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Do Jesus da História ao Jesus da Igreja

caifasNestes dois últimos séculos a pessoa de Jesus passou da Igreja para a história. O que é que esta mudança de paradigma tem de novidade? A novidade não começa com a fé da Igreja em Jesus Cristo como Filho de Deus e Deus com Deus (Emmanuel). Começa com a verdade evangélica de Jo 1, 14: “E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco” (Jo 1, 14).

O Jesus da Igreja é o mesmo que o Jesus da fé e a fé, em última instância, tem as suas raízes na morte e ressurreição de Jesus. Significa isto que entre o Jesus da história e o da fé-Igreja existe um fosso intransponível que só a fé pode resolver? Significa que existe uma oposição conceptual entre o que é histórico e o que é da fé? De modo algum. Os quatro evangelhos são o espelho da concordância interna entre a história e a fé. Enquanto que os três evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas) acentuam, nas suas narrativas, o Jesus da história, o quarto evangelho (João) acentua o Jesus da fé, isto é, o Jesus na dependência do Pai, mas igual ao Pai (Jo 10, 19: “Tal é o encargo que recebi de meu Pai”; 10, 38: “…E assim vireis a saber e ficareis a compreender que o Pai está em mim e Eu no Pai”; 10, 30: “Eu e o Pai somos Um”). Mas os sinópticos também lançam a ponte entre o histórico e o divino (Mt 28, 19-20: “Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.”). O problema surge quando os estudos exegéticos concluem que este Jesus ressuscitado a falar aos discípulos é um Jesus da Igreja, isto é, um Jesus que fala em nome da Igreja crente: – foi a Igreja que colocou na boca de Jesus semelhantes palavras ou doutrinação catequética. Nem podia ser de outra maneira. Mas, uma vez mais, a Igreja não parte do zero, isto é, não inventa um novo Jesus, o da fé ou o da Igreja contra o da história.

Se pegarmos no evangelho de Marcos – o mais antigo (escrito mais ou menos pelo ano 70 d. C.) – encontramos este Jesus ao mesmo tempo da história e da fé. Nos três primeiros capítulos de Marcos surgem-nos narrativas de literatura cristológica bem arcaica. Mc 2, 5: “Filho, os teus pecados são perdoados.” E, na continuação da narrativa, ficamos a saber que só Deus pode perdoar os pecados. Mc 2, 19b: “Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar”. Mc 2, 27: “E disse-lhes: ‘O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. O Filho o Homem até do sábado é Senhor’”. Mc 3, 23-30: “Então, Jesus chamou-os e disse-lhes em parábolas: ‘Como pode Satanás expulsar Satanás? Se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não pode perdurar; e se uma família se dividir contra si mesma, essa família não pode subsistir. Se, portanto, Satanás se levanta contra si próprio, está dividido e não poderá subsistir; é o seu fim. Ninguém consegue entrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens sem primeiro o amarrar; só depois poderá saquear-lhe a casa. Em verdade vos digo: todos os pecados e todas as blasfémias que proferirem os filhos dos homens, tudo lhes será perdoado; mas, quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca mais terá perdão: é réu de pecado eterno.” Disse-lhes isto porque eles afirmavam: ‘Tem um espírito maligno’”. Estes textos do Jesus histórico colocam Jesus na esfera do divino: poder sobre Satanás, poder sobre a lei do sábado, poder de perdoar pecados, poder de não jejuar por causa do mundo novo – o mundo do Reino de Deus.

Mas Jesus será sempre um grande mistério dentro da história. Para o compreender devemos partir da sua real história com os métodos históricos e racionais. Como Filho de Deus Pai, como seu Verbo eterno, não é nem um Filho ou um Verbo resultante de uma ideia, um conceito, uma abstracção. Estas abstracções ideais são próprias da mitologia grega e do monismo psicológico das religiões orientais (hinduísmo, budismo).

A realidade histórica de Jesus sobressai, de maneira avassaladora, das rupturas que fez com a cultura religiosa e familiar daquele tempo.

1. Pelos 27 anos rompeu com a sua família (Mc 3, 20-21. 31-35 e par.).

2. Foi discípulo de João Baptista, mas acabou por romper com ele, isto é, rompeu com a apocalíptica messiânica de João, sem história real (Mt 11, 2-15 e par. Lc 7, 18-28 e Jo 3, 22-26).

3. Rompeu com o sistema religioso e cultural judaico: sábado, templo, leis do kosher. Convive com leprosos, com mulheres pecadoras, com estrangeiros, com publicanos, com samaritanos. Jesus não é um teórico mas um histórico. É a história a pronunciar o seu ser. E, neste sentido, nada melhor, para o compreender, que as suas parábolas sobre o Reino, sobretudo a parábola do banquete (Mt 22, 1-10 e par. Lc 14, 15-24) e, por acréscimo, as bem-aventuranças (Mt 5, 1-12 e par. Lc 6, 20-26).

3. Rompeu com a Galileia para passar à Judeia e a Jerusalém (Mc 10, 32: “Iam a caminho, subindo para Jerusalém, e Jesus seguia à frente deles. Estavam espantados, e os que seguiam estavam cheios de medo”; ver par. Lc 18, 31-34 e Mt 20, 17-19). É por esta ocasião que se intitula Filho do Homem. Trata-se de um título – só pronunciado por Jesus – ao mesmo tempo divino e humano (Dn 7, 13-14). O drama de Jesus encerra-se e desvenda-se neste título. Não foi nem a fé nem a Igreja quem o inventou. O drama da paixão, morte e ressurreição pertence à história deste título, isto é, à auto-consciência de Jesus como Filho do Homem.

4. Rompeu com a morte com a sua ressurreição (Mt 16, 21; 17, 23; 20, 19; Lc 9, 22; 18, 31-34: “Olhai, subimos agora a Jerusalém e vai cumprir-se tudo o que foi escrito pelos profetas acerca do Filho do Homem: vai ser entregue aos gentios, vai ser escarnecido, maltratado e coberto de escarros; e, depois de o açoitarem, vão dar-lhe a morte. Mas ao terceiro dia, ressuscitará.” Eles, porém, nada disto entenderam…”.

A questão da ressurreição é, realmente, histórica e mais do que histórica. A alusão de Jesus aos sinais sobre os três dias e três noites de Jonas (Mt 11, 40), sobre o templo reconstruído em três dias (Mc 14, 58; Mt 27, 40) pertence ao reino do Jesus histórico. Para trás, no AT, confluem textos como Os 6, 1-2 (“Ao terceiro dia nos reerguerá”); Ez 37, 1-14 (vale dos ossos), Sl 49, 15-16; Dn 12, 1-3; 2Mac 7; Sb 3, 1-4.

A ida das mulheres ao túmulo é um assunto histórico. O que lhes aconteceu no túmulo é descrito de maneira diferente nos quatro evangelhos porque entramos no reino do numinoso e do divino. Mas as aparições às mulheres e aos discípulos não são uma invenção ou criação da fé e da Igreja. São, sim, provas humanas e à maneira humana, onde entra a história, a apologética e a retórica normal para descrever, em narrativa histórica, um assunto de ordem transcendental.

Autor: Pe. Joaquim Carreira das Neves, OFM

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