bíblia vem sendo editada vezes sem conta, e traduzida em todas as línguas. Existem ainda, nos nossos tempos, dezenas de milhares de manuscritos bíblicos, enquanto que das obras clássicas mais célebres só dispomos de algumas centenas.

Estes manuscritos estão redigidos em hebraico, grego, latim, siríaco, árabe, armênio, georgiano, eslavo antigo, gótico, copta, sem falar dos dialetos da Idade Média, como o baixo-alemão, o flamengo, o saxão, o provençal, o veneziano, o toscano, o catalão, etc. E, nos nossos dias, apesar da enorme difusão da imprensa, ainda a Bíblia ultrapassa de longe a tiragem dos livros mais divulgados, em quase todas as línguas da terra. Na verdade, tendo em conta esta supremacia absolutamente incontestada, a Bíblia continua a ser de fato, o livro por excelência e o testemunho material, neste nosso século de ateísmo, da soberania da Palavra divina.

A Bíblia divide-se em duas partes: o Antigo Testamento e o Novo Testamento, O termo testamento é um pouco sibilino, É a tradução duma palavra grega que tanto pode designar contrato, como testamento. O termo era usado um pouco a esmo pelos judeus de língua grega num sentido religioso bastante complexo: significava o desígnio pelo qual Deus quis unir-se à humanidade e constituí-la herdeira dos seus benefícios.

O cristianismo distinguiu duas etapas na realização histórica deste dom: a aliança parcial feita entre Deus e o povo de Israel sob a égide de Moisés, e a nova aliança que a antiga preparava, e que, fundada por Cristo, se estendeu a toda a humanidade. A divisão dos livros da Bíblia corresponde a estas etapas. O Antigo Testamento agrupa todos os livros inspirados, escritos antes da missão pública de Cristo e reconhecidos como divinos pelo povo judaico. O Novo Testamento engloba os escritos de personalidades notáveis entre os discípulos de Jesus, cuja autoridade divina reconhece.

Antigo Testamento é, portanto, o conjunto dos livros Sagrados de origem judaica. A Igreja Católica considera como tais, 45; os protestantes reduzem o número a 38. A diferença deve-se a que, no tempo de Jesus, nem os próprios judeus estavam de acordo quanto ao seu número. Os judeus da Palestina só reconheciam como autênticos, trinta e oito escritos em hebraico; os judeus de língua grega, sobretudo em Alexandria, acrescentavam-lhe sete outros escritos geralmente nesta língua.

A Igreja Católica, que se desenvolveu sobretudo nas comunidades judaicas do mundo helenístico, recebeu dela a Bíblia grega. Preocupado em restaurar a beleza primitiva, o protestantismo rejeitou como “apócrifo” tudo o que se não conservou em hebraico, a saber os livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruch, I e II dos Macabeus, não falando já dos aditamentos gregos de Ester. Nós, os católicos, chamamos por vezes a estes livros deuterocanônicos, por oposição aos outros denominados protocanônicos porque só mais tarde se integraram no que se chama o Cânon das Escrituras. Mas o Concílio de Trento declarou-os todos inspirados.

Os judeus distinguiam três partes principais na sua Bíblia: a Lei, os Profetas e os Escritos. Esta divisão é mencionada no Novo Testamento (Lucas 24, 27 e 44) e mesmo 130 anos antes de Cristo, no prólogo grego do Eclesiastes. E, de resto, corresponde, mais ou menos, à formação sucessiva de três grandes compilações.

A primeira destas compilações chama-se Torá ou Lei. Agrupa, sobretudo, os textos legislativos do judaísmo, integrados no seu conteúdo histórico. É uma só e mesma obra, mas dividida em cinco livros; daí o ter sido chamada de Pentateuco. O Gênesis relata, em primeiro lugar, as velhas tradições de Israel sobre as origens da humanidade (capítulos 1-11); vêm depois as da nação israelita com as narrativas sobre Abraão, Isaac, Jacob e José, O Êxodo descreve a obra de Moisés e apresenta a propósito vários textos legislativos. O Levítico é praticamente um código de prescrições rituais, embora a sua publicação seja integrada na narrativa da estadia no deserto. Com os Números, retoma-se a história da peregrinação para a Terra Prometida, interrompida por algumas séries de leis. O Deuteronômio, por fim, refere-se aos acontecimentos que precedem a entrada na terra de Canaã e é apresentado como o testamento espiritual de Moisés; as últimas instruções do legislador são parafraseadas neste livro com um fervor especial e num tom de intensa objurgação moral, Assim é a Torá.

A segunda compilação tem menos unidade e intitula-se Os Profetas. O leitor pensará certamente que engloba as narrativas dos Profetas. Mas, antes disso, apresenta a maior parte dos chamados livros históricos, que têm um caráter muito diferente. Devemos, porém, notar que estes livros relatam a história do período em que mais se desenvolveu a atividade profética desde a entrada em Canaã até o exílio. Além disso, estes livros emanam de círculos literários inteiramente ligados ao profetismo.

O primeiro, Josué, e mesmo o segundo, os Juízes, são incontestavelmente a continuação dos cinco livros do Pentateuco, pelo seu tema e pelo seu estilo; por vezes, têm sido unidos a estes sob o nome de Heptateuco. São, no entanto, puramente históricos; um narra a conquista, o outro o período confuso que se segue. Com os chamados dois livros de Samuel (que formam um só) assistimos às origens da realeza graças às narrativas acerca de Saul e David. Os dois livros dos Reis, que também formam uma só obra, continuam a narrativa de Salomão, no exílio: e esta é a primeira série dos “profetas”. A segunda série engloba os oráculos proféticos em mais quatro livros: Isaías, Jeremias, Ezequiel e um livro que engloba os doze “profetas menores”, assim chamados em atenção à brevidade dos seus escritos. Se a segunda compilação é menos homogênea do que a primeira, a terceira é completamente heterogênea, e a sua unidade só pode concluir-se do fato de terem a mesma origem, pois a quase totalidade dos textos só ficou acertada após o exílio. Uns, como as Crônicas, que formam uma só e mesma obra com Neemias-Esdras, assemelham-se ao gênero histórico e descrevem em traços largos os escritos anteriores desde a criação, para referirem mais detalhadamente as fases da Restauração após o exílio; Rute (colocado antes de I Samuel nas nossas Bíblias, porque nos dá a genealogia de David), Tobias, Judite e Ester têm um caráter episódico. O I dos Macabeus é uma obra de grande valor que conta a epopéia nacional do segundo século; deve distinguir-se inteiramente do II dos Macabeus que é apenas um resumo edificante, escrito em grego, duma obra mais vasta e perdida, onde se narravam certos episódios impressionantes da luta. Um outro grupo, muito diferente deste e muito homogêneo, é constituído pelos chama dos livros sapienciais, assim chamados porque agrupavam sentenças morais. O mais antigo, Os Provérbios, tem, sem dúvida, um fundo anterior ao exílio. e o Eclesiastes pertencem ao terceiro século antes da nossa era. O Eclesiástico conservado na tradução grega do neto do autor, é um pouco anterior aos Macabeus no princípio do segundo século: o livro da Sabedoria foi escrito em grego pouco antes da era cristã.

