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Leitura fundamentalista, heresiarcas e a sagrada escritura

“Esta é a fé católica, e todo aquele que a não professar, com fidelidade e firmeza, não poderá salvar-se.” Santo Atanásio

heresiarcasA Igreja Católica crê na Palavra de Deus escrita e falada. A Palavra escrita se chama Bíblia, a falada, não fixada entre os Livros do Novo Testamento, chama-se Tradição. Mas o Protestantismo admite como fonte de fé somente a Bíblia, o que é parcialmente incompleto e incoerente para uma plena exegese e hermenêutica. Isso facilita, e muito, não apenas uma interpretação errônea, como também se torna um agente facilitador para interpretações convenientes e sem uma exigência de maior aprofundamento de estudo.

Essas interpretações, que não levam em conta nenhum magistério ou uma forma “padronizada” de direcionamento, podem levar comunidades de fiéis inteiras a um profundo erro de condicionamento e posicionamento perante a fé, pois na medida em que as pessoas começam a anunciar suas “verdades” tomando como princípio e origem as Sagradas Escrituras, tornam-se prejudiciais ao Plano de Salvação inaugurado pelo próprio Cristo. Como dizia nosso grande Doutor Santo Agostinho: “Se você acredita no que lhe agrada nos evangelhos e rejeita o que não gosta, não é nos evangelhos que você crê, mas em você.”

A leitura fundamentalista da Sagrada Escritura teve seu início na época da Reforma, com uma preocupação de fidelidade ao sentido literal da Escritura. Após o século das Luzes, ela apresentou-se em meio ao protestantismo como uma proteção contra a exegese liberal. Esta parte do princípio de que a Bíblia sendo a Palavra de Deus inspirada e isenta de erro, deve ser lida e interpretada literalmente em todos os seus detalhes. São Vicente de Lerins vai falar a respeito do uso inadequado das Sagradas Escrituras acerca da vontade unicamente humana por parte desses “falsos profetas”:

“Certamente os hereges se servem dos Testemunhos das Sagradas Escrituras. E com quanta apaixonada veemência! Nós os vemos passar de um livro a outro da Lei Santa: de Moisés aos Livros dos Reis, dos Salmos aos Apóstolos, dos Evangelhos aos Profetas. Em suas assembléias, com os estranhos, em privado, em público, nos discursos e nos escritos, durante as comidas e nas praças públicas, não proferem coisa alguma se antes não a revestiram com a autoridade da Sagrada Escritura. Basta ler as obras de Paulo de Samosata, de Priaciliano, de Eunômio, de Joviniano, e de todas as outras pestes; imediatamente se nota o acúmulo infinito de textos bíblicos; quase não há página que não esteja colorida e adornada com citações do Antigo e Novo Testamento. Mas é tão mais necessário estar em guarda e temê-los quanto mais buscam ocultar-se e esconder-se debaixo da sombra da Lei Divina. Efetivamente, sabem que suas exalações pestilentas, visíveis e diretas, não encontrariam o favor de ninguém; por isso as perfumaram com o aroma da palavra celestial, já que quem facilmente rejeitaria o erro não está disposto a menosprezar com tanta facilidade os oráculos divinos.” – Comonitório, p. 68-69

Neste relato fica de fácil evidência o malefício causado pela mediocridade dessa particularidade da sociedade que, não apenas naquela época, mas também hoje continuam a infortunar tantos e tantas que se contagiam por tais atos totalmente humanos e devassos. Este fundamentalismo exclui todo o esforço de compreensão da Bíblia que leve em conta seu crescimento histórico e seu desenvolvimento, tomando assim, um sentido estritamente literal em todos os seus detalhes. Opõe-se à utilização do método histórico-crítico, como de qualquer outro método científico, para a interpretação da Escritura.

Este termo “fundamentalista” começou a ser usado a partir Congresso Bíblico Americano realizado em Niagara, Estado de New York, em 1895. Os exegetas protestantes conservadores definiram nele cinco pontos de fundamentalismo: a inerrância verbal da Escritura, a Divindade de Cristo, seu nascimento virginal, a doutrina da expiação vicária e a ressurreição corporal, quando da segunda vinda de Cristo. Após esse episódio, assim como no de Lutero quando instaurou o que ficou conhecido como “livre exame”, o negócio espalhou-se rápido pelo mundo afora, pior ainda foi que também começaram a surgir outros tipos  de leituras, igualmente literalistas, difundiu-se de um modo que chegou até entre alguns católicos.

