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Os “ismos” do ateísmo e o que uma boa apologética precisa saber

ateism01O ateísmo é um posicionamento existencial diante da crença, ou ausência de crença, na existência em Deus. Há tantas formas de ateísmo quanto há ateus, e qualquer tentativa de definição definitiva do que é ateísmo, principalmente por parte de apologetas, não passa de um procedimento de classificação didática cujo objetivo é delinear melhor os seus interlocutores.

Na predicação classificatória buscamos assemelhar o que é assemelhável e excluir as idiossincrasias. É uma tarefa cognitiva impossível para os seres falantes nomear a totalidade dos detalhes manifesta nas particularidades disto ou daquilo ou daquele outro ali. Nomeamos para facilitar a vida fonética, aliviar a memória e poupar energia, e por isso pagamos o alto preço da generalização.

A religião é um fenômeno humano extremamente complexo. Não existe uma única e definitiva resposta ao longo da história da filosofia que dê conta de explicar a sua realidade, a sua essência, a sua natureza ou o que lhe é inequivocamente peculiar. A razão, talvez mais por disfunção congênita do que por mérito, busca encontrar as causas simples para explicar realidades complexas, persegue alucinada a unidade de uma estrutura permanente escondida por detrás da riqueza das variedades coloridas.

O esforço de pensadores da envergadura de William James, Henri Bergson, Eric Voegelin, Rudolf Otto, Mircea Eliade, Henri-Charles Puech, Bernard McGinn, Jean-Luc Marion e tantos outros, só vem confirmar o quão problemático é, para qualquer reflexão a respeito da vida religiosa, bater o martelo na bigorna dos imperativos categóricos classificatórios e generalizantes. Reduzir isto ou aquilo e aquele outro ali a um mero “tudo é assim!” é o impulso dos corações com sérias tendências dogmáticas.

Buscar a definição de um conceito pode ajudar o trabalho de identificação de alguns elementos fundamentais, identificar algumas chaves geradoras de posições e posturas na maioria das vezes bastante desconexas entre si, outras até mesmo conflituosas, mas não pode se arrogar a objetividade infalível e definitiva.

Definir o que é o ateísmo não é uma tarefa matemática, não cabe em um sistema axiomático de definições certas e indubitáveis. Sobretudo por ser uma postura existencial de uma rica variedade na qual só emerge no seio da cultura, o apologeta não deve correr o risco da satisfação estética provocada pelas proposições simplistas. Não cabe no caso da cultura o esforço de atravessar a ponte que conduz e reduz a riqueza de complexidade de formas à simplicidade geométrica de uma única formulação.

Com fins puramente didáticos, cujo objetivo último é delinear o bom interlocutor, buscarei três definições possíveis de ateísmo. Apenas pra dizer uma coisa: uma boa apologética não é aquela que compra qualquer briga só pelo fato de ser oriunda de posicionamento ou questionamento ateu, mas aquela, pelo contrário, que reconhece quando um interlocutor deve ser levado a sério.

O ateísmo não é simplesmente a ausência na crença em Deus. Se assim fosse não haveria conflitos, e cada um viveria no hermetismo de sua posição religiosa, e ponto final. Ateísmo é uma categoria da vida religiosa; melhor, é uma visão completa de mundo, um posicionamento filosófico, metafísico (no sentido genuíno da palavra) comprometido com a verdade da realidade como um todo, tal como o mais pio do cristão também o é.

Ninguém vive uma vida sem uma “filosofia”, se negamos certas premissas “teológicas” aqui, é por que afirmamos, e muitas vezes escondemos, outras ali. Se nego a crença na existência em Deus é por que carrego uma crença na existência de uma outra realidade tão definitiva e fundamental quanto o equivalente valor de Deus para um santo.

O traço singular e que assinala de forma nuclear o saber filosófico é justamente o desdobramento sobre si mesmo, a interrogação sobre o fundamento de sua própria realidade, ou seja, conter a ideia de que todo saber é saber de si mesmo enquanto se distingue e se diferencia da ignorância e do erro.