A coleção dos Salmos, pelo conteúdo e pela forma que apresenta pode enquadrar-se neste grupo sapiencial, embora a sua finalidade litúrgica, no Templo, lhe confira um caráter próprio. Também podemos incluir no mesmo grupo, as Lamentações, atribuídas a Jeremias, e o Cântico dos Cânticos. Resta, finalmente, uma última obra que as Bíblias católicas incluem nos Profetas, tuas que entre os judeus fazia parte dos escritos, por representarem um gênero literário muito diferente: o Apocalipse de Daniel.

Os católicos habituaram-se, desde o século XIII, a substituir a divisão hebraico em três partes por uma outra mais de acordo com o seu conteúdo. Numa primeira série intitulado “livros históricos” estão incluído o Pentateuco, os livros de Josué, Juízes, Rute, Samuel, Reis, Crônicas, Neemias-Esdras, Tobias, Judite, Ester, e I e II dos Macabeus. Um segundo ciclo, “didático”, engloba os livros sapienciais, os Salmos e o Cântico dos Cânticos. A lógica deste agrupamento é discutível, porque põe entre os livros históricos todos os escritos legislativos e obras de caráter moral, como Tobias, Judite e Ester. Faz também do Cântico dos Cânticos um livro didático e liga Daniel aos Profetas, com os quais só artificialmente se assemelha. Por conseguinte, é preferível a antiga divisão judaica que parece respeitar melhor as fases concretas da formação das compilações.

O inventário dos livros do Novo Testamento é muito mais fácil de fazer. Compreende quatro escritos históricos sobre Jesus, chamados Evangelhos; uma narrativa acerca dos primeiros tempos da igreja: os Atos dos Apóstolos; as 14 Epístolas de São Paulo; e 7 Epístolas chamadas católicas, porque algumas delas são dirigidas a um grande número de comunidades: duas de Pedro, uma de Tiago, uma de Judas e três de João; e finalmente, o Apocalipse. Ao todo, são 27 obras, na maioria modestas no tamanho e algumas até muito reduzidas.

A classificação de todos estes escritos é difícil, pela grande variedade que apresentam. Muitas vezes, retoma-se a divisão em livros históricos (4 Evangelhos e Atos), didáticos (São Paulo e Epístolas católicas) e proféticos (Apocalipse), Mas também aqui a divisão é bastante deficiente. Põe um escrito tão doutrinal como é o Evangelho de São João em pé de igualdade com os outros evangelhos, separa as obras do mesmo autor e dá ao Apocalipse uma marca que não lhe ficou melhor que ao livro de Daniel.

Portanto, podemos apresentar uma divisão menos abstrata, distinguindo, primeiramente, os evangelhos sinóticos, que seguem uma marcha muito paralela. Em seguida, o grupo paulino com os Atos, de que o herói principal é São Paulo, narrados pelo seu discípulo Lucas, e as 14 Epístolas que se ligam ao nome do grande Apóstolo. Uma terceira compilação a que se dá o nome de joanina, compreende as obras do discípulo bem amado: o Evangelho de São João, as suas três epístolas e o Apocalipse. Por fim, uma quarta compilação reúne as Epístolas católicas. Esta divisão oferece a vantagem de respeitar o caráter concreto de todos os escritos e reflete também melhor as fases principais da formação do Novo Testamento.

Como vemos, não há nada mais variado que o conteúdo da Bíblia. Todos os gêneros estão nela representados como, de resto, todas as épocas duma literatura. O que lhe dá unidade é pertencerem a uma mesma corrente religiosa e a uma mesma cultura humana. Todos os textos bíblicos, mesmo os do Novo Testamento, estão ligados à literatura judaica e são mesmo o que ela nos legou de essencial.

No fim do judaísmo e nos começos da Igreja, havia outros escritos, que não chegaram até nós. E alguns que se conservaram não foram incluídos no conjunto dos livros inspirados. Temos, pois um número considerável de obras, chamadas apócrifas pelos católicos e pseudoepigráficas pelos protestantes. As que se referem ao Antigo Testamento, datam geralmente dos começos da era cristã ou dos séculos seguintes e são muito úteis para compreender o pensamento religioso do judaísmo no tempo de Jesus e dos apóstolos. Algumas, como o Apocalipse de Henoc ou os Salmos de Salomão, são notáveis. Os apócrifos do Novo Testamento são em geral muito posteriores, não têm qualquer valor histórico e são muitas vezes de proveniência heterodoxa.

Não basta, pois, que um livro pertença à literatura judaica ou à primitiva literatura cristã, para ser incluído na compilação bíblica; é necessária ainda a consciência do seu valor religioso. E assim abordamos os problemas do Cânon e da inspiração que vão ser estudados mais adiante.

AS LÍNGUAS DA BÍBLIA

Depois deste relance de olhos, rápido e exterior, sobre o conteúdo da Bíblia, é indispensável examinar as circunstâncias em que os textos chegaram até nós. Que crédito nos poderiam merecer textos velhos de dezenas de séculos, se não pudéssemos analisar o modo como chegaram até nós? O Concílio de Trento declarou que a inspiração diz respeito ao texto original, tal como saiu da pena do escritor sagrado. Portanto, tanto pelo desejo de chegar à verdade como pela própria fé, o cristão é levado a não desprezar os aspectos mais humildes da Bíblia.