O problema central de tudo isso é que a partir deste nível de interpretação ela se torna incapaz de aceitar plenamente a verdade da própria Encarnação. O fundamentalismo  usado pelos hereges atuais, assim como antigamente, foge da estreita relação do divino e do humano no relacionamento com Deus. Recusa-se a admitir que a Palavra de Deus inspirada  foi expressa em linguagem humana cujas as capacidades e recursos eram limitados. Apegando-se nisto os aproveitadores iniciam seu circulo vicioso articulando suas “verdades” com as Sagradas Escrituras, São Vicente de Lerins continua a nos ajudar com esta especificação:

“[…] quando já não ficam satisfeitos com citar e pregar as palavras divinas, e então também comecem a explicá-las, então se porá de forma manifesta sua amargura, sua aspereza e sua raiva: então se espargirá um novo odor e aparecerão as novidades ímpias; então se verá pela primeira vez a sebe desfeita (Cf. Ecl 10,8) e atravessados os marcos postos pelos pais (Cf. Prov 22,28), ultrajada a fé Católica e o dogma da Igreja feita em pedaços.” – Comonitório, p.70

O fundamentalismo separa a interpretação da Bíblia da Sagrada Tradição guiada pelo Espírito que se desenvolve de forma plena em ligação com a Escritura no seio da comunidade de fé, falta aos hereges fundamentalistas entenderem que o Novo Testamento tomou forma no interior da Igreja Católica e que ele é a Escritura SANTA desta IGREJA , cuja a existência precedeu a composição dos seus textos, ou seja, não foi a Bíblia que fez a Igreja e sim o contrário. Quem garante a autenticidade dos 27 Livros do Novo Testamento, inspiração divina e a Sagrada Tradição para os Católicos e não-Católicos foi a Igreja, que resguardou tudo com os menores detalhes, para 1500 anos depois o protestantismo encontrarem a “papinha pronta e cheirosa”. Portanto, é preciso estar no seio da Igreja Católica para uma verdadeira e autêntica interpretação das Sagradas Escrituras, é preciso ser verdadeiramente Católico – para na legitimidade da Sagrada Tradição – atender profunda e completamente aquilo que o Espírito Santo nos deixou como ensino e direcionamento através dos relatos divinos.

A abordagem dos hereges nesta especificidade é muito perigosa, pois ela é atraente para as pessoas que procuram respostas bíblicas para seus problemas da vida, sendo um canal extremamente eficaz para o demônio (Cf. Mt 4,5s). São Vicente de Lerins ainda acerca desta temática nos alerta a respeito:

“[…] O que não fará aos pobres homens aquele que provocou o Senhor da Majestade com o testemunho das Escrituras? Devemos pôr grande atenção na doutrina exposta nesta passagem e retê-la, para que com um exemplo tão grande da autoridade evangélica, quando virmos alguns proferindo citações dos apóstolos ou dos profetas contra a fé católica, não tenhamos a menor dúvida de que é o demônio quem fala por meio deles. Pois assim naquela ocasião a cabeça falou à cabeça, assim também agora os membros falam aos membros, quero dizer, os membros do demônio falam aos membros de Cristo, os pérfidos ao fiéis, os sacrílegos aos piedosos, os hereges aos católicos.” – Comonitório, p.72

E para finalizar acerca de como poder nos defender destas heresias propostas por estes pseudo-apóstolos do demônio fica o seguinte ensinamento de São Vicente de Lerins quando questionado a respeito:

Que deverão fazer para distinguir nas Sagradas Escrituras, a Verdade do erro?

“Terão verdadeira preocupação em seguir as normas que no começo destas notas escrevi que foram transmitidas por doutos e piedosos homens; isto é, interpretarão o Cânon divino das Escrituras segundo as Tradições da Igreja Universal e as regras do dogma católico; na própria Igreja Católica e Apostólica deverão seguir a universalidade, a antiguidade e a unanimidade de consenso.” – Comonitório, p.73

É de fundamental importância que nos inteiremos e possamos nos precaver de todas as armadilhas dos tempos atuais, que buscam apenas destruir a Verdade da Santa Igreja, a Verdade do próprio Deus!

 

Fontes de Pesquisa:

  • Comonitório: regras para conhecer a fé verdadeira / São Vicente de Lerins: [Tradução do espanhol Fabiano Lyrio Silva]. Niterói, Rj: Permanência, 2009, 88p
  • A Interpretação da Bíblia na Igreja, Pontifícia Comissão Bíblica – Paulinas, 2006

 

 

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