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O chefe humano da Igreja divina

E eu te darei as chaves do reino dos céus. E tudo o que atares sobre a terra será atado também nos céus; e tudo o que desatares sobre a terra será desatado também nos céus.(Mt 16, 19)

pedro

Deus quer elevar a humanidade até Ele. O seu próprio Filho, ao entrar na raça dos homens, uniu numa só pessoa a divindade infinita e a nossa natureza humana. O Filho de Deus fez-se homem para fazer de nós, criaturas humanas, filhos de Deus. E a sua Encarnação terá uma continuidade eterna: a Igreja, por cujo intermédio entramos na família divina.

A Igreja faz de todos nós membros de um corpo de que Jesus Cristo é a cabeça. O Espírito Santo infunde nela a vida divina e liga cada uma das nossas almas a Jesus Cristo. Só Deus pode, na verdade, ser o autor da nossa divinização. São Paulo, a propósito do matrimônio, fala-nos do amor de Jesus Cristo pela sua Igreja: Cristo amou a Igreja e por ela se entregou a si mesmo, para santificá-la, purificando-a no batismo da água pela palavra da vida, a fim de apresentá-la a si mesmo, gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e imaculada (Ef 5, 25-27).

Para esta obra de santificação, Cristo estabeleceu na sua Igreja o sacerdócio, transmissor da sua própria vida divina. Mas o sacerdócio na Igreja necessita de uma autoridade reguladora, de um poder visível que coordene e dirija a atividade dos Apóstolos, que mantenha em toda a sua pureza os ensinamentos do Mestre e que assegure a unidade entre todos os membros.

Cristo não quis que esta autoridade fosse múltipla; assentaria num só homem: Pedro. Jesus continua como o único Mestre do reino que Deus estabeleceu sobre a terra, mas Pedro será o único intendente, o mordomo a quem o Mestre entrega todas as chaves. As medidas que este tomar na terra serão ratificadas no Céu, porque a sua autoridade é a autoridade do próprio Cristo. Jesus confere a Pedro muito mais do que um primado de honra sobre os outros Apóstolos; investe-o de uma autoridade efetiva sobre toda a Igreja.

E que autoridade! Nunca ninguém foi honrado com semelhante dignidade. O poder de Pedro ultrapassa o de todos os soberanos. Um monarca promulga leis e estabelece impostos, um déspota pode arrogar-se o direito de vida e morte sobre os seus súditos. O poder de Pedro, porém, é muito maior, porque se exerce sobre aquilo que escapa às mais absolutas e tirânicas autoridades humanas. Pedro tem poder sobre as inteligências, sobre as consciências, sobre as almas; atinge o nosso íntimo, e só ele pode fixar os limites desse poder sem equivalente.

Pedro dir-nos-á se somos ou não fiéis à doutrina e à vontade de Cristo, e o nosso juízo deverá inclinar-se diante do seu. Pedro é responsável pela nossa fé, pela nossa santificação e pela nossa eternidade. É ele o único juiz das decisões que as suas responsabilidades o obrigam a tomar.

Não devemos pensar que esta interpretação dos poderes de Pedro consagra apenas um estado de coisas derivado do exercício secular de uma autoridade que teria evoluído no sentido de uma centralização e de um absolutismo progressivos. Os poderes do Sumo Pontífice não são, no nosso tempo, mais extensos que os de Pedro nos primeiros tempos da Igreja.

É Pedro quem faz eleger um sucessor do Apóstolo prevaricador; é Pedro quem fala e responde em nome de todos. Um cristão tentou enganá-lo, e eis o que ele responde: Ananias, por que Satanás se apoderou do teu coração para que mentisses ao Espírito Santo? E insiste: Não mentiste aos homens, mas a Deus (At 5, 3-4). E ali mesmo Ananias caiu por terra e expirou. Mentir a Pedro é mentir a Deus.