Omnis traductor, traditor, diz o ditado. E se é realmente difícil exprimir numa tradução os contornos exatos do texto original e conseguir dar-lhe movimento e cor no caso de uma língua viva, tão próxima da nossa pelas suas características e traduzindo uma mesma civilização, é infinitamente mais difícil fazê-lo com uma língua morta há vinte séculos. O hebraico, por exemplo, tem características muito especiais e é estruturalmente diferente das nossas línguas ocidentais. Nada pode, pois, substituir o conhecimento da língua original.

Infelizmente, raras são as pessoas que hoje podem ler a Bíblia no texto original, embora no que se refere ao Novo Testamento fosse possível fazê-lo, se nas escolas se iniciassem as crianças no estudo dessa magnífica herança humana e cristã que é a Bíblia, em vez de restringir os seus estudos ao comentário de meia dúzia de obras de um ou dois séculos pagãos.

Não se trata, evidentemente, de reduzir o valor de Homero ou Sófocles, que têm um valor humano e, por consequência, pré-cristão e eterno. Mas por que motivo se não há de oferecer à expectativa angustiante ou ao orgulho hermético da civilização greco-romana a resposta de Paulo ou a do Evangelho de São João? O fato de não terem empregado mais corretamente o optativo [um dos casos do idioma grego] será suficiente para os não incluir entre os rivais, geniais produtos do espírito, mesmo sob o ponto de vista puramente humano? E que dizer da sua origem divina? Não é angustiante verificar que se pretende educar “cristãmente” uma criança iniciando-se apenas nas concepções da mitologia pagã, sem sequer mencionar – a não ser num curso de religião mais ou menos árido – as obras-primas do patrimônio cristão?

Seria este o único resultado prático e justo do estudo do grego. Pois, se com os conhecimentos que têm, os alunos de humanidades nunca estarão à altura de apreciar Homero, todos podem tornar-se aptos a ler correntemente o Novo Testamento na sua língua original.

Quanto ao estudo hebraico, será sempre uma exceção. No entanto, o conhecimento indireto do caráter próprio desta língua pode permitir a quem lê assiduamente a Bíblia, familiarizar-se com ela e conhecer as suas particularidades.

A Bíblia foi escrita em três línguas: o hebraico, o aramaico e o grego. O hebraico é a língua da maior parte do Antigo Testamento. O aramaico só se encontra em alguns capítulos (Esdras 4, 8-6, 18; 7, 12-26; Daniel 2, 4b-7, 28; Jeremias 10, 11; Gênesis 31, 47). Mas foi ela, sem dúvida, a língua original de vários textos, que se conservaram em grego, do livro de Tobias, por exemplo, do Evangelho segundo São Mateus, e talvez mesmo do Evangelho de São João. Além disso, foi a língua materna de Jesus, dos seus contemporâneos e das primeiras comunidades cristãs.

O grego é a língua original de alguns livros do Antigo Testamento: Sabedoria, II dos Macabeus; e de todo o Novo Testamento (provavelmente excetuando São Mateus). É também a língua em que se conservaram vários livros cujo original se perdeu: Judite, Eclesiástico, I dos Macabeus, redigidos primeiramente em hebraico (o texto hebraico do Eclesiástico foi encontrado há alguns anos), Tobias e Mateus, escritos em aramaico. Mas estas “traduções” parecem terem sido refundidas muitas vezes e com bastante liberdade.

O hebraico e o aramaico são línguas estreitamente aparentadas e pertencem ao mesmo grupo semítico. Este grupo compreende línguas que, comparadas com as línguas modernas do Ocidente e mesmo com as línguas indo-europeias, apresentam profundas e comuns divergências. De resto, existem mais afinidades neste grupo de línguas do que entre as indo-europeias. O árabe moderno, por exemplo, está mais próximo do antigo hebraico que o russo do francês.

Todas as línguas semíticas têm de comum o seguinte: o relevo constante das consoantes nas palavras; a permanência das raízes, quase sempre de três consoantes, nas formas verbais ou nominais, por mais variadas que sejam; uma extraordinária riqueza de flexões verbais ou nominais (o hebraico tem, por exemplo, sete modos para exprimir as diversas modalidades da ação expressa pelo verbo); uma notável pobreza sintática pela quase inexistência da subordinação; falta de adjetivos; e certa imprecisão de variações temporais, pois o semita não classifica os fatos em passados, presentes e futuros, mas em realizados (perfeito) e não realizados (imperfeito), que tanto traduz o passado como o futuro.

Tais diferenças, porém, em relação às nossas línguas, mais não são do que a expressão das diferenças do gênio próprio de cada uma. Os melhores conhecedores do hebraico sublinham sem hesitação a “pobreza” das línguas semíticas, quando comparadas com o grego, por exemplo, e os exegetas desculpam a imprecisão dos autores bíblicos, invocando dificuldades de análise e abstração. É materialmente exato o que eles dizem, mas esta afirmação, considerada de um ponto de vista unilateral e estrito, desconhece a verdadeira seiva do gênio semítico. Comparar Isaías a Platão, por exemplo, é ignorar a literatura bíblica, porque representam dois mundos de pensamento e de expressão muito distantes. Não é possível reconstituir aqui o ambiente próprio destes dois mundos sem cair na generalização. Para ser tratado com o devido desenvolvimento, este assunto exigiria muitos capítulos. Mas o próprio leitor pode proceder aos estudos para isso necessários, se é que procura aqui apenas uma orientação de caráter geral.

O gênio grego, ou se assim o queremos, ocidental – porque continua a ser o nosso – é essencialmente abstrativo e de conquista pelo espírito. Classifica o mundo inteiro – o mundo material, e depois, o mundo das ideias –, que ele constrói à semelhança do primeiro e com linhas claras e distintas. Por mais especulativo que seja, torna-se facilmente utilitarista. Entra, sem hesitar, nos maiores extremos do hiper-espiritualismo ou do materialismo do racionalismo ou do ceticismo. A sua rigorosa dialética traduz-se em línguas expressivas; exige-as explícitas, exatas, precisas, diferenciadas. O gênio ocidental é, em suma, o herdeiro e o poderoso renovador da primeira civilização humana do homo faber. Poderíamos chamar-lhe gênio racional ou científico. Criou uma técnica de pensamento.

