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O Corpo Glorioso

cristoreiO Corpo Glorioso de Jesus Cristo Ressuscitado revela ao homem a verdadeira dignidade do seu próprio corpo e, em última análise, da matéria, criada por Deus e por isso boa em si mesma.

Quando relemos atentamente as narrações dos Evangelhos sobre o acontecimento da Páscoa e o tempo que imediatamente se lhe seguiu, descobrimos aí uma dupla intenção, inspirando dois aspectos diferentes da figura de Jesus. Sublinha-se primeiro, freqüentemente e com força, que Cristo ressuscitado é Outro que Cristo antes da sua morte e que todos os outros homens. A sua natureza, nas descrições, possui algo estranho. O seu aparecimento perturba, enche de terror. Enquanto antes “ia” e “vinha”, diz-se agora que “aparece subitamente” ao lado dos peregrinos, que “desaparece” (cf. Mc 16, 9-14; Lc 24, 31-36). As barreiras da corporeidade não existem mais para Ele. Não está mais limitado às fronteiras do espaço e do tempo. Move-Se com uma liberdade nova, desconhecida na terra…

Mas, ao mesmo tempo, afirma-se que Ele é o real Jesus de Nazaré. Não uma simples aparição, mas o Senhor no seu corpo, como outrora viveu com os seus. Já a primeira narração, mencionando que a pedra do sepulcro havia sido posta longe da entrada e que as ligaduras do corpo estavam dobradas, nos dá a entender que se trata de uma ressurreição corporal. Vemos depois como os discípulos O vêem, O ouvem, sentem a sua proximidade, experimentam a resistência do seu corpo (Lc 24, 39), põem o dedo na chaga das suas mãos e do lado. Toda a história de Tomé, que não quis primeiro crer e que, vencido, se lança finalmente aos pés do Mestre dá-nos a mesma impressão de realidade (Jo 20, 24-29).

A mesma impressão ainda quando Jesus come com os seus: na sala, onde aparece subitamente e os seus O olham como a um fantasma até que Ele pergunta se eles têm alguma coisa para comer e Se serve da comida diante dos olhos deles (Lc 24, 42). Ou no lago quando João, do fundo da barca, vê uma forma e diz: “É o Senhor”; Pedro lança-se à água para nadar até Ele, enquanto os outros seguem remando. Quando chegam ao pé do Mestre, encontram um fogo que crepita, um peixe sobre ele, e o Senhor partilha a refeição com os seus (Jo 21, 1-14). Mais do que qualquer outro passo do Novo Testamento, o começo memorável da primeira epístola de João afirma esta mesma realidade corporal de Cristo ressuscitado: “O que era desde o começo, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e que as nossas mãos tocaram, do Verbo da vida – porque a vida foi manifestada, e nós vimo-la, e nós prestamos-lhe testemunho, e nós anunciamo-vos a Vida eterna, que estava no seio do Pai e nos foi manifestada – o que vimos e ouvimos, anunciamo-vo-lo, a fim de que vós também estejais em comunhão conosco, e que a nossa comunhão seja com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo” (1 Jo 1, 1-3).

A cada momento se diz com insistência: trata-se de algo especial. O Senhor transformou-Se. Vive por forma diferente. A sua existência presente, poderosamente espiritual, irrompendo inteiramente do seio da divindade e a ela retornando continuamente, é-nos incompreensível. E no entanto ela é corporal, contém inteiramente Jesus, a sua natureza, o seu caráter. Contém mesmo, através das suas chagas, toda a sua vida vivida e o destino por Ele suportado, a sua paixão e a sua morte. Nada é eliminado; não é deixado “numa aparência sem ser”. Tudo é tangível, embora de uma realidade diferente. Essa realidade da qual o acontecimento misterioso ocorrido na última viagem a Jerusalém foi uma aurora boreal, a Transfiguração. Não se trata de uma simples vivência dos discípulos; mas existe por si mesma. Não é um fenômeno subjetivo, mas, no pneuma do Espírito vivo, atravessou tudo, a vida inteira – e também o corpo. Sim, mesmo esta existência realiza por aí a plenitude da corporeidade; de tal modo que se poderia dizer que um corpo só é perfeito na medida em que é absorvido pelo espírito. O corpo do homem é algo diverso do corpo do animal, e só é plenamente ele mesmo quando não pode mais ser confundido com o corpo do animal. O que o corpo do homem significa torna-se antes de mais patente na Ressurreição e na Transfiguração.

