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Construí com amor espiritual a casa da fé e da esperança

(1ª Pedro 2,4–9)
(Sto Agostinho, Sermão 337,1–5)

A fé que leva no coração o olho da piedade vê como se depositam nos tesouros celestes as boas obras dos fiéis feitas com os seus bens temporais e terrenos. Razão pela qual, quando vê com os olhos da carne estes edifícios que se levantam para reunir a comunidade de homens piedosos, louva piedosamente o que vê no exterior, e a luz visível outorga o como se alegrar com a verdade invisível. Porém a fé não se dedica a contemplar a formosura dos elementos deste recinto, senão a grande beleza do homem interior, da qual procedem estas obras de amor. O Senhor recompensará aos seus fiéis que fazem isto de maneira tão piedosa, tão alegre e tão devotamente, que até deles se servem para levantar a sua própria construção com as pedras vivas formadas na fé, robustecidas com a esperança e unidas pela caridade.

O Apóstolo, aquele sábio arquiteto, pôs nela como alicerce a Jesus Cristo, suma pedra angular, rejeitada pelos homens, porém escolhida por Deus (1 Pe 2,4), como disse Pedro, apoiando-se também na Sagrada Escritura. Unindo-nos a ela encontramos a paz; repousando sobre ela, conseguimos firmeza. Ela é, ao mesmo tempo, alicerce porque nos sustenta e pedra angular porque nos une. Ela é a pedra angular sobre a qual o homem edifica sua casa e se mantém firme contra todas as tentações deste mundo; nem as torrentes de chuva a fazem cair, nem os rios transbordantes a derrubam, nem a força dos ventos a sacode. Ela é também nossa paz, quem fez dos dois povos um só; nela, com efeito, nem a circuncisão é alguma coisa, nem a incircuncisão, mas a nova criatura (Gal 6,15). Estes dois povos, qual paredes que trazem diferente direção, estavam muito longe um do outro até que foram conduzidos a ela, como ao ângulo, e nela unidos entre si.  Assim, pois, como este edifício visível foi construído para reunir-nos corporalmente, da mesma maneira construímos o edifício que somos nós mesmos para Deus que há de habitá-lo espiritualmente. O templo de Deus é santo, – disse o Apóstolo – , e este templo sois vós (1 Cor 13,17). Como construímos este com peças terrenas, de idêntica maneira temos que levantar o outro com costumes bem orientados. Este se consagra agora, com motivo da minha visita; o outro no final do mundo, quando venha o Senhor, quando este nosso corpo corruptível se vista da não corrupção e este mortal se revista de imortalidade (1 Cor 15,53), porque nosso corpo humilde modelar-se-á segundo o corpo de sua glória.

Vede, pois, o que diz o salmo sobre a consagração: Transformaste o meu luto em dança, tiraste o pano grosseiro e me cingiste de alegria. Por isso, o meu coração canta a ti, e jamais se calará. (Salmo 29, 12-13). Enquanto dura a nossa edificação, geme ante ele a nossa humildade; quando formos consagrados, a Ele lhe cantará a nossa glória, porque a edificação requer fadiga e a consagração pede alegria. Enquanto se extraem as pedras dos montes e as vigas dos bosques, enquanto se lhes dá a forma, se talham e se ajustam, não faltam a fadiga e a preocupação; mas quando se celebre a consagração do edifício concluído, às fadigas e preocupações lhes sucederão o gozo e a segurança. De idêntica maneira, a construção espiritual que terá a Deus por morador, não será temporal, senão eterna; enquanto os homens são afastados de uma vida de infidelidade e conduzidos à fé; enquanto se corta e se destrói o que há neles de não bom e extraviado, enquanto se realizam na forma adequada os encaixes, na paz e caridade, quantas tentações não se temem, quantas tribulações há de se suportar!

Mas quando chegue o dia da consagração da casa eterna e se nos diga: Vinde benditos do meu Pai; recebei o reino preparado para vós desde o começo do mundo (Mt. 25,34), qual não será o gozo e a segurança! Cantará a glória e não se sentirá triste a fragilidade. Quando se nos manifeste aquele que nos amou e se entregou a si mesmo por nós, quem apareceu aos homens nascido de mãe apareça a eles como o Deus criador que estava no Pai; quando o morador eterno entre em sua casa concluída e adornada, alicerçada na unidade e vestida de imortalidade, ele brilhará em todos para que Deus seja tudo em todos (1 Cor 15,28)…

Eia, pois, irmãos! Si haveis ressuscitado com Cristo, buscai as coisas do alto onde está Cristo sentado à direita do Pai; saboreai as coisas do alto, não as da terra (Col 3,1-2). Esta é a razão pela qual Cristo, nosso fundamento, foi posto ali no alto: para sermos edificados para cima. Nas construções terrestres, como os pesos tendem pelo seu próprio peso aos lugares mais baixos, ali se põem os alicerces; o mesmo sucede em nosso caso, porém ao contrário: a pedra que serve de alicerce está colocada acima para elevar-nos para o alto pelo peso da caridade. Com alegria, pois, trabalhai a vossa salvação com temor e tremor. Deus é quem trabalha em nós o querer e o agir segundo a sua vontade. Fazei tudo sem murmuração (Filp 2, 12-14). Como pedras vivas, contribuís com a edificação do templo de Deus (1 Pe 2,5); como vigas incorruptíveis, fazei de vós mesmos a casa de Deus. Ajustai-vos, talhai-vos no trabalho, na necessidade, nas vigílias, nas ocupações; estai dispostos a toda obra boa, para que mereçais descansar na vida eterna, como na união da sociedade dos anjos. Este lugar foi edificado no tempo e não durará para sempre, o mesmo que nossos corpos por cuja necessidade foi construído mediante obras de misericórdia, não são eternos, senão temporais e mortais. Não obstante, temos uma habitação de Deus; uma casa não construída por mão humana, eterna nos céus (2 Cor 5,1), onde hão de estar também os nossos corpos, convertidos em celestes e eternos pela ressurreição. Também agora, ainda que não na realidade que será a de vê-lo face a face, senão pela fé, habita Deus em nós. Mediante nossas boas obras construímos uma morada para Ele; essas obras não são eternas, porém conduzem à vida eterna. Entre elas conta-se também este esforço, graças ao qual se construiu esta basílica; ali não teremos que construir edifícios como este. Ali não se edifica nada que possa converter-se em ruína nem entre ninguém que pode morrer. Contudo , vossas obras são agora temporais para que a recompensa seja eterna.

Agora, repito, construí com amor espiritual a casa da fé e da esperança; construí-a com as boas obras que não existirão aí, porque não haverá indigência alguma. Colocai como alicerces em vossos corações os conselhos dos profetas e apóstolos; colocai na frente a vossa humildade qual pavimento liso e plano; defendei juntos em vossos corações a doutrina saudável com a oração e a palavra, qual firmes paredes; iluminai com os divinos testemunhos como se eles fossem lâmpadas; suportai aos fracos como se fôsseis colunas; protegei sob os tetos aos necessitados para que o Senhor nosso Deus recompense os bens temporais com os eternos e os possua para sempre uma vez acabados e consagrados.

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