O gênio semítico, pelo contrário, enquadra-se no prolongamento natural da civilização religiosa e artística do homo sapiens. É um gênio concreto e interior bem impregnado da influência do deserto em cuja vizinhança se desenvolveu. Só se interessa profundamente pelos valores de vida. É claro que atribui grande importância ao pensamento, porque é contemplativo; mas o seu pensamento, essencialmente vivo e concreto, é mais intuitivo que lógico, mais receptivo que conceitual. Despreza, como coisa vã, o jogo do espírito dos gregos, que arquiteta sistemas sobre análises abstratas. É um gênio sintético e desdenha a expressão.

Por isso, não podemos estranhar as características do seu instrumento linguístico. A firmeza do consonantismo revela uma ligação profunda entre a ideia e a imagem concreta. A pobreza sintática não resulta, como tantas vezes se diz, da falta de firmeza ou do sentido do pormenor. Reflete, antes, certo desdém pela expressão abstrata.

O gosto pelo concreto dá ao semita o sentido da relatividade das palavras. Para ele, a linguagem não deve pretender exprimir mas apenas evocar, e as palavras mais não são que uma parte desta evocação: os gestos, a entoação, as pausas e mesmo os silêncios desempenham um papel essencial na linguagem. Em vez de inventar formas de subordinação, impotentes para expressar a riqueza dos liames que unem as coisas, o espírito semítico prefere repetir, subentender, simbolizar. Assim desenvolveu uma espécie de franja à volta das palavras, cujo ritmo interior, inexprimível, é regulado normalmente pela sonoridade.

Foi este em parte o objetivo dos pintores impressionistas e de poetas como Péguy: a evocação do pensamento realiza-se espontaneamente pela acumulação de evocações sucessivas, que, separadas, se entrechocam, e que, no seu conjunto, se integram com tinta mais suavidade quanto é certo que não foram procuradas.

É um fato que estas línguas são impróprias para exprimir pensamentos abstratos; mas conseguem comunicar, melhor que as outras, a emoção do pensamento concreto e vivo. Abandonemos, pois, o mito da pretensa barbárie semítica.

Escusado será dizer que nem todas as línguas deste grupo tiveram o mesmo valor e a mesma sorte. O hebraico ocupa um lugar muito modesto entre elas. Dá-se este nome à língua falada pelos israelitas desde a sua entrada em Canaã até aos primeiros séculos da nossa era. A sua origem é bastante misteriosa, porque além do Antigo Testamento, só raríssimos documentos nos restam para o seu estudo. Mas é muito provável que tivesse sido a língua dos cananeus. Os israelitas tê-la-iam adotado, julgamos, logo que se fixaram em Canaã, na época patriarcal, ou, mais provavelmente, depois da conquista, de acordo com a lei clássica que submete o vencedor militar à civilização do vencido mais evoluído.

No século VIII, no tempo de Isaías, o hebraico parece ter atingido o seu pleno desenvolvimento. E a partir do exílio, aparece-nos cheio de aramaísmos. Por alturas dos séculos IV e III, o aramaico ganhava terreno, dia a dia, na linguagem falada. E já antes da era cristã suplantava totalmente o hebraico, que se tornou uma língua morta e exclusivamente religiosa.

Não quer isto dizer que o aramaico seja uma evolução do hebraico como o português o é do latim. O aramaico deriva da mesma fonte que o hebraico, mas é uma língua independente. É mais antigo e foi muito mais bem sucedido.

Disse-se acerca de Abraão, que era arameu, porque o seu clã proveio do importante grupo de tribos seminômades que como tais eram conhecidas na orla de deserto que se estende desde a Mesopotâmia à Palestina, desde o terceiro milênio, e que ali procuravam sedentarizar-se sob a forma de reinos efêmeros. O seu nomadismo, a superfície dos seus sucessivos habitats, o papel que desempenhavam nas transações internacionais, tudo contribuiu para fazer da sua língua, aliás mais rica e delicada, uma espécie de linguagem universal no mundo semítico até a expansão árabe.

O aramaico foi, sem dúvida, a língua falada pelos Patriarcas. Durante o exílio e depois dele, os judeus viam-se cada vez mais ligados pela força das circunstâncias aos povos vizinhos; e de tal modo aprenderam o aramaico que esqueceram o hebraico. Escusado será dizer que se dividia em vários dialetos. No tempo de Jesus, o dialeto judaico era diferente do galileu. No entanto, não existiam diferenças muito profundas entre esses dialetos, nem mesmo entre o aramaico e o hebraico. Era fácil ver que tinham um fundo comum.

E apenas uma palavra sobre o grego bíblico. Chama-se assim a língua do Novo Testamento e a da tradução do Antigo, conhecida sob o nome de tradução dos Setenta. Outrora, pensava-se que as numerosas particularidades do grego destas obras em relação ao grego clássico fossem devidas à influência dos originais hebraicos. Esta influência existiu, é certo. Mas a descoberta de numerosos papiros gregos datados das proximidades da era cristã, revelou que se trata, sobretudo, da forma especial que o grego tomou quando da expansão helênica nos tempos de Alexandre. E por isso se chamou a esta forma, koiné, isto é, língua comum. É a koiné vulgar que nos aparece no Novo Testamento, salvo na Epístola aos Hebreus, e em São Lucas (Evangelho e Atos) que se preocuparam em escrever numa koiné mais literária.

A koiné caracteriza-se pela tendência para simplificar a morfologia e a sintaxe. Evita as formas irregulares, abandona os modos arcaicos, como o optativo, e prefere as construções simples. E por este motivo está menos afastada das línguas semíticas que nela influíram.

No entanto, seria errôneo querer explicar pela koiné, como alguns exegetas pretendem, todas as particularidades da Bíblia grega. Os escritores do Novo Testamento sofreram uma influência muito profunda, mesmo preponderante, da literatura hebraica, de cujo espírito participam. Por mais que Paulo tentasse construir períodos gregos, caía inconscientemente no ritmo semítico; e o Evangelho de São João, embora escrito em koiné correta, pode talvez ser considerado a obra-prima do gênero literário semítico. Por isso mesmo, torna-se indispensável, sobretudo para compreender o Novo Testamento, penetrar bem no espírito semítico. Até sob este ponto de vista, o Antigo Testamento é o necessário iniciador do Novo.

ESCRITAS E MANUSCRITOS

Em que estado chegaram até nós os textos da Bíblia? Para melhor compreendermos este assunto, recordemos as condições em que se encontrava a “edição” antes da descoberta da imprensa.