Se continuamos a ler – como se deve verdadeiramente ler a Escritura, prestando atenção a tudo e tudo valorizando –, verificamos ainda outra coisa. Qual é o apóstolo que sublinhou com mais força a realidade corporal de Cristo ressuscitado? Aquele que também afirmou com maior vigor a sua divindade: João. Ele, que anuncia ser Cristo o Logos, o Filho eterno do Pai, desenha também os traços vivos da sua corporeidade ressuscitada. Há razões para isso. Quando João escreveu, a mensagem evangélica espalhara-se suficientemente para que se tornasse útil levantar a questão da natureza de Cristo. Além disso, ao escrever, João tinha intenções polêmicas. Opunha-se ao espiritualismo pagão e semicristão dos gnósticos. Estes estavam de tal modo convencidos de que Deus é espírito que o julgavam inimigo da matéria, considerada como impura aos seus olhos. Não podiam assim admitir uma verdadeira Encarnação, mas diziam que um dia um ser divino, o Logos eterno tinha descido no homem Jesus e havia habitado nEle; que por seu intermédio Ele nos ensinara a verdade e mostrara como o espírito deve dominar a carne. Acrescentavam que, na morte de Jesus, o Logos O deixara para regressar ao céu. João levanta-se contra esta doutrina, afirmando que Deus Se tornou homem e continuará eternamente a sê-Lo.

Poder-se-á dizer: que tem conosco a ver o espiritualismo dos gnósticos? Muito. Toda a época moderna está penetrada da ilusão do “espiritual”. Vimos no capítulo anterior como ela procurou rejeitar a Ressurreição considerando-a uma ilusão; a ver na divindade de Jesus apenas como uma vivência religiosa, a figura do Ressuscitado como uma criação da piedade coletiva e a cindir assim o Cristo da Fé do Jesus da realidade. Significa exatamente isto regressar, em nome da história ou da psicologia, ao pensamento que os gnósticos exprimiam mitologicamente. Contra tudo isto, ergueu João dois marcos de fronteira, por assim dizer: o primeiro é constituído por esta frase: “O Verbo fez-se carne” (Jo 1, 14). Não desceu apenas a um homem, mas entrou na sua existência, ao ponto que o ser nascido desta união era ao mesmo tempo humano e divino, que as ações que Ele fazia eram feitas por Deus, que o destino que sofria era sofrido por Deus. Havia entre Deus e este homem uma inseparável identidade de responsabilidade e de dignidade. E para obstar a tentativas de espiritualização, o apóstolo não se contenta em dizer: “O Verbo fez-Se homem”, mas acentua o seu pensamento até quase o tornar intolerável, dizendo: “Ele fez-Se carne”. O segundo marco é formado por esta frase: “Cristo ressuscitou”. Não está apenas vivo na lembrança dos seus, não continua simplesmente a agir na história pela força das suas palavras e da sua obra, mas está realmente vivo, como Deus e como homem, corporalmente e espiritualmente. Modificou-Se, decerto, transfigurou-Se, glorificou-Se. O Filho de Deus não despojou a sua humanidade mas introduziu-a no esplendor eterno, na existência de que fala o Apocalipse, a que faz alusão Estêvão ao morrer, e que refere Paulo, quando escreve: “Cristo reina nas alturas, sentado à direita do Pai” (Ef 1, 20; Rom 8, 34). É nesta maneira de ser do Filho de Deus que a sua humanidade entrou e que dela participa para toda a eternidade.

