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O Existencialismo

Quais seriam as notas características e o significado do Existencialismo ?

O Existencialismo constitui uma atitude filosófica mais do que uma escola estritamente dita; norteia-se por certos princípios gerais, sob os quais cada pensador existencialista coloca suas teses próprias; daí também falarem os historiadores de «existencialismos» contemporâneos (haja vista o título da obra de E. Mounier: Introduction aux existentialismes, Paris 1947).

O existencialismo moderno tomou início em meados do século passado (19), como reação contra o exagerado intelectualismo ou o idealismo de Hegel. Este versava em plano totalmente especulativo, desenvolvendo um sistema filosófico que propunha o Absoluto chamado «a Idéia» a evoluir segundo a dialética de «tese, antítese e síntese». A fuga de Hegel e dos idealistas para o abstrato pareceu a um pensador dinamarquês, Sõren Aabye Kierkegaard (1813-55), ser a fonte precípua da decadência moral e espiritual que se registrava em geral na sociedade do século passado. Dai a reação dita «existencialista», que visava voltar às coisas como elas são, não como se pensa que elas sejam.

O iniciador do novo movimento, Kierkegaard, era homem profundamente religioso, luterano, que se insurgiu contra a mediocridade da conduta de seus contemporâneos, e lhes procurou despertar a consciência para a responsabilidade cotidiana. Todavia, enquanto viveu, Kierkegaard não encontrou eco. A sua mensagem só se desenvolveu quando em fins do século passado renasceu na Alemanha, apregoada por Karl Jaspers e Martin Heidegger, que lhe deram colorido já não religioso, mas praticamente ateu. A atitude existencialista se estendeu a outras nações, alimentada pelo mal-estar e o abatimento que duas guerras mundiais consecutivas em nosso século (20) lançaram sobre os povos ocidentais; na França contemporânea, por exemplo, ela tem dois representantes de grande vulto: Gabriel Mareei, católico convertido em 1929, e Jean-Paul Sartre, ateu niilista até as últimas consequências, ao qual se associam de perto Camus, Malraux e Simone de Beauvoir; na Itália podem-se mencionar Abbagnano e Grassi, enquanto a Espanha conta com Miguel de Unamuno. A variedade de correntes do existencialismo (piedade luterana de Kierkegaard, piedade católica de Mareei, impiedade extrema de Sartre) já mostra bem que o existencialismo não é pròpriamente uma escola filosófica, mas uma atitude ou tomada de posição geral diante dos problemas capitais do espírito humano. Verdade é que, quando hoje em dia se fala de existencialismo, frequentemente se entende a mentalidade ateia de Sartre. Não há dúvida, o relativismo deletério altamente fomentado pelos escritos de Sartre marcou profundamente o ritmo do pensamento e da vida modernos; muitos dos nossos contemporâneos que não professam teoricamente o existencialismo, na prática respiram o ar do clima existencialista que recobre o mundo atual. Principalmente o existencialismo francês, afirmando-se. pela arte, a literatura, o cinema e pela conduta de vida excêntrica de seus representantes, tem penetrado na sociedade; verifica-se que levou não poucos de seus adeptos, após uma existência debochada, ao desespero e ao suicídio.

Consideremos agora…

1. As linhas mestras da mentalidade existencialista

O existencialismo moderno, em virtude das circunstâncias em que se originou (reação contra o abuso da razão especulativa no século passado – 19), é, antes do mais, anti-intelectual; recusa a construção de um sistema de teses concatenadas a partir de princípios evidentes por si mesmos. Kierkegaard se lamentava só por pensar que, após a sua morte, «professores exporiam a sua Filosofia como um sistema completo de idéias, distribuídas em secções, capítulos e parágrafos»!

Esse anti-intelectualismo leva naturalmente às seguintes principais posições:

1.1) Estima do                                   Desdém da

EXISTENTE                                          ESSÊNCIA

CONCRETO                                        ABSTRATA

CONTINGENTE                                 NECESSÁRIA

TEMPORAL                                        ETERNA

SINGULAR e INDIVIDUAL            UNIVERSAL

Que se entende por tal terminologia ?

