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Mas por que ainda há alguma coisa e não o nada?

dnaO que é claro não viu nenhum homem e nunca haverá um que o saiba sobre os deuses e todas as coisas; mesmo se um conseguisse maximamente expressar o perfeito, ainda assim não o saberia; a mera opinião está apegada a tudo.

Xenófanes, in Diels-Kranz, B 34.

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Não devemos ter dúvidas de que Stephen Hawking é verdadeiramente um gênio da física teórica contemporânea. Não é à toa que sentou na mesma cadeira que o velho Newton um dia ocupou. E o mais importante: quando um gênio fala é sempre bom ouvir atentamente e refletir a respeito, pois certamente o que fala não é gratuito. É bom anotar, ler seus textos, pensar profundamente nas suas conclusões e, se possível (na verdade, se nossa capacidade permitir), tentar refazer sistematicamente o mesmo percurso, passo a passo, para não perder o que há de melhor no trajeto de um homem de gênio.

No entanto, não há razões para não discordarmos de qualquer gênio que seja. Não há gênio que, ao alcançar o ponto mais elevado de sua genialidade, deixe de ser apenas humano. Toda inteligência humana, por natureza, é falível; aliás, esse é justamente seu traço mais característico, seu drama, seu ponto cego: por mais que caminhemos, sempre estaremos na metade de um interminável caminho. Nosso drama é o mesmo drama de Aquiles na corrida de Zenão: por mais próximos, estaremos sempre um passo e um infinito atrás da tartaruga.

O comentário de Stephen Hawking a respeito da existência do universo dá um passo maior do que sua genialidade poderia suportar. “Por haver uma lei como a gravidade, o universo pode e irá criar a si mesmo do nada. A criação espontânea é a razão pela qual algo existe em vez de não existir nada, é a razão pela qual o universo existe, pela qual nós existimos”, diz.

Certamente, Hawking não deixará de ser gênio por ser falível; na verdade, nessa frase ele só deixou de ser físico e revelou o quanto é demasiado humano. Sua Física já não é mais a Física a que nos acostumamos depois que Galileu a reinventou, aquela que depende exclusivamente de observações rigorosas, experimentos e um sofisticado aparato matemático consistente a fim de expressar a consistência das suas ambições; essa Física pouquíssimos dominam, e Hawking está entre eles.

E, ainda que seu modelo de gravidade quântica sobre a origem do universo seja impecavelmente uma obra-prima da matemática, sua Física já não é mais a de hoje, pois é aquela dos homens que se admiram, se espantam e se perdem no torvelinho da pergunta: por que há coisas? Qual o princípio e fim último de todas as coisas?

Independentemente de sua preciosa matemática, dos seus fundamentos empíricos e o rigor lógico, ela deixa de ser “Física” e entra exatamente no coração de uma das perguntas mais perturbadoras que nossa inteligência poderia fazer: “afinal, por que existem coisas e não o nada?” Uma pergunta que traz uma escandalosa e sutil afirmação: “coisas existem”. Há um “Isso” permanente na sombra das nossas inquietações.

Se um dia isso foi Física, só um Heráclito, um Anaximandro ou um Parmênides poderiam nos responder. No entanto, se depois de Aristóteles já não é mais, imagine depois de Newton. A Física de Hawking já não é mais a dos físicos de hoje, mas é tà metà tà physiká dos filósofos. Nesse sentido, já não é mais regida apenas pelas razões da Física, mas pelo lógos da reflexão filosófica. Uma Física que já não pretende mais mera descrição dos fenômenos; pelo contrário, uma Física que busca ir ao fundo da “nervura do real” (para falar como alguns dos nossos espinosianos).

Na história da Filosofia, grosso modo, não foram poucos os que tentaram mostrar que tais perguntas – “afinal, por que existem coisas e não o nada?”, “Por que coisas existem?” – não têm lá muito sentido. Como demonstrou Protágoras, é até razoavelmente fácil invalidar a consistência desse tipo de pergunta, independentemente dos problemas epistemológicos que isso pode gerar – Kant que o diga, basta dizer que o único critério possível e imaginável para “todas as coisas” é o homem, ou seja, de que o homem é o único critério possível pelo qual se experimenta a realidade.

Não tem sentido dizer “coisas existem” uma vez que a experiência da existência das coisas está submetida e depende necessária e exclusivamente da existência de cada homem particular. Ou Hawking aceita uma espécie de pitagorismo-platônico, ou sua afirmação esbarra no limite humano da sua falível genialidade, ou seja, é só mais uma mera opinião de um gênio, assim como bem poderia ser a de um néscio.

No entanto, se ele aceita esse vestígio de platonismo, ou seja, existem coisas e podemos realmente explicá-las e descrevê-las matemática e filosoficamente como elas realmente são, ele terá de aceitar que não podemos abrir mão também da nossa estranha inquietação erótica por querer explicar por quais razões coisas existem, isto é, mergulhar fundo no fundamento último da verdade da existência. No entanto, isso já não é mais Física, mas pura Metafísica. Caro Hawking, por que ainda há alguma coisa e não o nada?

E, para aceitar que seu modelo matemático é mais que um modelo, terá de responder a “ok, mas por que ainda há uma lei como a gravidade?” e “O que exatamente devemos compreender como o ‘nada’?”, entre outras perguntas. Caso contrário, o seu “Não é necessário que evoquemos Deus para iluminar as coisas e criar o universo” não passará de um suspiro mal-humorado de uma mente, seja genial ou não, que experimenta a angústia de estar prestes a, definitivamente, se aposentar. Sua conclusão nada mais é do que a decisão de revelar o seu pressuposto.

Há uma crença generalizada de que a ciência definitivamente aposentou Deus, mas isso é muito mais uma questão de gosto, que também em nada depende da ciência. Como escreveu certa vez Schrödinger: “Fico impressionado como a realidade descrita pela ciência é deficiente. A ciência nos dá um conjunto enorme de informações factuais e coloca toda nossa experiência numa ordem magnífica, mas não nos pode dizer uma palavra sobre o vermelho e o azul, amargo ou doce, dor física e prazer, belo ou feio, Deus e eternidade. A ciência às vezes pretende nos oferecer respostas nestes domínios, mas elas são muito frequentemente tão estúpidas que eu não posso levá-las a sério”. (Mind and Matter, 1959)

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