Faremos bem se pararmos e tomarmos consciência do que aqui se afirma: algo de inacreditável, na verdade. Se, perante isto, sentimos mal-estar, mesmo uma revolta, devemos dizê-lo, temos o direito de o fazer.

Quem é pois Deus? O Espírito acima de todo o espírito; de tal modo que perante Ele “os anjos são carne!”. O Infinito, Todo-Poderoso, Eterno, Aquele que tudo abrange na imediatez do seu puro ser real. O Imutável vivendo puramente de Si e bastando-Se a Si mesmo. Porque precisa Ele de uma natureza humana? Já a Encarnação é incompreensível. Mas se a admitimos como a ação de um amor que excede o nosso entendimento – não deveria pelo menos limitar-se ela à vida e à morte? Porque é ainda preciso crer que este pedaço de criação é chamado a partilhar a eternidade da existência de Deus? Que fará aí Ele? Suspenso da Imensidade divina, não se perderá? Porque não sacode o Verbo esta poeira para reencontrar a pura claridade da sua livre existência divina?…

Estes pensamentos e estas impressões, diz-nos a Revelação, pertencem à filosofia ou a uma religião natural. O cristianismo consiste justamente no contrário… Mas como é Deus, se esta Ressurreição, se depois esta Ascensão e a presença à direita do Pai devem ser possíveis?… Pois bem, isso pode ser! Deus revela-Se nesta Ressurreição, nesta Ascensão e nesta presença eterna do Deus-homem. Deus não é representável como O fazemos a partir da nossa experiência e do nosso pensamento, como ser supremo, se essa experiência e esse pensamento são incompatíveis com uma realidade como a Ressurreição. Deus, pelo contrário, é tal como a Ressurreição O revela. E o que, no nosso pensamento e no nosso sentimento, se não harmoniza com esta Revelação, é por aí mesmo desqualificado.

Se nos esforçarmos por compreender a figura de Cristo e torná-la ponto de partida do nosso pensamento, somos colocados diante de uma alternativa: ou aprenderemos algo novo sobre Deus desaparecendo o que julgávamos sobre Ele saber, entrando em novas relações com Ele, ou dissolveremos Cristo e faremos dEle um simples homem, por mais poderoso que Ele seja… Mas devemos desaprender também a respeito do homem, inverter a direção do nosso pensamento. Não se deve mais dizer: o homem é tal como Ele nos aparece no mundo, eis porque não pode estar sentado à direita do Pai, mas, pelo contrário, uma vez que a Revelação no-lo faz conhecer, o homem deve ser coisa diversa do que pensamos. Devemos aprender que Deus é muito diferente do simples “ser supremo”; que é muito “humano” – e aprender que o homem é algo mais do que “simples homem”, que, ao invés, a ponta do seu ser sobe para o desconhecido, e cuja determinação última recebe da Ressurreição.

A Ressurreição dá-nos a claridade última do que é a Redenção. Não apenas a revelação de quem é Deus, e nós próprios, e do que é o pecado; não apenas o caminho novo traçado aos filhos de Deus, e a força que lhes é dada de nele entrar e perseverar; nem mesmo a expiação das nossas faltas e a superabundância de amor e de justiça, suas causas e conseqüências, mas algo maior, ou, melhor, mais vivo. A Redenção consiste em que o poder criador de Deus transforma o nosso ser por amor. É assim realidade e não apenas idéia, disposição interior, orientação de vida. A Redenção é o novo ponto de partida divino, após o da Criação. E que começo! Quando alguém pergunta: o que é a Redenção, possuir a Redenção, ser a Redenção? – a resposta deveria ser: o Senhor ressuscitado. Ele, na sua existência corporal, na sua humanidade transfigurada – Ele é o mundo redimido. Por isso é Ele chamado o “Primogênito de toda a Criação”, “o primeiro fruto” e o “começo” (Col 1, 15 e 18; 1 Cor 15, 20). NEle a Criação é elevada até à existência eterna de Deus. E Ele está agora no mundo como começo indestrutível. Age como uma faísca que se acende e se espalha; como uma porta que chama a si; como caminho vivo que apela para que seja percorrido (Lc 12, 49; Jo 10, 7; 14, 6). Tudo deve entrar nEle, o Ressuscitado, para participar da sua Transfiguração. É esta a mensagem das epístolas aos Efésios e aos Colossenses, de todos os escritos de Paulo e de João.

