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A Experiência de Deus

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S. Maria do Egito

Na “Declaração sobre a Vida Cisterciense” do Capítulo Geral de 1969, texto que marcou um ponto de inflexão na vida de nossa Ordem, diz-se que “nossa vida é inteiramente orientada para a experiência do Deus vivo”. Gostaria de refletir um pouco com vocês sobre o que existe por detrás desta expressão: “experiência do Deus vivo”.

Na origem da fé cristã há um grupo de homens e de mulheres que, encontrando-se com Jesus de Nazaré, fizeram a experiência de Deus. Viram Jesus, ouviram-no, tocaram-no, admiraram-no e o amaram, e pouco compreenderam, e alguns dentre eles, o seguiram. Como encontraram Deus nele? Santo Agostinho tem a respeito uma bela resposta? “Viram o homem e creram em Deus”. Sua experiência de Deus foi uma síntese -ativamente estabelecida e mantida- entre uma percepção humana de um lado, e de outro, uma fé que avançava bem para além desta percepção. Sua experiência de Deus não era o sentimento ou o conjunto de sentimentos que poderiam ter na presença de Jesus, mas a síntese destes sentimentos com sua fé. E esta síntese tinha efeitos profundos e permanentes em suas vidas.

O mesmo ocorre com nossa experiência de Deus. Ela é sempre indireta: ela é sempre transmitida através dos sacramentos, isto é, através de sinais que devem ser interpretados na fé.

Na nossa vida espiritual, há comumente períodos de alegria e de consolação, seguidos por períodos de obscuridade . Deus não está mais presente ou mais ausente num ou noutro. Podemos também fazer a experiência, durante nossa vida, de momentos fortes, momentos breves (flashes) de intuição ou de iluminação quando, por exemplo, nos é dado subitamente compreender certas palavras da Escritura. Podemos também fazer por vezes a experiência de grande confusão e perturbação interior. Estes dois gêneros de experiência se passam em geral na aurora de uma nova conversão. Trata-se, de todo modo, de pontos de inflexão em nossas vidas, de momentos de crise onde o nosso psiquismo precisa ele próprio, ser convertido.

Em nossos dias, fala-se muito de experiências de ponta ou de pico (‘peak experiences’ em Inglês), e tende-se a lhes dar uma importância muito grande, como se elas fosse um objetivo na vida. Parece que o primeiro a ter utilizado esta expressão inglesa foi o psicólogo americano Abraham Maslow em 1962. Antes dele, trabalhos publicados pelos psicólogos se baseavam sobretudo no estudo de pessoas doentes e na análise de suas necessidades, seus problemas e suas lutas. Maslow decidiu estudar também pessoas que eram sadias psicologicamente, que eram felizes e haviam tido sucesso em suas vidas. Analisou o comportamento destas pessoas e se interessou particularmente pelos “pontos de inflexão” em suas vidas, pelas experiências particularmente vivas e pungentes que haviam transformado suas existências. Chamou-as com o nome de peak experiences. Descreveu cerca de vinte características de tais experiências, das quais quase todas tinham uma dimensão religiosa.

Por exemplo, 1) o objeto de tais experiências é percebido como algo de absoluto, que não tem necessidade de justificação; 2) tais experiências convencem que a vida vale a pena ser vivida; 3) são percebidas como um dom, ou em linguagem cristã, como uma graça; 4) têm um poder de cura.

Tudo isto é bom e belo. Contudo, o perigo reside em que, em muitos movimentos culturais ou religiosos contemporâneos, depois dos anos 60, considera-se muito facilmente tais experiências como experiências religiosas e mesmo, como experiências de Deus. Isto é um erro. Um sentimento artístico diante da beleza, um movimento de amor intenso em presença de uma pessoa querida, uma inclinação generosa pelo que é grande e absoluto, ou ainda, um sentimento de comunhão com o universo ou com um grupo de pessoas – tudo isto é admirável e pode facilmente conduzir a uma experiência religiosa, mas ela não é em si isto. Pode ser apenas a atualização da dimensão religiosa de nosso psiquismo humano. Uma experiência religiosa mesmo extática não é necessariamente uma experiência de Deus. Além disto, tais experiências religiosas podem ser provocadas, quer por circunstâncias felizes da vida, quer por drogas ou por fenômenos grupais. Podem ainda ser provocadas pela recitação de fórmulas de oração, por jejuns, pela ascese física, por flagelações, etc. Estas experiências podem ser muito boas nelas mesmas; podem mesmo levar a um encontro com Deus. … importante contudo dar-se conta de que elas não são em si mesmas uma experiência de Deus. Temo que, por vezes, se induziu em erro cristãos e cristãs sinceras ensinando-lhes métodos de oração que conduziam a tais estados psicológicos e fazendo-os crer que tais estados psicológicos já eram a oração, enquanto não eram mais do que um prelúdio, muitas vezes útil, ao dom da oração.