O saber é um esforço constante a fim de resgatar a realidade perdida quando vivemos em meio às formas ideológicas, isto é, afastadas da realidade. A busca da verdade da realidade que não se propõe a uma cuidadosa investigação dos seus próprios fundamentos não é digna de ser levada a sério em sua totalidade, isto é, não passa de um esboço pitoresco, um desenho mal feito de uma visão de mundo que de fato emergiu dessa característica peculiar: dar sempre as razões de suas próprias experiências e convicções.

À luz dessas observações é possível mapear fenomenologicamente, isto é, a maneira como aparecem, quatro formas de ateísmo presentes em um cenário atual. i) o ateísmo evangélico ou neo-ateísmo, ii) o ateísmo niilista, iii) o ateísmo humanista ou humanismo secular. Nenhuma dessas forma mentis de ateísmo se manifesta de modo puro.

Todas estão mescladas uma nas outras e se expressam, obviamente, na unidade da postura de um ateu de carne e osso que vivencia a experiência existencial real de se autoproclamar – consciente ou não de seus fundamentos últimos – ateu para sua “comunidade” que o reconhece e o acolhe ou não como tal.

I – O ateísmo evangélico

Chamo ateísmo evangélico a versão ativista fundamentalista de ateísmo, fenomenologicamente se mostra naquilo que ficou conhecido como neo-ateísmo. O Neo-ateísmo é recente na história do ateísmo e sua principal postura é a radical hostilidade com praticamente todas as formas de vida religiosa vivida de uma forma ativista e militante. A lógica simplista do neo-ateu é basicamente a de que a religião é a fonte do mal no mundo, elimina-se a religião, logo se tem “o paraíso” na Terra. O ateísmo ingênuo não deve ser considerado como interlocutor. É o esboço da expressão de uma postura ideológica.

E não pela razão de militar hostilidade ou agressividade aos religiosos e muito menos por achar que a religião deve ser eliminada, mas pela estima que tem de si mesmo como a única forma possível de se questionar a experiência e a vida religiosa.  A estima que os neo-ateus têm por si mesmos os impossibilitam de uma reflexão mais refinada a respeito da própria consistência filosófica de suas convicções.

Neo-ateísmo é subcultura, autoajuda para adolescentes inquietos e frustrados que mal terminaram o Ensino Básico e já tecem comentários a respeito dos mais refinados dilemas metafísicos. O que deu trabalho para filósofos de grande envergadura, os mais árduos graus de dificuldade técnica e problemas de natureza complexa, é jogado no palavrório estúpido e desajeitado do tanto faz e do vale tudo.

Não é à toa que de uns anos pra cá pululam nas redes sociais a maciça repetição de jargões extraídos de literatura de divulgação pseudofilosofia e cientificista. Subitamente uma onda de amadorismo jocoso sobre os argumentos a respeito da existência de Deus, o problema do mal, a hermenêutica bíblica e tantos outros temas histórico-filosóficos invadem as prateleiras das livrarias. Desses livros são extraídos os jargões abundantemente reproduzidos nas as redes sociais como se os autores fossem autoridade nos devidos assuntos.

O ateísmo é incauto e dogmático justamente pela falta de autocrítica filosófica, mesmo se arrogando submeter “tudo a uma incansável, quase tediosa, autocrítica”. O tudo dos neo-ateus não cabe o “si mesmo” de tão cheios de si, esquecem o principal: fundamentar as próprias crenças. Como disse Michel Novak: “nesses livros [neo-ateus] não há sequer uma sombra de evidência de que os autores tiveram, alguma vez, qualquer dúvida sobre a correção de seu próprio ateísmo”. Não há discussão com quem não se coloca a si mesmo como um problema. A fraqueza de todo crente é nunca duvidar de si mesmo. O fracasso de toda postura intelectual é se esquivar dos seus próprios alicerces.

II – Ateísmo niilista

Ateísmo niilista é a forma mais séria de ateísmo. E a forma que coloca em xeque toda possibilidade de deduzir algum sentido da vida. A vida não tem sentido. E qualquer busca de sentido não passa de uma vã pretensão provinciana. Essa concepção é bastante fatalista e certamente a mais realista. E por isso, os ateus niilistas geralmente são tratados como pessimistas.