A essência de um ser é a sua natureza genérica e específica, natureza que se realiza em todo indivíduo da mesma espécie. Assim a essência de Pedro é a de animal racional; nesta noção plana e indiferenciada, Pedro, Paulo, Maria e Joana se nivelam entre si, independentemente das notas pessoais de cada um. Pois bem; tal trabalho da inteligência que se separa da realidade individual para representá-la num plano genérico e quase «estandartizado» é rejeitado pelo filósofo existencialista. Este volta a sua atenção para o indivíduo «existente» tal como ele semostra no plano concreto e real, não tal como ele se demonstra no plano da especulação e da abstração.

Em outros termos, conforme o existencialista, o homem é o que ele faz, não o que ele pode ou deve fazer. O «poder fazer» e o «dever fazer» pressupõem uma estrutura que define e rege o homem antes que este aja. Ao contrário, o «faz» aponta para o homem existente, concreto, projetado na ordem real. Ora é a este, e não àquele, que o existencialista dá valor; ele não leva em conta estruturas nem leis do ser anteriores à atividade concreta de tal ser; o homem, para ele, nada tem de eterno, de atemporal e necessário, mas é tão contingente quanto o seu modo de agir; o modo de agir esgota simplesmente a definição de homem.

Esta posição filosófica tem ampla repercussão no plano da Moral. O existencialista coerente com suas premissas não reconhece preceitos éticos perenes, válidos para todos os tempos e todos os indivíduos, mas afirma que as categorias do bem e do mal moral são variáveis como as circunstâncias em que cada indivíduo se encontra; é a situação do momento, transitória, que faz a ética de tal pessoa, ditando o que é bem e o que é mal para essa pessoa (bem e mal que poderiam não ser tais para outro individuo humano). Não existe «a Moral» em si, mas existe apenas «minha Moral», como não existe «a Verdade», mas apenas «minha Verdade» (Jaspers). — É essa a «Ética da situação», também dita «Existencialismo ético».

1.2) Estima do temperamento individual, afetivo, em oposição à razão.

Pessimismo e angústia, em oposição a otimismo e paz.

Esta segunda categoria de notas do existencialismo é bem coerente com a anterior. Com efeito, quem menospreza a ação do intelecto, passa a se nortear pelo sentimento ou pelo seu temperamento pessoal subjetivo; a «minha experiência» torna-se então critério estrito para que «eu» afirme ou negue alguma coisa.

E a experiência à qual os existencialistas dão atenção preponderante, é a dos limites e imperfeições que cercam o homem neste mundo. Daí o pessimismo desses filósofos ou a Preocupação («Sorge») de que muito falam Kierkegaard e Heidegger.

Este último, em particular, ensina que, para os homens entregues a uma existência banal, dispersa, perdida no mundo e destituída de sentimentos nobres («uneigentliche Existenz»), a Preocupação acarreta o Medo («Furcht»). Para aqueles que, ao contrário, fogem à dispersão e nutrem em si sentimentos corajosos e nobres, a Preocupação gera a Angústia («Angst»); essa angústia é crescente à medida que o fim da vida se aproxima; a Morte ocasiona a Angústia suprema. O existencialista ateu acrescentaria aqui: tentar esquivar-se à angústia é entrar para o rol dos «tipos imundos» que procuram refúgio na religião, mas até nestes a angústia persiste, à espreita… É preciso que o homem lute desapiedadamente contra a tentação da felicidade; o sofrimento constitui, sim, a condição normal, verdadeiro mal incurável, do homem. Com a morte tudo se acaba, ficando as tendências inatas do homem frustradas no fim deste currículo terrestre. O moribundo é uma bolha que se extingue no ar, é um laço que se desata no palco das tragédias humanas.