No começo da idade moderna estabeleceu-se o dogma de que o cristianismo seria hostil ao corpo. Mas o que a palavra “corpo” significa é o corpo terreno e senhor de si – dos antigos, ou da Renascença, ou da nossa época. Na verdade só o cristianismo ousou transportar o corpo para a mais interior profundidade da proximidade de Deus. No Novo Testamento, num dos seus passos mais fortes e mais decisivos, encontram-se as seguintes frases: “É que a ansiosa expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. De fato, a criação foi submetida à vaidade – não voluntariamente, mas por causa de quem a submeteu –, na esperança, porém, de que a mesma criação seria igualmente libertada da escravatura da corrupção, em ordem à liberdade da glória dos filhos de Deus. Sabemos, com efeito, que toda a criação tem gemido e sofrido em conjunto as dores de parto, até ao presente. E não só ela: também nós próprios, que possuímos as primícias do Espírito, gememos igualmente em nós mesmos, aguardando a filiação adotiva, a libertação do nosso corpo” (Rom 8, 19-23). Compreendemos nós aqui como é determinada a glória dos filhos de Deus, isto é, a obra de Cristo? Como “Redenção do nosso corpo?”.

Devemos transformar a idéia que possuímos da Redenção. Trazemos ainda em nós o racionalismo, que a coloca exclusivamente no “espiritual” o que quer dizer nos pensamentos, na disposição interior, no movimento da sensibilidade. Devemos aprender a abarcar a realidade divina da Redenção. A Redenção relaciona-se com a existência; com o homem; com a sua realidade – de tal modo que Paulo, do qual certamente ninguém fará, um adorador do corpo, a define em função do corpo novo. Mas isso fundar-se-á na Ressurreição, e por isso a palavra do mesmo Paulo: “E se Cristo não ressuscitou, então não tem sentido a nossa fé” (1 Cor 15, 14).

Também a partir daqui se torna clara a natureza do sacramento. Não sentimos já uma dificuldade interior a respeito da Eucaristia? Não estivemos já secretamente de acordo com os homens de Cafarnaum, que protestavam: “Como pode Este dar-nos a sua carne a comer?” (Jo 6, 52). Que é isto: “o corpo, o sangue de Cristo?”. Por que não a “verdade” e o “amor” de Cristo? Por que não se ficou na primeira parte do discurso da promessa no sexto capítulo de João? Por que a tangibilidade, para não dizer a materialidade da segunda parte? Lembrança do Senhor, muito bem; mas por que através do comer do seu corpo e do beber do seu sangue? Porque não através de um pensamento, na dignidade e na pureza do espírito? Porque a carne e o sangue do Senhor, porque o seu corpo ressuscitado, porque a sua humanidade transfigurada são a Redenção! Porque, na Eucaristia, se realiza continuamente a participação desta realidade transfigurada., divina e humana. Porque o comer do seu corpo e o beber do seu sangue é o pharmakon athanasias, este remédio dando a imortalidade de que falam os Padres gregos – a imortalidade de uma vida não “espiritual”, mas humana, corporal e anímica, introduzida na plenitude de Deus.

Fonte: “O Senhor”, Livraria Agir Editora, Lisboa, 1964.

Tradução: Fernando Gil

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