Certas pessoas, após sua conversão, tiveram por certo tempo um tipo de experiências muito gratificantes, e quando elas não mais ocorrem, pensam que Deus as abandonou. Ou outras pessoas fazem tais experiências gratificantes durante sua oração privada, mas jamais durante o Ofício Divino, e assim concluem erroneamente que o ‘Opus Dei’ não as aproxima tanto de Deus quanto a sua oração privada ou meditação. Ou ainda certos padres sentem falta dos grandes sentimentos de devoção quando celebram sua missa privada em relação quando eles a concelebram, e daí concluem que são mais fortemente unidos a Deus em suas missas privadas do que na missa comunitária.

Um belo exemplo de experiência de Deus é a do Apóstolo Paulo. O que lhe acontece no caminho de Damasco foi certamente uma experiência de ponta (peak experience). Este foi um momento muito importante em sua vida. Mas Paulo esteve certamente também intensamente unido ao Cristo durante todos os anos seguintes de sua vida e não apenas neste momento particular. E este também não foi uma experiência isolada. Havia sido preparada por outra e foi seguida de outra. Com efeito, quando Paulo se dirigia pelo caminho de Damasco, seu coração estava cheio de agressividade contra os cristãos, não porque fosse um homem mau, mas ao contrário, porque era fiel às tradições segundo as quais havia sido formado. Estava cheio de agressividade, pois se sentia ameaçado por esta nova fé que opunha às suas tradições mais caras nas quais fora ensinado. Era pelo amor de Deus que perseguia os inovadores.

O verdadeiro choque que o colocou abaixo foi a pergunta: “Por que ME persegues?” Um Deus que se identificava com os perseguidos: este foi o verdadeiro choque para o judeu Paulo de Tarso. Paulo se preocupara até aquele momento em manter uma separação entre judeus e pagãos. Quando despertou, ou quando Ananias lhe abriu os olhos, Paulo poderia fazer o que tanto convertidos quanto pseudo-convertidos fazem: poderia se colocar a destruir o que ele havia servido, mas com a mesma paixão, e se colocar a adorar o que ele havia destruído, mas com a mesma intolerância. Poderia então ter mudado um “eu” por um outro “eu”. A única alteração verdadeira foi a identidade daqueles que o perseguiam. Ao contrário, a despeito do fato de que os primeiros cristãos sofriam a forte tentação de reforçar sua identidade e de buscar sua coesão na luta agressiva contra os judeus, projetando sobre eles seu complexo de culpa e tornando-os responsáveis pela morte de Jesus, Paulo utilizou toda sua energia e uma grande parte de seus escritos para mostrar que os judeus são e permanecerão uma parte integral do plano de salvação.

Uma das razões de interesse contemporâneo no Ocidente em tais experiências de ponta, deve ser buscada no interesse crescente pelo budismo. No budismo, todos os esforços são orientados para a experiência do Satori, que é a experiência de pico por excelência. Todo o budismo foi construído sobre a iluminação de Buda, sob a árvore Bodhi em Bodh Gaya no século sexto a.C. … um acontecimento que todo budista deseja repetir em sua vida. Para ele, esta iluminação é o despertar do terceiro olho, o olho do coração. Quando o olho interior está aberto, adentra-se na verdadeira sabedoria.

O Evangelho fala também de iluminação e Jesus se refere ao olho do coração quando diz: “O olho é a lâmpada do corpo. Então, se teu olho está são, todo teu corpo estará na luz; mas se teu olho não está são, todo teu corpo estará na treva. Se a luz em ti é treva, quão grande será a treva!” (Mt 6,22-23). O mesmo tema da iluminação se acha ao longo de todo o 4o. Evangelho, no qual o homem cego descobre que Jesus é a luz do mundo.

Um budista pratica uma disciplina rigorosa e não será feliz se não atingir o satori ou a iluminação ao menos alguma vez, ou em todo caso, uma vez na vida. Só o momento conta verdadeiramente para ele. Para o cristão, isto é diferente. A experiência de Deus não é alguma coisa que somos chamados a ter em alguns momentos privilegiados de nossa vida. … algo que deve ser permanente e constante. E a isto se chega através da Metanoia, ou seja, da conversão do coração.

Na vida cristã, as experiências extraordinárias (às quais dá-se facilmente o nome de experiências místicas) não tem valor espiritual particular. São indicadores na caminhada. Nada além disto. E muitas coisas que podemos facilmente considerar como experiências místicas podem ser apenas simples estados psicológicos. Fazemos a experiência de Deus, não através de estados psicológicos particulares, mas por meio de uma conversão contínua, levada a efeito por uma observância de disciplina cotidiana.

No Cristianismo, há dois modos (dentre outros) de compreender a contemplação. Uma, disseminada no Ocidente, e que se enraiza na filosofia grega, sobretudo neoplatônica, considera a contemplação como a atividade suprema do espírito. A outra, a compreensão bíblica, vê a contemplação numa relação contínua entre Deus e seu povo, ao longo de sua história. A experiência de Deus, nesta perspectiva, não é algo que se produza de quando em quando na vida, em momentos fortes, mas algo que está sempre presente tão frequentemente e por tanto tempo, que estamos unidos a Deus no amor, na fidelidade a todas as nossas obrigações e tarefas cotidianas.


© Abbey of Scourmont, 1999
Traduziu: Cecilia Fridman, Rio Negro, PR, Brasil, para o Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, 31 de março de 1999.


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