Sartre deu a tais idéias um acento particularmente carregado; para ele, o aparecimento do homem no mundo, como o próprio mundo em si, é algo de gratuito, absurdo. O homem vê-se aqui jogado «sem razão, sem causa e sem necessidade»; consequentemente experimenta o asco da vida. Porque existe alguma coisa? «Tudo era demais… Eu também era demais», responde Sartre; não obstante, continuaria ele, minha existência é um fato, é uma aventura; queira ou não queira eu, tenho que me afirmar, pois o homem é essencialmente um impulso, um «élan».

A náusea que Sartre experimenta neste mundo se traduz no seu conceito de relações sociais. Não procure o homem consolo algum no convívio com os seus semelhantes, advertia ele; a fraternidade humana é ilusória. O «outro» é inimigo e rival; rouba-me o mundo. “A verde erva dos campos volta para o outro uma face que eu não conheço». E, multiplicando análises implacáveis, Sartre pretende mostrar o ódio irredutível que opõe os seres humanos entre si, mesmo depois da morte. «O inferno são os outros», assevera ele simplesmente.

Esta afirmação é bem ilustrada por famosa peça sartriana: Huis-clos (A portas fechadas). Nesta aparece um quarto de hotel, que por convenção representa o inferno; contém três assassinos, mortos também eles de morte violenta: Estela, Inês e Garcia. Um criado irrepreensível se mostra obsequioso ao extremo para com os três hóspedes. A vida aí parece tão amena, até confortável, que os três clientes perguntam uns aos outros onde estão os tormentos que pensavam encontrar em punição de suas faltas: «Será isto afinal o inferno?» pergunta um dos criminosos. «Nunca o pensei. Recordai-vos? O enxofre, a fogueira, a grelha…»

Eis, porém, que esse quarto misterioso apresenta duas notas características: carece de espelhos e tem as portas inexoravelmente fechadas. Ora basta isso para que a situação se torne verdadeiramente infernal. Sim, diz Sartre, o homem, ao agir neste mundo, nunca encontra a si mesmo, nunca pode refletir sobre si ou, como acontece aos condenados de Huis-clos, nunca se pode mirar no espelho. Doutro lado, os semelhantes com quem convivemos neste mundo, estão sempre a espreitar-nos e a formar um juízo a nosso respeito. Em consequência, acontece que, de um lado, não podemos possuir-nos a nós mesmos e, de outro lado, estamos condenados a ser possuídos pelos outros e a ser arrebatados a nós pela opinião que os outros formulam a nosso propósito.

Vê-se destarte qual a pena a que estão condenados os hóspedes de Huis-clos ou, sem simbolismo, os homens neste mundo: é a pena de terem que viver em sociedade, sem se poderem isolar, tornando-se por conseguinte objeto da opinião dos outros, que os conquista. Feita esta experiência, os clientes de Huis-clos chegam a uma conclusão que Sartre quer incutir aos seus leitores: todo indivíduo humano é demônio e carrasco para os outros; os homens que nos cercam são «demais» e nos causam náusea: «O enxofre, a fogueira, a grelha… ride! Não há necessidade de grelhas: o inferno são os outros!»

1.3) Estima da Ação, em oposição ao Pensamento.

Quem aprecia o concreto existente mais do que a idéia abstrata, não pode deixar de valorizar especialmente a atividade, pois é esta que tem por objeto o ser individual.

Para o existencialista (falamos aqui principalmente da modalidade ateia), o homem está lançado na onda da vida presente, sem poder resistir à impetuosidade da mesma ; em consequência, o individuo tem que se desdobrar ou realizar. Para alcançar tal fim, ele possui uma liberdade. Esta, porém, está longe de implicar dignidade para o homem; é, ao contrário, uma espécie de maldição. Com efeito, a nossa liberdade não quer dizer «faculdade de escolher entre diversos bens», pois não há valor algum fora do homem; qualquer motivo de ação para o indivíduo carece de sentido.