Era, na verdade, das mais precárias. Todo o livro tinha de ser copiado a mão. Podemos imaginar quantas probabilidades de erro tal método comporta se experimentarmos ditar a dez pessoas um mesmo texto, curto e fácil. Receberemos dez cópias diferentes. Ora, para tão longas obras, muitas vezes retranscritas, tiravam-se cópias das cópias e os erros iam-se amontoando. Foi assim que muitas passagens de autores antigos chegaram até nós irreconhecíveis. A esta fonte de erros, há que acrescentar ainda, os provenientes do material rudimentar da escrita, do desenho das letras, da qualidade do pergaminho, etc. Mal um livro era lançado, apareciam logo as variantes.

Analisemos, antes de mais, os tipos de escrita, Todos sabem que o alfabeto é de invenção relativamente recente. O homem começou por desenhar esquematicamente as ideias que queria exprimir. Por isso, de início, tinha tantos sinais quantas as ideias primárias. É a escrita ideográfica. Os hieróglifos egípcios são uma evolução deste sistema complicado, que tinha de ser exclusivo de uma casta de sábios escribas.

Foi, por isso, um enorme progresso, quando se descobriu a escrita silábica com um sinal por sílaba. A escrita cuneiforme assírio-babilônica é deste tipo. Mesmo assim, o número e a forma dos sinais constituíam um obstáculo grave. Coisa curiosa: o progresso veio precisamente destes semitas palestínicos que tantos consideram incapazes de abstrair. De fato, parece que foram eles os primeiros a conseguir isolar dentro da silaba o elemento consonântico da sua coloração vocálica. Assim inventaram a letra. Talvez tivesse contribuído para isso, o predomínio que nas suas línguas têm os valores consonânticos; na realidade, os primeiros alfabetos só têm consoantes.

Seja como for, o alfabeto hebraico mais antigo tem um certo parentesco com o alfabeto fenício que originou os alfabetos grego e latino, o que não é de admirar, porque os fenícios estavam intimamente ligados aos cananeus.

Até há pouco, localizava-se a descoberta do alfabeto pelos séculos XII e XI, e apresentava-se este fato como argumento para negar a anterioridade de todos os escritos bíblicos. Depois, descobriram-se junto do Sinai, em Byblos e, muito recentemente, em Rassamra (e portanto na mesma região do Corredor) três alfabetos que datam dos meados do segundo milênio – muito antes de Moisés.

Conhecemos a forma característica, quadrada e maciça, das atuais letras do alfabeto hebraico. Mas esta forma é relativamente recente. É o resultado da fixação dos caracteres antigos, que foi realizada apenas nos primeiros séculos da nossa era, Nesta mesma época, juntaram-se-lhe sinais ou pontos, para marcar as vogais, porque nas línguas semíticas, primitivamente, só se escreviam as consoantes.

Para nós, a escrita grega é mais familiar e tem variado muito pouco. No entanto, é preciso notar que os antigos escribas não faziam nenhuma distinção entre as palavras nem nenhuma espécie de pontuação. Enfim, havia vários tipos de escrita: o tipo cursivo com letras ligadas, muito difícil de ler; o caligráfico, mais cuidado, e usado nas oficinas de profissionais.

Os livros mais importantes eram escritos em papiro ou em pergaminho. O papiro é uma espécie de papel feito de fibras justapostas e sobrepostas com o auxílio de um aglutinante, Fabricava-se no Egito de uma planta muito vulgar no vale do Nilo. Para as obras de luxo e/ou mais volumosas empregava-se o pergaminho, cujo uso se generalizou cada vez mais a partir do século IV, a ponto de se tornar quase único na Idade Média, antes do triunfo definitivo do papel. Primitivamente uniam-se as folhas ponta a ponta formando um rolo. Mas a partir do século II, adquiriu-se o hábito de as coser em forma de cadernos de quatro folhas ou quaternins, que depois se reuniam num só volume. Parece que foram os cristãos que mais contribuíram para espalhar esta forma prática da qual saiu o livro moderno.

Não devemos pensar que a confecção destes livros era confiada unicamente à, iniciativa privada. Ao lado desta, a antiguidade conheceu a “livraria”, verdadeira empresa industrial. O editor era, geralmente, o chefe dum “scriptorium” que tinha por sua conta profissionais mais ou menos numerosos. Mandava ditar a mesma obra simultaneamente a todos os escribas. Depois, procedia-se às revisões para eliminar os erros segundo processos relativamente aperfeiçoados. Quando se tratava da reedição de obras muito difundidas e que saiam muito alteradas, procedia-se antes a um verdadeiro trabalho de crítica, tendente a restaurar o texto na sua pureza primitiva. Dá-se o nome de “recensões” a essas edições eruditas. Na Idade Média estes trabalhos de cópia e de revisão eram feitos quase exclusivamente nos mosteiros ou nas escolas claustrais.

Escusado será dizer que nestas condições, os livros eram muito caros. Por isso, ao lado destas edições de alto preço, multiplicavam-se as cópias privadas e as edições populares. Como havia necessidade de atender ao preço, essas obras eram muito menos cuidadas. Mas foi este o único meio de divulgação que as obras cristãs conheceram durante os dois ou três primeiros séculos, porque as Igrejas, perseguidas ou muito pobres, não podiam pagar o luxo das cópias caligráficas em pergaminho, e por isso existem exemplares deste tipo anteriores ao século V. Mas, a partir desta época, os textos sagrados conheceram transcrições luxuosas, em pergaminho purpurado, por exemplo, com letras de ouro ou de prata.

TEXTOS ORIGINAIS E VERSÕES

Pensa-se, e é verdade, que os textos autógrafos das obras bíblicas estão irremediavelmente perdidos. Portanto, temos de reconstituir o seu teor primitivo através das cópias que deles chegaram até nós. Estes documentos são de duas espécies: diretos ou indiretos. Os testemunhos indiretos são representados pelas traduções do texto original ou pelas citações dos escritores antigos.

Existem ainda milhares de manuscritos bíblicos, de interesse muito desigual, Do Antigo Testamento, os manuscritos hebraicos mais antigos datam do século IX e são duma uniformidade desesperante. Descobriu-se há pouco tempo, é certo, numa caverna das margens do Mar Morto, grande número de cópias parciais de Isaías e doutros escritores bastante anteriores à era cristã. O texto de Isaías parece estar já mais ou menos de acordo com o dos manuscritos que já conhecíamos, o que prova a antiguidade e o valor destes textos.

