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A Compaixão de Deus e a Compaixão de Maria.

Maria no mistério da cruz e da ressureição. Uma breve meditação de Joseph Ratzinger- Papa Emérito Bento XVI- no livro “Maria, a Igreja nascente” de grande interesse teológico e espiritual.

A passagem começa meditando as palavras do velho Simeão: “Ele será motivo de queda e elevação de muitos em Israel, e será sinal de contradição… quanto a ti, uma espada te atravessará a alma” (Lucas 2,34).

A espada atravessará seu coração: isso faz referencia á Paixão de seu Filho, que se tornará também a Paixão da Mãe. Essa paixão já começa na visita ao templo: Maria deve aceitar a vontade do Pai, deve aprender a deixar livre aquele que Ela deu a luz.

Deve levar até o fim o “sim” dito para fazer a vontade de Deus que a tornou Mãe de seu Filho: se retirar e coloca-lo em liberdade para a sua missão. Do inicio da vida pública de Jesus até sua Paixão, foi dado um passo importante que será consumido na cruz com as palavras “Eis aí o teu filho”: desse momento em diante, seu filho já não é somente Jesus, mas também o discípulo. A aceitação e a disponibilidade é o primeiro passo que se exige dela, o deixar e dar a liberdade é o segundo. Só aqui se faz completa a sua maternidade: “Bendito o seio que te criou” só se faz verdadeiro quando se trona parte de outra bem aventurança. “Mais benditos são os que ouvem a Palavra de Deus e as guardam” (Lucas 11,27).

Assim, Maria está preparada para o mistério da cruz, que não termina simplesmente no Gólgota. Seu Filho continua sendo sinal de contradição, e assim ela segue submersa na dor da tal contradição, na dor da maternidade messiânica.

Especialmente querida para a piedade cristã, ele se tornou de modo preciso a imagem da Mãe sofredora, convertida totalmente em compaixão, com seu Filho morto em seus braços. Na Mãe que compadece, encontramos nos sofrimentos de todos os tempos o reflexo mais puro de compaixão divina que é o único consolo verdadeiro. Pois toda dor, todo padecer é, em sua ultima essência, isolamento, perca de amor, algo que não está bem e alguém que não se aceita. Só o “com” pode curar a dor.

Em Bernardo de Claraval se encontra esta palavra maravilhosa: Deus não pode padecer, mas pode compadecer (1). Bernardo coloca um certo ponto final á disputa dos Padres acerca da novidade do conceito do cristão de Deus. No pensamento antigo, a essência de Deus pertencia a impassibilidade da pura razão. Para os Padres era difícil rejeitar esta ideia e conceber alguma “paixão” de Deus, mas pela Bíblia vinham, perfeitamente, porem, que a “revelação da Bíblia” “faz estremecer… [tudo] o que o mundo havia pensado sobre Deus”. Viam que em Deus há uma paixão muito intima que inclusive é a sua essência genuína: o amor. E porque ama o padecimento não Lhe é distante na sua forma de compaixão. “Em seu amor ao homem, o Impassível sofreu a compaixão misericordiosa”, escreve Orígenes a esse respeito (2). Se poderia dizer que a cruz de Cristo é a compaixão de Deus pelo mundo. No Antigo Testamento Hebreu, o compadecer de Deus não se expressa como um âmbito psicológico, mas também corresponde à modalidade correta do pensamento semítico, se designa como um vocábulo que em seu significado básico denota um órgão corporal, a saber «rahamim», que no singular significa o claustro do seio materno. O mesmo que “coração” equivale a sentimento, e “lombos” e “rins”, ao desejo e a dor, assim o seio materno se converte na palavra que denota a solidariedade com o outro, em referencia muita profunda á faculdade do ser humano existir para o outro, se assumir-se em si mesmo, de suportar-se e suportando-se, lhe dar a vida. O Antigo Testamento nos diz, com uma palavra de linguagem do corpo, como Deus nos contem em si, nos leva em si com um amor que compadece (3).

As línguas nas quais o Evangelho entrou no mundo pagão, não eram conhecidas por eles em sua forma de expressão.  Mas a imagem da Pietá, a Mãe que padece pelo Filho morto, se tornou a tradução viva dessa palavra: nela fica patente o padecer materno de Deus. Nela se fez visível, tangível. Ela é a “compaixão” de Deus, representada por um ser humano que se deixou implicar plenamente no mistério de Deus. Mas, visto que a vida humana é em todos os tempos padecer, a imagem da Mãe que padece, a imagem dos «rahamim» de Deus, chegou a ser muito importante para a cristandade.

Só nela tem fim a imagem da cruz, porque Ela é a cruz assumida, que se partilha em amor, aquela que nos permite experimentar em sua compaixão a compaixão de Deus. Assim, a dor da Mãe é a dor pascal que manifesta a transformação da morte em solidariedade redentora do amor.

Assim, só aparentemente nos teríamos afastado do “Alegra-te” com o qual começa a história de Maria. Pois a alegria que lhe foi anunciada não é a alegria banal que se concreta no esquecimento do abismo do nosso ser, e por isso, está condenada a cair no vazio. É a verdadeira alegria que nos faz arriscar sair do amor para adentrar no interior ardente da santidade de Deus. Essa é a verdadeira alegria, que com a dor não se destrói, mas sim, chega a sua maturidade. Só a alegria que se mantem firme entre a dor e é mais forte que a dor é a verdadeira alegria.

 (1) “In Cant ‘s. 26, n. 5, PL 183, 906: “impassibilis est Deus, sed non incompassibilis”. Cf. H. de Lubac, “Geist aus der Geschichte. Das Schriftverständnis des Origens, Einsiedeln 1968 (original em francês 1950), p. 285. O capítulo inteiro “Veja Gott des Origens ‘, p. 269-289, é importante para este problema. H. U. von Balthasar tentou adjacente repetidamente esta questão da “dor de Deus” last in: ID 5, “The Last Act”, Madrid, 1997, p. 210-243).
(2) H. de Lubac, op. cit., p. 286.
(3) Por isso, é importante ver a nota 52 da encíclica do grande João Paulo II “Dives in Misericordia” (Sobre a misericórdia divina) Ver também nota 61.

Traduzido por Tiago Rodrigo da Silva – Apostolado Spiritus Paraclitus, do original em espanhol “COM-PASIÓN DE DIOS COM-PASIÓN DE MARÍA” da web site arvo.net.

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