“Cada um dos meus personagens, depois de ter feito o que quer que seja, pode ainda fazer, -o que quer que seja”, observa Sartre, visando inculcar que o homem sempre é livre, porque não há propriamente nem bem nem mal.

Liberdade, por conseguinte, vem a ser apenas a possibilidade de agirmos sem ser coagidos por algum fator extrínseco; é, porém, espontaneidade mecânica, não subordinada ao controle da vontade nem à deliberação do indivíduo.

Todavia o uso da liberdade acarreta uma consequência fatal: a existência é incapaz de conter o seu dinamismo ou as suas tendências; por falta de cerimônias ou de modos, então, ela rompe a sua crisálida ou os seus limites, e extravasa cometendo erros maiores ou menores… Estas falhas — que, segundo a conceituação cristã, constituem desvios morais ou pecados — são inevitáveis, pois decorrem do fato de que o ambiente quer opor à existência empecilhos e fronteiras.

Daí se segue que toda existência humana é um fracasso; cheio de amargura e desespero, o homem posto neste mundo lança-se numa ação inútil.

«Não fazemos o que queremos e, não obstante, somos responsáveis por aquilo que somos. Eis a verdade», diz Sartre. E, se alguém perguntasse ao escritor francês se isto não é absurdo, responderia que sim, evidentemente, como tudo mais é absurdo!

Aliás, à guisa de consolo, prosseguiria Sartre, “o que escolhemos, é sempre o bem», pelo simples fato de que o escolhemos. Donde se depreende que «tanto faz embriagar-se como governar um povo»; o que importa é comprometer-se («s’engager»), e isto, «numa noite sem estrelas, num caminho ladeado de precipícios».

1.4) Estima da Arte, em oposição à Ciência.

Compreende-se esta antítese, dado que a arte tem por objeto o concreto singular, enquanto a ciência visa as essências, ou seja, as definições universais e as leis gerais.

Importante consequência deste fato é que o existencialismo se exprime não propriamente por meio de tratados didáticos, os quais costumam dissecar a realidade, introduzindo-a dentro de categorias racionais; transmite-se de preferência por meio de peças, sejam literárias, sejam teatrais, procurando colher ao vivo o real concreto; tenham-se em vista principalmente os escritos de Kierkegaard, Gabriel Mareei e Sartre (diários, poesias, romances, dramas de palco…).

2. Que direi do Existencialismo ?

Numa tomada de posição frente ao Existencialismo, pode-se começar por reconhecer alguns títulos de apreço que esta ideologia apresenta.

2.1. Valores positivos

a) Reconhecido mérito dos existencialistas é o de haverem reagido contra o intelectualismo exagerado — dir-se-ia mesmo: decadente — que dominava a Filosofia do século passado: lembraram ao mundo que a verdade é desfigurada e se torna letra morta, caso não seja endossada pessoalmente pelo estudioso, excitando nele o senso da responsabilidade e impelindo-o a viver mais intensa e conscientemente determinada missão neste mundo. O conhecimento da verdade é simultaneamente mensagem, ensina a Filosofia perene; exige um compromisso («engagement») da parte de quem se vê atingido pela verdade. Não é digno do homem viver «por procuração», isto é, alheio à realidade concreta, encastelado numa abstração que muitas vezes equivale a comodismo e emburguesamento.

b) O existencialismo fez ver ao mundo, com ênfase única, a angustiosa situação em que a sociedade se coloca, desde que renegue a Deus. Os homens do século passado, enveredando por correntes filosóficas novas, tentaram eliminar a Deus, diria Sartre, com o mínimo de incômodos possíveis, isto é propugnando a validade de leis e sanções, o valor objetivo da ordem pública, sem contudo admitir a existência de Deus; na prática, procediam como se Deus ou um Valor super-humano de fato existisse.

É o famoso escritor Emmanuel Mounier quem observa:

«Sartre censura os sistemas de moral leigos e radical-socialistas por quererem suprimir Deus com o mínimo de incômodos possível. Deus não existe, proclamaram eles, mas não obstante nada será mudado. — Muito ao contrário, responde Sartre com razão, se Deus não existe, tudo está mudado. Não há mais valores espirituais, não há mais nenhum bem necessário, não há mais luz interior» (extraído da revista «Esprit» julho de 1946, 97).

