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BÍBLIA CATÓLICA E A PROTESTANTE – Porque existem as divergências mesmo entre os cristãos

Os livros da Bíblia começaram a ser escritos esporadicamente desde os tempos anteriores a Moisés. Moisés foi o primeiro codificador das tradições orais e escritas de Israel. Desde o século XIII a.c. foram sendo acrescidos novos escritos sem que os judeus se preocupassem com a catalogação dos mesmos.

Entretanto, no século I d.c. começaram a aparecer os livros cristãos que se apresentavam como a continuação dos livros sagrados dos judeus. Eles, porém, trataram de impedir a aglutinação de livros judeus e cristãos. Assim, reuniram-se no ano 100 d.c. para estabelecer critérios que caracterizassem os livros inspirados por Deus:

·         O livro sagrado não pode ter sido escrito fora de Israel.

·         Não em língua aramaica ou grega, mas somente em hebraico.

·         Não depois de Esdras (458-428 a.c.)

·         Não em contradição com a Torá.

Assim, os judeus da Palestina definiram seu cânon. No entanto, em Alexandria (Egito) havia próspera colônia judaica que não adotou esses critérios nacionalistas. Estes judeus chegaram a traduzir os livros sagrados hebraicos para o grego em 250 a 100 a.c.(versão grega dita “Alexandrina” ou “dos Setenta”). Essa edição grega da Bíblia continha livros que os judeus da palestina não aceitaram, mas que os de Alexandria liam como Palavra de Deus. São eles: Tobias, Judite, Sabedoria, Baruque, Eclesiástico, 1 e 2 Macabeus, além de Ester 10,4-16,24 e Daniel 3,24-90 e 13-14.

Havia 2 cânones entre os judeus no início da era cristã: o restrito da Palestina e o amplo de Alexandria. Ora, acontece que os apóstolos, ao escreverem o NT em grego, citavam o AT, usando a tradução grega de Alexandria, mesmo quando esta diferia do texto hebraico. Este fato pode ser comprovado pelas seguintes passagens: Mt 1,23 com Is 7,14; Hb 10,5 com Sl 40,7; At 15,16 (Am 9,11s) e outros. O texto grego tornou-se comum entre os cristãos e o cânon amplo, incluindo os 7 livros citados, passou para o uso dos cristãos.

Verifica-se ainda que nos escritos do NT há citações implícitas desses livros: Rm 13,1 com Sb 6,3; Mt 27,43 com Sb 2,13.18; Ap 8,2 com Tb 12,15 e outros. Por outro lado, deve-se notar que livros aceitos por todos os cristãos como canônicos (a saber, Eclesiastes, Ester, Cântico dos Cânticos, Esdras, Neemias, Abdias e Naum) não são, nem implicitamente, citados no NT.

Nos mais antigos escritos patrísticos são citados esses 7 livros como Escritura Sagrada. Clemente, em 95, na epístola aos Coríntios cita Jt, Sb e fragmentos de Dn, Tb e Eclo. O Pastor de Hermas, em 140, faz amplo uso de Eclo e 2Mac (cf. Semelh. 5,3.8; Mand. 1,1…). Hipólito, em 235, comenta o livro de Daniel com os fragmentos, cita como Escritura Sagrada Sb, Br e utiliza Tb e 1 e 2 Mac.

Nos séculos II/IV houve dúvidas entre os escritores cristãos, pois alguns se valiam da autoridade dos judeus de Jerusalém para hesitar. Finalmente, prevaleceu na Igreja que o cânon do AT deveria seguir o de Alexandria, adotado pelos apóstolos. Sabemos que, das 350 citações do AT no NT, 300 são tiradas da versão grega. Assim, Os Concílios de Hipona (393), Cartago III (397), Cartago IV (419) e Trulos (692) definiram sucessivamente o cânon amplo como sendo o da Igreja. Esta definição foi repetida nos Concílios de Florença (1442), Trento (1546) e Vaticano I (1870).

São Jerônimo foi uma voz destoante deste conjunto. Tendo ido do ocidente para Belém da Palestina, a fim de aprender o hebraico, assimilou também o modo de pensar dos rabinos da Palestina neste particular.