Mas o problema que as divergências entre o texto e a versão grega dos Setenta levantam, não foi solucionado nem esclarecido com esta descoberta. Quando muito, leva-nos a fixar em data anterior as medidas que provocaram a homogeneidade dos atuais manuscritos. Desde a alta Idade Média, as escolas rabínicas vinham-se aplicando com o maior cuidado em dar ao texto o máximo de fixidez. Como resultado deste esforço deu-se aquilo que se chama a Massore, de os Massoretas – os seus autores. Fez-se então todo o possível por fazer desaparecer os manuscritos anteriores a esta reforma, pelo que podemos inferir do texto dos Hexaples de Oxigenes e do que São Jerônimo utilizou para a sua versão latina que não diferiam sensivelmente dos documentos atuais – deve ter começado muito cedo. No século IX, o resultado da Massore atingiu-se tão plenamente que com exceção de um ou outro fragmento nada mais nos resta de qualquer texto mais antigo.

No que se refere, porém, aos textos originais do Novo Testamento, a situação é muito diversa. Dispomos de um grande número de cópias de todas as épocas, semeadas de variantes, por vezes bastante consideráveis.

Os manuscritos gregos podem agrupar-se em três categorias: os minúsculos, os unciais e os papiros. Os minúsculos são posteriores ao século IX. A maior parte reproduz um texto uniformizado conhecido por texto recebido. No entanto, alguns dos mais recentes são muito interessantes e é mesmo provável que o seu estudo profundo trouxesse ainda alguns resultados.

Tem-se, porém, prestado mais atenção – muito mais atenção aos grandes manuscritos unciais, escritos numa bela caligrafia maiúscula entre os séculos IV e IX. Vários, dentre eles, são célebres: o Vaticanus, do século IV; o Sinaiticus, também do século IV, que, descoberto no Sinai numa barca com papéis pelo sábio Tischendorf, e depois levado para São Petersburgo, passou recentemente ao British Museum de Londres, vendido pelos soviéticos. O Codex Bezae, do século V, greco-latino, que, roubado em Lyon zelos huguenotes em 1562 foi doado por Teodoro de Béze, em 1581, à Universidade de Cambridge, onde se encontra ainda. São quase todos manuscritos de luxo e grafados com o maior cuidado. O texto destes códices é na maior parte das vezes à prova de uma “recensão” atenta.

Já o mesmo não sucede com as confias muito veneráveis, descobertas no Egito há alguns anos: os papyri. Graças ao clima seco do vale do Nilo, o papiro, de natureza pouco consistente, pode conservar-se admiravelmente durante dezenas de séculos. Ignora-se, porém, a origem destes preciosos fragmentos que os sábios ocidentais compram a preço de ouro nas lojas do Cairo.

Uma das mais notáveis aquisições deste gênero foram os papyri Chester Beatty, aos quais devemos acrescentar ainda uma recente aquisição da Universidade de Michigan. Estas duas compilações deram-nos três manuscritos do século III, um dos quais nos dá o texto quase completo de São Paulo.

Antes desta data tínhamos apenas fragmentos reduzidos. O mais antigo parece ser o folheto do Evangelho segundo São João, encontrado em 1935, que os especialistas datam da segunda metade do século II. Foi o suficiente para desmoronar as sábias construções de Loisy(*), que fazia remontar ao meio do século II a data da composição do Evangelho de São João. Foi escrito menos de cinquenta anos após o original.


(*) Alfred Loisy (1857-1940) foi um padre católico defensor e expoente da heresia do Modernismo, uma tentativa de aplicar métodos seculares e racionalistas à interpretação da Bíblia. Depois de muitas tentativas de reconciliar-se com ele, a Igreja o excumongou em 1908; a partir desse ano, Loisy abandonou à vida sacerdotal.



Mas tal proximidade dos autógrafos é, evidentemente, excepcional. Apesar do número e do valor dos manuscritos conservados, os mais antigos documentos bíblicos foram escritos, a maior parte das vezes, vários séculos depois dos escritores inspirados. Este espaço de tempo que, para o Novo Testamento, não excede dois séculos, e para o Antigo varia entre dez e dezoito séculos. Felizmente temos um meio de controle indireto. As obras foram traduzidas há muito tempo, e as traduções efetuadas sobre os manuscritos desaparecidos e muito próximos da data dos originais, permitem-nos reconstituir o estado dos textos antes das cópias diretas que ainda existem.

A tradução mais importante do Antigo Testamento é a versão grega, chamada versão dos Setenta, feita no Egito, nos séculos III e II antes de Cristo. É um testemunho do maior valor, não só porque os seus diversos autores foram muito cuidadosos, mas ainda, e, sobretudo, pela sua antiguidade, que nos situa dez ou doze séculos mais próximos dos originais, que os manuscritos hebraicos. Foi utilizada por diversas vezes no Novo Testamento e foi adotada pelas primeiras comunidades cristãs. Foi tal o seu prestígio na antiguidade cristã, que muitos, como Santo Agostinho a consideram tão inspirada como os originais hebraicos. No entanto, houve outras versões gregas, entre elas as de Teodócio e de Áquila, de que apenas nos chegaram alguns fragmentos nos Hexaples de Orígenes.

Além das versões gregas do Antigo Testamento, a antiguidade cristã viu aparecer traduções de toda a Bíblia nas principais línguas de então. Com exceção de uma, nenhuma destas versões do Antigo Testamento foi feita sobre o texto hebraico: têm todas por base a versão grega dos Setenta. Portanto, não são mais que subversões e, o seu valor, embora grande por vezes, está apenas em facilitar a reconstituição do texto desta versão. Mas, quanto às do Novo Testamento, algumas delas, sobretudo as versões latinas e siríacas, ocupam um lugar excepcional, porque foram feitas mais de dois séculos antes dos mais antigos manuscritos gregos, e menos de cem anos depois dos originais, nos meados do século II. Pelo menos, isto é o que sucede com as mais antigas, porque há também várias versões siríacas do Novo Testamento, de data posterior. A mais difundida de todas, a chamada peschito, data do século V.