Em particular, Sartre reagiu contra a incoerência afirmando que, se não há Deus, o homem tem o direito de se tornar carrasco e açougueiro, isto é, tem o direito de matar e roubar segundo seus critérios pessoais (muitas vezes apaixonados); é com razão que Sartre assim fala, porque nenhum homem estará jamais habilitado a coibir seu semelhante senão (ao menos implicitamente) em nome de Deus; cf. «P. R.» 21/1959 qu. 1. Claro está que um mundo dominado pelo ateísmo coerente que Sartre apregoa, não pode deixar de parecer tremendamente absurdo, tornando-se assim ocasião de náusea e desespero. — Foi, sim, para esta realidade que o existencialismo apontou mui vivamente.

c) Os existencialistas modernos, afirmando a angústia do homem sobre a terra, não fizeram senão abordar um problema tão antigo como a história do gênero humano; o problema da insuficiência de tudo que é criado, para saciar a sede que o homem tem do Bem. Já o judeu autor do livro bíblico do Eclesiastes (séc. III a. C.), mais tarde S. Agostinho (+430) e, posteriormente ainda, o filósofo Blaise Pascal (+1662) deram expressão à inquietude ou à sede da alma peregrina neste mundo. A filosofia budista, do seu modo, faz eco a essa experiência. Kierkegaard, Heidegger, Jaspers, Mareei e Sartre são outros tantos arautos da mesma necessidade humana. — É sadio, é mesmo necessário, que o homem se dê por insatisfeito com os bens que este mundo lhe oferece; tal é o pressuposto de qualquer autêntica procura de valores. Contudo o existencialismo moderno, longe de ser construtivo como o dos autores anteriores e encaminhar o problema para uma solução, só faz exacerbá-lo… E porque? — é o que passamos a examinar, considerando…

2.2. Os desvios da mentalidade existencialista.

a) A reação contra o intelectualismo exagerado levou os existencialistas ao extremo oposto, isto é, a um anti-intelectualismo que depaupera a personalidade humana. Em «P.R.» 20/1959 qu. 1, procuramos demonstrar a capacidade da inteligência para apreender a verdade; o realismo natural, ou seja, a aceitação de certas proposições que se nos incutem naturalmente, constitui a única atitude filosófica não absurda; a natureza humana é tal que ela só se realiza plenamente, usando da sua razão; caso renegue a esta, o indivíduo, entre outros inconvenientes, corre o risco de cair num misticismo subjetivista, sentimental e cego, que leva ao desespero e ao suicídio, como se tem verificado no existencialismo contemporâneo.

É esta, aliás, a nota que diferencia o existencialismo dos modernos do de pensadores mais antigos: os modernos recusam-se a usar da Lógica e a construir uma Metafísica, dando com isto provas de cansaço ou decrepitude de mente; representam uma mentalidade que perdeu a consciência do seu próprio vigor. Ora isto significa decadência, e decadência semelhante à que se deu no fim da história da Filosofia grega (séc. II a. C. — séc. I d. C.), quando, distanciando-se dos grandes sistemas metafísicos de Platão e Aristóteles, os pensadores se tornaram epicureus, cínicos e céticos…

Caso, ao contrário, se deixe guiar pela razão, o homem ultrapassa os bens contingentes que o mundo sensível lhe proporciona, e apreende as essências que, no dizer de Aristóteles, são algo de necessário, eterno e imutável. Em outros termos: pela razão o homem chega ao conhecimento do Bem Essencial, da Beleza Essencial, da Justiça Essencial, em uma palavra:… do Ser Absoluto, não contingente, o único capaz de responder ao brado espontâneo da alma humana. Eis quanto vale o sadio uso da razão…

b) A mesma observação se poderia formular do seguinte modo:

Todo homem que se renda à evidência, deve reconhecer que deseja um valor: deseja, sim, o bem, a bem-aventurança, mediante qualquer de seus atos (à pergunta: «Quanto queres ser feliz ?», todos responderiam que desejam ser irrestritamente felizes,… felizes tanto quanto isto lhes esteja ao alcance).

