Home / Igreja Católica / Testemunho - Conversões / Ateu, graças a Deus!

Ateu, graças a Deus!

Há vários anos, tive a graça de acompanhar os últimos dias de uma ilustre professora da Universidade Estadual de Maringá. Declaradamente atéia e marcadamente anti-religiosa. Combatia abertamente a todos os religiosos e a todas as manifestações religiosas, sobretudo à incipiente Pastoral Universitária que nascia no campus da nossa UEM. Dela recordo traços de um caráter muito forte. Uma personalidade invejável.  Muito sincera consigo mesma. Pesquisadora de primeira grandeza. E muito empenhada na busca do seu eu pessoal.  Além disso, militava em um dos partidos comunistas de nossa cidade.

Um belo dia, sabendo que eu assessorava a pastoral universitária, a ilustre professora procurou-me para uma conversa. Abriu seu coração. Relatou-me suas inquietudes em busca do sentido da vida. Narrou-me, detalhadamente, as razões de sua postura atéia. Disse-me que era mais fácil viver como se Deus não existisse porque Ele a questionava na sua autosufuciência. Dizia-me que para suas convicções existenciais era mais fácil viver sem um Deus e longe dele. Sua essência causava-lhe conflitos existenciais terríveis. A minha amiga professora queria ser deus. E, no fundo da alma, ela tinha ciúmes da onipotência, da onipresença e da onisciência divinas.

Passou um tempo bom do nosso primeiro embate. Desesperada, a ilustre professora, mais uma vez, chamou-me para uma conversa particular. Queria dizer-me outras tantas coisas. E o disse. “Júlio, eu fui apoderada por um câncer. Minha vida não vai muito longe. Sinto que algo me deixa profundamente angustiada. Mostra-me um sentido para essa tão frágil e rápida existência”. Escutei-a por, no mínimo, quatro horas cravadas. A minha ilustre amiga professora “pediu água”. Disse-me que até aquele momento sua vida foi uma perda de tempo. Tinha deixado o essencial da existência humana. E por isso pedia-me que lhe indicasse um caminho de volta às suas origens.

Perguntei-lhe: Quais? Prontamente me respondeu: “Deixei Deus fora da minha vida. Tornei-me atéia… Nasci cristã católica, quero voltar a esta fé e nela morrer”. E eu rebati: “Você não está fora… Coragem, retome o seu lugar”. E assim foi. A professora pediu-me para que a ouvisse em confissão e desse-lhe, em nome do Deus esquecido por ela, a graça da reconciliação. No final da celebração sacramental da reconciliação, ambos, ela e eu, caímos num alegre choro, daquele que marca uma grande e séria reconquista… Passados alguns meses, minha amiga professora caiu em coma. Um membro de sua família chamou-me para lhe dar os últimos sacramentos da Igreja. Dei-lhe a unção dos enfermos e logo ela veio a falecer.

Esta história veio me convencer de uma coisa: Existem ateus. Porém, mais que ateus, são pessoas que, no fundo, no fundo, buscam a Deus. Todavia, o buscam de formas travestidas e desencontradas. E em momentos decisivos da vida fazem de tudo para voltarem ao princípio de onde vieram. São ateus, graças a Deus!  Muitas vezes, por força de um ato da liberdade radical, que tem por objeto o bem moral, uma pessoa, sem conhecer teoricamente Deus, reconhece-o praticamente e tende, de fato, para ele. Por isso, creio eu, nada impede que um ateu teórico, negando explicitamente o Deus historicamente revelado, afirme-o implicitamente nesse ato radical de liberdade, pelo qual se compromete totalmente. E no ato elege o sentido de sua vida.

E essa atitude de escolha, que outra coisa é, senão uma espécie de “auto-de-fé” invertido? A tomada de posição atéia difere do ato de fé do crente no fato de que em lugar de ser entrega livre a Deus, é desafio livre a esse mesmo Deus transcendente. Sobre esta posição, gosto de lembrar a observação do ex-ateu e filósofo humanista, Jacques Maritain (1882-1973), que, a partir de suas sinceras buscas, afirmava: “O ateísmo absoluto é, no fundo, uma espécie de compromisso religioso de grande estilo”.

Padre Júlio Antônio da Silva

É pároco da Comunidade Paroquial Cristo Ressuscitado

Check Also

Bernard Nathanson: Quando a “Mão de Deus” alcançou o “Rei do aborto”

O quê pode levar um poderoso e reconhecido médico abortista a converter-se em um forte …