É Pedro quem, a despeito da oposição dos primeiros fiéis de Jerusalém, decide levar o Evangelho aos pagãos. Em Antioquia, hesita por um instante, temeroso de que a sua atitude acolhedora para com os pagãos convertidos possa perturbar a fé dos cristãos procedentes do judaísmo. Paulo censurá-lo-á por essa fraqueza, mas sem de maneira nenhuma contestar-lhe o direito de adotar sucessivamente duas soluções diversas. Mais ainda, para se impor aos que duvidavam de que o antigo inimigo da Igreja pregava o verdadeiro Evangelho, Paulo faz-lhes saber que, antes de mais nada, tinha subido a Jerusalém para conhecer Cefas, permanecendo quinze dias com ele. E é Pedro ainda que preside ao primeiro Concilio celebrado em Jerusalém.

Dezenove séculos em nada mudaram as prescrições de Cristo. Os destinos da sua Igreja assentam sobre um homem, sobre um único homem.

A que riscos não se expunha o Filho de Deus? Assim pode raciocinar a nossa curta prudência humana, mas, na realidade, a imprudência de Jesus é toda ela sabedoria. A última ordem do Salvador foi um comovente apelo à unidade: Que sejam um! Se Ele tivesse colocado à frente dos seus discípulos várias autoridades, poderiam produzir-se divergências entre elas, mesmo pequenas, e poderia haver um perigo muito maior de se introduzirem na Igreja grupos, partidos e por fim divisões. Cristo permanece como Chefe eterno da Igreja, e a sua autoridade não será dividida porque Ele a delegou unicamente em Pedro. Escolheu um homem, um único homem, e um homem sujeito às fraquezas humanas, como Pedro o demonstrou. Quando Jesus o escolhe, sabe que Pedro sucumbirá no decorrer da Paixão; e na véspera do dia em que o irá negar, o Mestre diz-lhe que orou por ele, para que a sua fé não desfalecesse, acrescentando: E tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos (Lc 22, 32).

A queda momentânea de Pedro, prevista por Cristo, prova-nos que, ao dar à sua Igreja um fundamento monárquico, Jesus mediu todos os riscos dessa decisão. Sabia que nem todos os sucessores de Pedro seriam santos, que alguns seriam vítimas da ambição, da cobiça ou de paixões ainda menos confessáveis. Embora sintamos tristeza perante a indignidade de um pequeno número de maus Papas, é um fato historicamente confirmado que nenhum deles foi arrastado – pela desordem da sua vida privada – a relaxar o menor preceito da lei moral, que nenhum deles tentou que lhe perdoassem os seus erros alterando o depósito da verdade dogmática.

Nos fins do século XIV, a anarquia assolava a Igreja. Depois de uma eleição controvertida, os anti-papas levantaram-se contra os Papas. A cristandade não sabia a quem obedecer, e os próprios santos se sentiam desorientados: Santa Catarina de Sena era partidária de Roma; São Vicente Ferrer, de Avinhão. Papas e anti-papas apelavam para o poder dos reis, que se riam deles. Terrível época, que dava razão às cruéis palavras de Lacordaire: “A História é o longo relato das desonras do homem”. “Um reino temporal – escreve a este respeito um autor protestante – teria sucumbido, mas a idéia do Papado era tão indestrutível que essa cisão só conseguiu patentear a sua indivisibilidade” 1.

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(1) F. Mourret, La papauté, pág. 112.
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Contudo, poderão as falhas de alguns fazer-nos esquecer a virtude, a ciência e o zelo de tantos outros? Aos pés da estátua que vai talhando de uma madeira nobre, o escultor deixa cair fragmentos perdidos. Não podemos remexer esses restos e censurá-lo por esses desperdícios inúteis, em vez de admirar a obra prima que criou.