Pois bem ; a procura de um valor supõe naturalmente que eu mesmo já seja um valor ; existe, sim, um bem inicial dentro de mim.

É preciso então (e neste ponto o não existencialista se separa do existencialista) que eu tenha consciência de que sou um valor e de que, quando clamo por um bem maior, não faço senão bradar por complemento ou consumação de minha natureza. Não queira eu sufocar esse clamor, tachando-o de absurdo ou desesperado! Pois há, sim, quem lhe responda; existe esse Deus, objeto das aspirações humanas, como existe, sem dúvida alguma, o Norte que invisivelmente atrai a agulha magnética, agulha agitada até que nele se repouse!

c) Quanto à posição de Sartre em particular, niilista ao extremo como é, alguns comentadores julgam-na demasiado antinatural para que o próprio Sartre a possa sustentar durante muito tempo; ela se opõe frontalmente ao fundo de bom senso e de equilíbrio moral de todo homem. O pensamento desse filósofo ainda deve estar em evolução… Os mesmos comentadores consideram a atitude momentânea de Sartre como a possível expressão da veemente decepção ou do escândalo que este escritor terá experimentado ao tomar contato com o mundo contemporâneo: um mundo de homens que vivem preponderantemente em função do dinheiro, do gozo e da opinião pública, totalmente esquecidos dos valores da consciência… Não terá sido sem motivo que Sartre disseminou através das suas peças as figuras, esboçadas com traços ferozes, de indivíduos de má fé e de falsa consciência; estes personagens constituem uma cópia da realidade contemporânea, que Sartre, dolorosamente decepcionado, talvez queira denunciar como absurda e asquerosa. O tempo possivelmente revelará a Jean-Paul o aspecto positivo da natureza humana, pois Sartre não é quiçá um debochado cínico, como parece à primeira vista, mas uma alma de idealista profundamente atormentada pela incoerência do mundo atual! Cf. F. Jeanson, Le problème moral et la pensée de Sartre. Paris 1947; E. Brisbois, Le sartrisme et le problème moral, em «Nouvelle Revue Théologique» 74 (1952) 30-48. 124-145.

Contudo, consideradas em si mesmas, as obras do príncipe do existencialismo contemporâneo são tremendamente deletérias; pelo que o S. Ofício as colocou no Índice dos livros proibidos aos 6 de novembro de 1948.

d) Os outros grandes temas a respeito dos quais o existencialismo contemporâneo manifesta concepções errôneas, já foram explanados em fascículos anteriores de PeR. Assim a questão do valor perene dos preceitos morais ou das categorias do bem e do mal moral, em «P. R.»7/1958, qu. 5; o tema do inferno, em “P. R.» 3/1957, qu. 5; o problema da liberdade de arbítrio com seus matizes, em «P. R.» 5/1958, qu. 3, 6 e 7; 7/1958, qu. 5.

A guisa de conclusão, seja aqui recordada uma frase de Nietzsche (+1900), um dos grandes angustiados dos últimos tempos:

«Quero abrir-vos meu coração, ó amigos; se existissem deuses, como poderia eu suportar não ser Deus?»

Por estas palavras era o fundo autêntico da natureza humana como tal que se exprimia. Nietzsche, porém, julgava que seu brado era utópico… O verdadeiro filósofo (não somente o cristão, mas também o grego anterior a Cristo) lhe replicaria que, na verdade, existe Deus e que é possível ao homem ser semelhante a Deus. Para conseguir este objetivo, use da sua razão; esta o levará a Cristo Homem; de Cristo Homem ela finalmente o fará passar a Cristo Deus!… (cf. «P. R.» 8/1957, qu. 1).

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