A questão é que podem ser bons interlocutores para os cristãos, uma vez que partilham semelhante concepção de homem, uma antropologia filosófica, com algumas correntes tradicionais de cristianismo: a insuficiência da natureza humana, sua ontológica disfunção cognitiva, sua miséria existencial e a profunda experiência de contingência e absurdidade da verdade da vida.

O ateu niilista experimenta, tal como o cristão deveria também experimentar, a ideia de que participamos de um drama cósmico sem nenhuma solução possível. No caso do cristão a resposta última é Deus, do ateu niilista, não há possibilidade de respostas últimas. Tudo é nada. O universo é fruto do acaso e o acaso rege cada detalhe da nossa medíocre tentativa de produzir alguma coisa que tenha significado.

Do ponto de vista epistemológico o conhecimento é, por natureza, limitado, regional e falível. Só existe um problema verdadeiramente sério para o ateu niilista: responder se a vida vale ou não a pena ser vivida.  O que torna a vida humana significativa? Nada! Não há para o ateu niilista uma resposta possível para tal pergunta. Apenas tateamos possíveis sombras. Clamamos por uma vida significativa e a única resposta é o silêncio abissal, a existência é opaca, finita e hermética, e não há abertura para o absolutamente Outro.

Um exemplo claro de experiência que vivencia o ateu niilista é a cena da Confissão do Antonious Block no filme Sétimo Selo do Bergman. Meu coração é vazio. O vazio é um espelho. Eu vejo meu rosto… E sinto delírio e horror. Minha indiferença aos homens me fechou totalmente. Eu vivo agora em um mundo de fantasmas… um prisioneiro em meus sonhos… Eu quero que Deus ponha sua mão… mostre seu rosto, fale comigo. Mas ele é mudo. Eu choro para ele no escuro, mas parece não ter ninguém lá…. Talvez não tenha ninguém lá, diz a morte. Então, respondo Block, a vida é um terror sem sentido. Nenhum homem pode viver com a Morte e saber que tudo é nada… Devemos fazer de nosso medo, um ídolo… e chamá-lo de Deus.

III – Ateísmo humanista

O ateísmo humanista ou simplesmente humanismo secular é um perfil filosoficamente mais consistente de ateísmo ideológico. O ateísmo evangélico é a sua caricatura bizarra mais desengonçada. De fato o humanismo secular pode ser colocado como o principal oponente de uma apologética ou de toda vida religiosa, pois é o seu extremo oposto.

Os ateus humanistas que se dispõem ao bom diálogo devem ser enfrentados e, se possível, refutados. Seus textos e projetos precisam ser cuidadosamente analisados e seus erros, obviamente, apontados e desmascarados. Para o religioso o humanismo secular é a grande pedra no sapato. Por duas razões: são ativistas e intelectualmente preparados.

Em relação ao ateísmo evangélico compartilham da hostilidade em relação à vida religiosa, porém não são incautos. Com o ateísmo niilista partilham o refinamento filosófico e, principalmente, o fatalismo, porém não são pessimistas. E o problema do ateu humanista é justamente o seu otimismo em relação à natureza humana, já que é desse otimismo que deduzem todo seu cardápio de intenções.

Humanismo Secular é uma visão completa de mundo, não se limita a ser crítico da religião revelada e histórica. Os ateus humanistas seculares têm posturas bastante objetivas, uma agenda ética, um programa político no qual são fundamentas em uma perspectiva metafísica naturalista, isto é, uma concepção sistemática, objetivo e filosoficamente elaborada da realidade justificada numa concepção de que a ciências experimentais são paradigmas de conhecimento seguro e bem sucedido. O progresso é o motor da história e a realização efetiva de um mundo melhor sua meta.

Enfim, o importante desse breve esboço é fornecer parâmetros para se pensar no lugar de uma apologética que se pretende consistente e não se sente satisfeita por chutar cachorro morto. O que devemos realmente perceber são as possíveis faces que o ateísmo pode tomar, de que não é unívoco, um bloco fechado e único de convicções. E nunca esquecer que é sempre mais fácil encontrar lobos entre os cordeiros.

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