Referir-nos-emos em especial às versões latinas, não só pela importância, pelo número e pela antiguidade dos seus manuscritos, mas também porque precisamos conhecer a origem dos textos com que a liturgia nos familiarizou. Mas antes de mais, importa distinguir as antigas versões pré-hieronimitas e a obra de São Jerônimo, chamada Vulgata, pela sua difusão.

As antigas versões anteriores à de São Jerônimo, de que adiante falaremos, são, sob o ponto de vista crítico, as mais importantes, em virtude da sua antiguidade. Devem ter tido uma difusão enorme, porque os documentos que delas conservamos são dos mais divergentes, a ponto de não se poder dizer se provêm de uma ou de várias versões primitivas. Mas hoje em dia são raros estes documentos: a Vulgata suplantou rapidamente em toda a parte os velhos textos. Dos Evangelhos, por exemplo, os mais favorecidos contam apenas uma quinzena de manuscritos. É certo que, na sua maior parte, são duma antiguidade venerável: vários, como o que pertenceu a Eusébio, bispo de Vercelli, na Itália (371) e o Patatinus de Trento, são do século IV, e, por conseguinte, tão antigos como os mais velhos manuscritos gregos. Muitas vezes os manuscritos latinos foram copiados com um cuidado e um luxo que atestam a veneração religiosa votada à Palavra de Deus nessa época gloriosa. A sua redação ainda se mantém viva em certas partes da liturgia católica, e foi base de numerosas subversões em árabe, gótico, holandês antigo, provençal, etc.

Mas a falta de exatidão destas velhas versões aparecidas em meados do século II, talvez na África e nos meios cristãos populares, a extrema diversidade e o estado de corrupção dos exemplares que existiam, tornavam urgente, no século IV, uma revisão, profunda sobre os originais. Foi esta a tarefa de São Jerônimo, sábio monge e homem de letras. Nascido entre 347 e 349, Jerônimo passou a sua vida em Roma e no Oriente e por fim em Belém, onde morreu em 420. Temperamento ardente, espírito vivo e positivo, muito apaixonado pela literatura, apesar do seu ascetismo rude, conhecia admiravelmente o grego e aprendeu o hebraico. A conselho do seu amigo, o Papa Dâmaso, mas a título privado, tornou a peito um gigantesco trabalho bíblico que marcou profundamente a Idade Média latina e, portanto, a nossa civilização ocidental.

Pensou primeiramente fazer um trabalho de revisão, cotejando as antigas versões latinas pela tradução grega dos Setenta. E deste modo fez duas revisões do Saltério. A sua primeira versão não é, como habitualmente se pensa, a do Saltério chamado romano, que é uma antiga versão latina. A segunda, apesar das suas imperfeições, teve um êxito enorme e é a que a igreja latina ainda utiliza; por causa da sua difusão chamaram-na de galicana.

Quanto aos Evangelhos, São Jerônimo utilizou o mesmo método, revendo com base no grego, um velho texto latino. Parece todavia que não teve ocasião de prosseguir este trabalho para todo o Novo Testamento. Em 382, empreende uma obra muito mais séria e grandiosa, que, só por si, justifica toda a sua glória. Já não se tratava duma correção dos velhos textos, mas duma nova tradução em latim de todos os livros protocanônicos do Antigo Testamento sobre o texto hebreu original.

A nossa Vulgata latina conservou-nos assim a tradução do Antigo Testamento hebreu e a revisão dos Evangelhos do impetuoso Doutor. Os livros deuterocanônicos foram incluídos por ele, em harmonia com versões latinas anteriores. Quanto ao texto dos Atos, de São Paulo, das Epístolas católicas e do Apocalipse, é muito provável que não seja obra sua. Só aparecem na Vulgata a partir de Cassidoro (por alturas de 583).

É claro que São Jerônimo não foi o único a dedicar-se a trabalhos deste gênero. Há vestígios de numerosas tentativas de revisão em todos os textos antigos que possuímos. Uma das últimas e mais importantes descobertas, neste domínio, revelou, por exemplo, a atividade crítica intensa e notável de um gênio que é conhecido apenas sob o seu aspecto “especulativo”: Santo Agostinho. Fez uma revisão de quase todos os livros da Bíblia latina, uma revisão que é muitas vezes melhor que a Vulgata em São Paulo, por exemplo. E se ele se não impôs, foi em parte pela modéstia do seu autor que renunciou à sua própria obra em favor da Vulgata;: e sobretudo por causa da superioridade incontestável que o recurso direto ao hebraico, para o Antigo Testamento, proporcionou a São Jerônimo.

A todos estes documentos há que juntar ainda as inúmeras citações da Bíblia, feitas desde o século II pelos escritores cristãos. Por vezes, longas e precisas, são infinitamente preciosas, porque nos ajudam a pôr um pouco de ordem em todas estas matérias e a transformá-las em história. Permitem, mesmo, fixar o lugar de difusão e a data aproximada dos diferentes tipos de texto.

CRÍTICA TEXTUAL

Já é tempo de explicar em poucas palavras ao leitor como são utilizados todos estes documentos para reconstituir o texto original, e de o assegurar do valor prático dos nossos conhecimentos neste domínio. Encontramo-nos em face dum número quase infinito de variantes: não se contaram já de 200 a 300.000, só para o Novo Testamento? Não há quase nenhum versículo que tenha sido uniformemente apresentado.

Ora, algumas destas variantes são, pelo menos, consideráveis. Assim, por exemplo, o livro de Jeremias, em grego, tem menos um sexto que o texto hebraico, e em alguns manuscritos dos Atos aparecem variantes bastante diferentes, e até com um maior número de frases, que trazem novos e interessantíssimos pormenores a quase todas as linhas.

Como proceder a uma escolha judiciosa no meio de todas estas variantes? Como, por outras palavras, reconhecer o texto original do autor inspirado? Como distingui-lo das sucessivas corruptelas que copistas negligentes ou revisões ineptas lhe fizeram sofrer no decurso do tempo? Para fazer esta distinção, a crítica dispõe de dois critérios diferentes, embora necessariamente simultâneos e interdependentes: a crítica externa e a crítica interna.