No século XVI, porém, Martinho Lutero (1483-1546), querendo contestar a Igreja, resolveu adotar o cânon dos judeus da Palestina. É por isso que a Bíblia dos protestantes não têm os 7 livros e os fragmentos que a Bíblia católica possui. Estes livros eram tão usados pelos cristãos, que o próprio Lutero os traduziu para o alemão em 1546. As Sociedades Bíblicas protestantes até o séc. XIX incluíam esses livros em suas edições. Os próprios rabinos serviam-se do Eclesiástico até o séc. X como Escritura Sagrada. 1Mc era lido na festa de Encênia. Baruque era lido nas sinagogas no séx IV d.c.

O Catálogo dos livros do NT também foi controvertido na Igreja antiga, mas hoje é unanimemente reconhecido por todos os cristãos. Os livros controvertidos foram: Hb, Apc, 2Pd, Jd e 2/3Jo. Vejamos os motivos:

Hebreus: a Carta não indica nem autor, nem destinatário. Os cristãos orientais a tinham como paulina, os ocidentais, não. No séc III, os novacianos rigoristas (que ensinavam haver pecados irremissíveis) valiam-se de Hb 6,4-8 para propor sua tese errônea. Por isso, Hb foi relegada ao esquecimento até o séc IV quando S. Ambrósio e S. Agostinho a reconsideraram.

Apocalipse: Entre os orientais a autoria de São João era discutível. Além disso, uma facção “milenarista” apelava para Apc 20,1-15 para afirmar um reino milenar e pacífico de Cristo sobre a Terra antes do fim do mundo. Por isso, o Apc foi objeto de suspeitas e só reconhecido no séc. IV.

Tiago: Também era discutida a autoria deste escrito. E ele parecia contradizer a S. Paulo: a fé sem obras seria morta (Tg 2,14-24). Mas prevaleceu a canonicidade deste escrito perfeitamente conciliável com S. Paulo. Este afirma que a fé sem obras basta para entrarmos na amizade com Deus (ninguém compra a amizade). E Tiago quer dizer que ninguém persevera na graça se não pratica boas obras ou se não vive conforme a fé.

Judas: Também foi discutida a autoria desta carta. Ela também cita os apócrifos: “Assunção de Moisés” (vs 9) e “Apocalipse de Henoque” (vs 14s), o que a tornou suspeita. Mas Paulo, em Tt 1,12 e At 17,18 também cita escritores gregos sem que, por isso, fosse excluído do cânon.

2 Pedro: Aparentemente, trata-se de uma reedição ampliada da carta de Judas. Por isso, sofreu as mesmas suspeitas da carta de Judas.

2/3 João: Por serem pequenos bilhetes, de pouco conteúdo teológico.

Porém, em 8 de outubro de 393 o Concílio de Hipona definiu, pela primeira vez, o cânon completo da Bíblia, que é a mesma professada hoje pela Igreja católica. Eis a redação dada pelo Concílio:

“Além das Escrituras canônicas, nada seja lido na Igreja a título de Divinas Escrituras. Tais são as Escrituras Canônicas: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué filho de Num, Juízes, Rute, 4 livros dos Reinos, 2 livros dos Paralipômenos, Jó, o Saltério de Davi, 5 livros de Salomão, 12 livros dos Profetas, Isaías, Jeremias, Daniel, Ezequiel, Tobias, Judite, Ester, 2 livros de Esdras, 2 livros dos Macabeus. E do NT: 4 livros dos Evangelhos, o livro dos Atos dos Apóstolos, 13 epístolas de Paulo Apóstolo, uma do mesmo aos Hebreus, 2 de Pedro, 3 de João, 1 de Tiago, 1 de Judas, o Apocalipse de João.”

OBS: Os 4 livros dos Reinos são os 2 de Samuel e 2 dos Reis. Os 2 de Paralipômenos são os 2 de Crônicas. Os 5 de Salomão são: Provérbios, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Eclesiástico e Sabedoria. O livro de Baruque é tido como apêndice do de Jeremias.

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