Um homem, um só homem, ainda que seja santo, nunca conseguirá prescindir da sua personalidade: as suas opiniões estarão influenciadas pela sua maneira de ser e o seu modo de governar dependerá também do seu temperamento. Este inconveniente da unidade de comando não escapou ao Senhor. É certo que cada Papa, muito embora venere as tradições, dirige a Igreja de acordo com determinado espírito, e também que cada pontificado tem a sua ou as suas linhas-mestras, tornando-se possível observar orientações diversas de um pontificado para outro. Diferenças sim, divergências não, e menos ainda contradições.

O inconveniente que poderia oferecer a ação excessivamente pessoal de um chefe único, encontra-se magnificamente compensado pela sucessão de pontífices que não se assemelham. Um será mais audaz, outro mais discreto; este parecerá especialmente preocupado em conquistar o mundo para o cristianismo, aquele insistirá sobretudo na formação interior dos fiéis; e assim se completam maravilhosamente, tal como os movimentos alternados de sístole e diástole regulam a circulação do sangue em todo o organismo.

Quanto à questão de saber se, por muito diferentes que sejam uns dos outros, cada um é o representante autêntico da autoridade de Cristo, a História encarrega-se de nos responder que cada Papa chega no tempo oportuno e que o seu gênio se encontra em providencial sintonia com as necessidades do momento.

O livro dos Atos dos Apóstolos conta-nos que a sombra de Pedro curava os doentes reunidos à sua passagem, mas o seu corpo não teria projetado sombra alguma se, por cima dele, não tivesse brilhado o sol de Deus. Assim, os Papas são unicamente, mas de um modo efetivo, a sombra de Cristo. Seja qual for o nome que adotem – João, Pio ou Bento -, por detrás dele, do Chefe da Igreja, nós vemos sempre a luz de Deus.

A instituição divina do Papado é uma verdade por demais certa para que possamos descurar os nossos deveres de católicos para com aquele a quem chamamos o Santo Padre.

Em primeiro lugar, é-lhe devido respeito. Pelo fato de vermos nele Cristo, que ele representa, não podemos ceder à tentação, demasiado fácil, de contrapor um Papa a outro, para depositar a nossa confiança naquele cujos atos estejam mais de acordo com as nossas tendências pessoais. Não podemos ser daqueles que lamentam o Papa de ontem ou esperam o de amanhã para se dispensarem de obedecer ao de hoje. Quando se lêem os textos do cerimonial da coroação dos Pontífices, é possível observar que ninguém confere ao eleito pelo Conclave os poderes da sua dignidade. O sucessor de Pedro recebe esses poderes diretamente de Cristo. Quando falamos do Sumo Pontífice, devemos banir do nosso vocabulário termos provenientes das assembléias parlamentares ou das polêmicas jornalísticas, e não devemos deixar aos estranhos à nossa fé o cuidado de nos revelarem o prestígio que o Chefe da cristandade possui no mundo.

O respeito com que falarmos do Papa inclinar-nos-á a obedecer-lhe mais perfeitamente. É claro que nunca nos poderia passar pela cabeça discutir as verdades abrangidas pelo seu magistério infalível ou as ordens emanadas da sua soberana jurisdição, posto que é através dessa submissão que se pertence à Igreja. Mas, como verdadeiros filhos, devemos também escutar atentamente o menor dos conselhos dos Pontífices, esforçando-nos por levá-los lealmente à prática.

Pode suceder que uma ou outra diretriz pontifícia se oponha aos hábitos do nosso espírito, a certas facilidades morais muito estendidas, sobretudo em questões de moral conjugal, ou exija o sacrifício de interesses materiais que julgamos bem fundamentados. Nesse caso, em vez de pretender que detemos pessoalmente a verdade, não será muito mais prudente que comecemos por tentar compreender bem o pensamento daquele que faz junto de nós as vezes de Cristo? O Papa vê de mais alto e mais longe do que nós. É por isso que a sua palavra tem um alcance que ultrapassa a nossa visão particular; e determinadas normas que nos podem surpreender ou mesmo chocar correspondem, na realidade, não só aos problemas de hoje como às dificuldades de amanhã.

