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O Conceito da Sagrada Teologia

Sem fé sobrenatural não há Teologia cristã. O que pois aqui deixamos escrito, não se destina a levar incrédulos à cren­ça, mas apenas esclarecer os crentes que já aderem às ver­dades católicas e desejam aprofundá-las na medida do possí­vel. Como nos bastaria um assentimento cego, sem esforço de compreensão do conteúdo da fé? Não somos papagaios; somos seres dotados de inteligência. Tendo Deus falado, quis comu­nicar verdades e não vocábulos sem sentido. Incumbe-nos, por­tanto, penetrar e assimilar os dogmas que a Igreja propõe como revelados por Deus. Elevada pela fé à ordem da ciência di­vina, é normal que a inteligência, assim divinizada, queira atuar; ora, para a inteligência atuar é compreender.

Passamos destarte, sem hiato, do simples assentimento a um saber inteligível: á fé desabrocha em teologia. Começamos por crer, e depois, dentro da fé, tentamos chegar a uma certa intelecção.

Como foi dito, os mistérios são tão obscuros para nós, que não logramos demonstrá-los nem mesmo ‘entendê-los com evidência; mas em si, os mistérios são uma festa de luz. E nossa inteligência, com o divino auxílio, pode captar, fugidia-mente, alguns desses raios. No âmago da fé vibra um anseio de inteligibilidade que visa conhecer-lhe as condições históri­cas, penetrar-lhe os enunciados, descobrir o nexo que une os diversos mistérios que ela crê, manifestar-lhe enfim as recôn­ditas implicações. Eis a teologia.

À primeira vista, afigura-se-nos empresa de todo impos­sível. Infinita é a desproporção entre a inteligência humana e o ser divino; como, pois, transpor em conceitos humanos a verdade divina, tal qual vive na mente de Deus?

Impossível com efeito, porém a suposição é irreal, porquan­to o próprio Deus fez a transposição de sua verdade em con­ceitos humanos. Pobres, paupérrimos são estes, porém foi o mesmo Deus que os escolheu e assim lhes garantiu o valor. Re­velar é mui precisamente o ato pelo qual Deus traduz, em lin­guagem acessível aos homens, a sua vida misteriosa. Nosso papel não será de nos afanar à procura da visão direta do ser incriado, a fim de expressá-lo tal qual ele se conhece a si mesmo; nosso papel será de atingir a realidade sobrenatural através dos con­ceitos emanados do próprio Deus, e por ele dotados de força suficiente para elevar nosso conhecimento até o transcendente.

Fórmulas divinas, por virem do alto e serem veículo de celeste mensagem; fórmulas humanas também, porque Deus se vale de vocábulos que estejam a nosso alcance. Adapta-se às condições humanas que fazem de nós seres ensinados: “A fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Rom 10, 17). Ainda no descobridor genial, mínimo é o número de verdades que ele encontra por esforço próprio, em confronto com o imen­so acervo de coisas que ele vai continuamente aprendendo. Em matéria de fé, seremos também perpetuamente ensinados, e o maior dos sábios está em igualdade de condições com a ve­lhinha analfabeta.

Mas se Deus nos quer amestrar, forçoso é que se sirva de palavras humanas, inteligíveis, capazes de nos instruir, comuni­cando-nos a verdade divina. Senão por que haveria Deus falado?

Diante dessas palavras inspiradas, desse “dado revelado”, a teologia se coloca, não mais para aderir apenas — como a simples fé — mas para fazer delas os primeiros princípios de uma disciplina racional; vai tentar aprofundar-lhes o sentido e inferir, dos dados revelados, as verdades inúmeras de que estão prenhes.

Analogamente, as ciências empíricas procuram analisar, con­catenar os fatos (por exemplo, os fenómenos vitais), enquanto as ciências racionais deduzem da definição do triângulo ou do círculo, por exemplo, os diversos teoremas sobre essas figuras.

Grande diferença, todavia, separa a Sagrada Teologia das ciências profanas; estas partem de dados empíricos ou racio­nais, tendem à completa inteligibilidade e não raro a atingem; a teologia, pelo contrário, parte de dados metempíricos e transracionais; por mais progrida, nunca se poderá libertar da pe­numbra que a envolve qual aura sagrada.

Erro capital seria imaginar que a fé representa tão só o ponto de partida a ser transposto; atingida por ela a existência dos mistérios, poderíamos racionalizá-los plenamente. Não, a fé é a fonte perene donde a teologia haure a vida; seus primeiros princípios são os artigos de fé e sua guia constante é ainda a fé.

Fácil entender por que a teologia não se pode eximir da tutela da fé: embora Deus haja falado com palavras humanas, a realidade por elas designada é a divindade mesma, inco­mensurável ao fraco poder de compreensão de nosso intelecto; bem mais, fora de toda proporção com a inteligência ainda do mais alto dos anjos. Daí, a impossibilidade estrita de demons­trarmos os mistérios. Na melhor hipótese logramos encontrar e propor verossimilhanças, razões de conveniência, probabilida­des, indícios. Jamais resolveremos a verdade de fé em propo­sições evidentes.

Por isso mesmo o teólogo está sempre atento aos míni­mos ensinamentos da Igreja docente. Ele desconfia dos siste­mas próprios, de suas deduções, ainda as mais engenhosas; não perde de vista, um momento sequer, que a regra da fé é crer o que crê a Igreja.

Donde, a inconsequência dos que examinam a teologia ca­tólica como se aprecia um sistema filosófico e, encontrando nela dificuldades e obscuridades sem conta, alijam-na. Esque­cem esses as condições especialíssimas nas quais trabalha o teólogo; ele não constrói um edifício humano, mas um saber sagrado que, como tal, repousa sobre a mensagem divina, a qual temos o dever de acolher, por mais ultrapasse nossa inteligência.

A base da teologia não é a capacidade de invenção do teólogo, mas a fidelidade à Revelação.

Fonte: PENIDO, Pe. Dr. Maurílio Teixeira-LeiteO Mistério da Igreja. Petrópolis: Ed. Vozes, 1956.

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