A crítica externa estuda o valor dos testemunhos – manuscritos ou não – em relação a cada uma das variantes. E, antes de mais, tem de renunciar a muitos preconceitos firmemente espalhados, como por exemplo, o julgar-se que a melhor versão se encontra nos manuscritos mais numerosos, ou nos mais antigos, ou mesmo nos que conservam a língua original. Ora, nada mais falso do que isto. A antiguidade dum manuscrito não prova nada; um manuscrito do século V pode ter sido copiado de outro da mesma época enquanto que um manuscrito do século IX, por exemplo, pode ter sido copiado dum manuscrito do século IV. Neste caso, o texto do manuscrito mais recente está mais próximo da data do texto original que o do manuscrito antigo. O mesmo sucede quanto ao número: cem cópias dum mesmo manuscrito representam um só testemunho; três cópias de manuscritos independentes representam três testemunhos. Quanto à língua, há que ter toda a circunspecção. Uma versão hebraico, constante dum manuscrito do século IX depois de Cristo, pode ser seriamente abalada por uma divergência na versão dos Setenta, treze séculos mais próxima dos originais.

O que importa, antes de mais, na crítica textual externa, é reconstituir tanto quanto possível a história dos diferentes estados do texto, agrupando os documentos semelhantes e procurando saber porque se teriam tornado diferentes. Este trabalho ainda está pouco desenvolvido, porque ainda não foi possível juntar todos os documentos materiais em estado satisfatório. Assim, muitas citações dos Santos Padres, só as conhecemos nas velhas edições, feitas sobre manuscritos pejados de erros. Quanto ao Antigo Testamento, seria preciso conhecer melhor a história da versão dos Setenta e melhorar o seu texto atual, Quanto ao Novo, o trabalho está um pouco mais avançado, e já se conseguem distinguir três ou quatro fases na história do seu texto.

A primeira vai desde as origens ao século III. Os textos são copiados sem grandes cuidados, mas também sem revisão sistemática. Estes textos populares são os mais corrompidos, apesar da sua antiguidade. Não obstante, tem um grande valor, porque neles o bom grão encontra-se misturado com o joio. Por isso, há, atualmente a tendência para reconhecer uma importância cada vez maior aos papiros e às antigas versões siríacas ou latinas, que nos transmitiram os vestígios deles. Este texto foi denominado, muito impropriamente, de ocidental.

A segunda, compreendida entre o século III e o IX, é a era das recensões eruditas, chamadas de texto oriental. Purificam-se os textos das suas escórias populares, mas ao mesmo tempo eliminam-se excelentes versões. É costume distinguir neste grupo três recensões: a alexandrina feita no Egito, no fim do século III, que possui os melhores manuscritos unciais; a cesariana, feita na Palestina, e a luciânica em Antioquia. A partir do século IX, esta última – a menos fiel, mas a mais elegante – refere-se quase exclusivamente aos textos bizantinos e domina o terceiro período: o do texto aceite. Finalmente, o século XIX, dá origem, ao quarto período – o das investigações cientificas.

No entanto, a crítica externa é impotente para nos dar indicações definitivas sobre as várias versões, e, de resto, para classificar os manuscritos há que recorrer à crítica interna. Esta procura precisar o valor dos textos através do seu conteúdo. É aqui que estão os equívocos evidentes, que é preciso corrigir mesmo indo contra todos os testemunhos: assim evertit domum (“destrói a sua casa”) em todos os manuscritos da Vulgata, por everrit (varre) em Lucas (15, 8); noutros casos, porém, as variantes que se encontram são todas igualmente verossímeis. Por isso, no Prólogo de São João (1, 13), a lição no singular “em nome daquele que nasceu” oferece um sentido tão aceitável como se estivesse no plural. Ora, nestes casos, é à crítica externa que compete decidir e parece tê-lo feito, no exemplo citado, em favor da primeira versão, apesar de rara. Mas, há muitos outros casos, inicialmente ambíguos, que só um exame interno mais profundo pode resolver.

Com esta intenção, os críticos enunciaram variadíssimas leis que, grosso modo, podemos reduzir a duas. A primeira é a do contexto: é verdadeiro o sentido que se integra com mais naturalidade no pensamento do escritor em geral, e, especialmente no da passagem em que aparece a divergência. Assim, a atribuição do “Magnificat” a Isabel não condiz com o desenvolvimento do pensamento de São Lucas e, deve, por isso, ser rejeitada, apesar do valor dos documentos e das ligeiras incoerências nos detalhes do texto atribuído a Maria. A segunda lei é mais decisiva ainda: é verdadeiro o sentido que explica a origem das outras divergências sem, no entanto, poder ser explicado por estas. Por isso, o texto de Marcos (1, 41) “Jesus, irritado contra ele” não pode derivar da versão “Jesus compadecido dele”. Nenhum cristão teria imaginado um sentido tão pouco conforme às tradicionais atitudes da piedade cristã. A outra afirmação, pelo contrário, explica-se muito bem como uma correção de copista impressionado, correção que devia parecer mais legítima tanto mais que já Mateus e Lucas, em narrativas paralelas, tinham escrito “compadecido dele”…

Estes breves exemplos têm pelo menos o mérito de revelar ao leitor as incertezas desta ciência feita de imponderáveis que é a crítica textual. Muitas vezes, as suas conclusões não passam de probabilidades; são o resultado do fato de se ter recorrido a argumentos todos eles insuficientes.

Torna-se necessário utilizar, simultaneamente, tanto a crítica externa como a interna em todas as fases do exame.

Contudo não devemos terminar com uma nota exagerada de ceticismo. Os exemplos citados podem mostrar o interesse real e até mesmo a importância deste trabalho crítico, mas o cristão não ignora que, de qualquer modo, os alicerces da sua fé não estão ameaçados. A grande maioria das divergências não tem importância doutrinal. No conjunto, possuímos um texto concordante, na sua essência, não só com o pensamento, mas também com as expressões originais dos escritores sagrados. Seria passar ao extremo oposto, em vez de observar a inutilidade prática destas investigações criticas. O interesse destas está em colocar tudo no devido lugar. Não devemos recear que a essência do dogma cristão seja posta em causa por uma divergência dos manuscritos, seja ela qual for. Devemos esperar antes um esclarecimento precioso dos matizes do pensamento dos autores inspirados, graças a um conhecimento mais perfeito daquilo que, na realidade, escreveram. Como toda a ciência bíblica, a crítica textual não compromete os fundamentos da fé, antes os solidifica.

Fonte: Livro: A origem e a interpretação da Bíblia, Aster, Lisboa, s/d

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