Em todo o caso, nunca devemos rebaixar-nos ao ponto de atribuir ao Chefe da Igreja intenções desfavoráveis a um ou outro grupo ou destinadas a favorecer uma nação ou uma classe social determinada. Seria fazer-lhe uma grave injúria.

Imaginemos por um instante os problemas que se põem à consciência do Soberano Pontífice. Ele sabe que a menor palavra que pronuncie dará a volta ao mundo em poucas horas: não pesará, pois, cuidadosamente cada uma dessas palavras, evitando tudo quanto possa dar lugar a confusão, suavizando – mesmo que alguns considerem uma atenuação excessiva – qualquer expressão que, compreendida inexatamente, poderia fazer mal em vez de trazer luz? Não é apenas a sua autoridade que o Papa compromete ao ditar uma ordem ou uma proibição. Ele sabe que a sua vontade será executada por milhões de fiéis, a quem uma ordem pouco oportuna pode intranqüilizar.

É concebível que esqueça a sua responsabilidade? Ainda que fosse um homem como qualquer um de nós, só falaria depois de ter consultado e perguntado, ouvido todas as opiniões e estudado pessoalmente o assunto. Quem de entre nós se atreveria a elevar a voz se estivéssemos nessas condições? Não preferiríamos observar um discreto silêncio?

O Papa só fala porque tem o dever de fazê-lo, um dever imperioso inerente ao seu cargo. E, por outro lado, não se limita a esses longos diálogos com a sua consciência. Dialoga muito mais tempo com o Senhor, numa oração em que toda a sua alma se entrega e apenas deseja entregar-se à ação do Espírito Santo. O valor da sua palavra, para os que lhe obedecem, pode representar talvez a sua salvação eterna. Quem poderia, pois, supor que fala irrefletidamente ou sob a influência de considerações humanas? É de joelhos que medita a doutrina das suas Enciclicas; e a condenação que, por vezes, é obrigado a pronunciar não veria nunca a luz do dia se ele não tivesse a certeza de que deve falar em nome de Cristo.

Estou certo de que não haveria uma ou outra voz discordante entre os católicos dos nossos dias se se dispusessem a refletir no simples fato de que o Papa tem uma consciência, uma consciência de homem honesto, uma consciência de cristão e uma consciência de chefe, de representante de Cristo junto de todos os cristãos.

Para compreendermos que o Soberano Pontífice tem o sentido das responsabilidades que lhe incumbem, devemos considerar a insistência com que nos pede o cumprimento do terceiro dever que temos a seu respeito: o de orar com ele e por ele. Não se celebra uma só missa sem que mencionemos o seu nome. Com uma admirável generosidade, concede-nos indulgências para que oremos pelas suas intenções. E não devemos ver nisso uma recomendação supérflua, mas a necessidade que tem de que o ajudemos com as nossas orações.

Lembremo-nos da tocante cena de São Pedro na cadeia. Depois de alguns dias em que pregou livremente, Herodes Agripa manda prendê-lo, decidido a condená-lo à morte depois da festa dos Ázimos. Um anjo faz cair milagrosamente as correntes que o prendem e leva-o para fora da prisão. Pedro, já livre, reflete e não se atreve a procurar Tiago em Jerusalém, porque seria muito fácil voltar a ser preso. Dirige-se então para casa de uma humilde mulher, a mãe do futuro evangelista Marcos. Quando chega, encontra a casa cheia de cristãos que, sem descanso, oravam a Deus por ele desde o primeiro dia da sua prisão.

A devoção pelo Papa remonta, assim, aos primeiros tempos da Igreja. Devemos conservá-la cuidadosamente, porque é própria das almas santas. Para governar a Igreja, Pedro tem necessidade de dois auxílios: da assistência infalível de Cristo e da humilde oração de todos os cristãos.

Fonte: Simão Pedro, Quadrante, 1990. Pág. 74-81.

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