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Contemplando pela internet as fotos da Capela Sistema, onde se dá a eleição dos Papas, pude ver que Michelangelo pintou muito o nu artístico masculino.

Enviado por Francisco
Religião: Evangélico
Estado: CE – Ceará

Corpo da mensagem: 

Prezados colaboradores do apostolado ”Spiritus Paraclitus”: Sou cristão evangélico, mas ultimamente tenho procurado estudar a doutrina católica, principalmente acompanhando os programas de TV e o site do prof. Felipe Aquino, e confesso que já desfiz muitos preconceitos que tinha contra a ICAR. Cheguei à conclusão que, embora sendo protestante, não posso negar a importância e a grande contribuição que a Igreja Católica deu para construção da civilização ocidental. Graça a ICAR, a Europa, e por extensão o mundo ocidental, não caiu sob o domínio da barbaridade islâmica.

A MINHA DÚVIDA É A SEGUINTE (talvez mais curiosidade do que dúvida): Contemplando pela internet as fotos da Capela Sistema, onde se dá a eleição dos Papas, pude ver que Michelangelo pintou muito o nu artístico masculino. Não sou artista e não entendo nada de arte, mas a obra de Michelangelo não seria arte sacrílega? E assim sendo, como os Papas e a Igreja (que tem uma forte moral) aceitaram isso num local considerado sagrado? OBS: Minha intenção não é fazer nenhuma pergunta ofensiva, mas apenas conhecer uma boa explicação para problemática exposta.

Aguardo resposta, PAX DOMINI.

Caro Francisco, Salve Maria, “Mãe de meu Senhor” (São Lucas I,43).

Agradecemos pela pergunta e pela oportunidade de esclarecimento. Este é um ponto importante, pois é, geralmente, a ponta da lança dos principais adversários da Igreja neste assunto. Utilizam não raramente o exemplo da Capela Sistina, que, como todos sabemos, tem pinturas artísticas, onde as pessoas aparecem nuas, e algumas vezes com os órgãos genitais expostos.
Antes de tudo, a história revela que realmente a pintura não zelou perfeitamente pelo pudor, ainda mais à época em que fora realizada. Nudez em fartura e outros detalhes foram discutidos nos anos posteriores ao término da obra. Por isso, São Pio V se encarregou de mandar cobrir os exageros, que chocavam e não harmonizavam-se com um lugar tão sagrado. Pediu, então, que Daniel de Volterra, artista discípulo de Michelangelo, recobrisse com vestes a nudez ofensiva pintada no teto da Capela.

Mas, creio, mais importante para o entendimento é ter a consciência de qual é a dimensão do decoro na arte. Resumidamente, o que definirá se uma obra é maliciosa ou que foge aos bons costumes é o papel que a nudez ali exposta desempenha em relação ao valor da pessoa. O catolicismo, ao contrário do gnosticismo, uma das mais obstinadas heresias a ameaçar a doutrina cristã, valoriza o corpo humano como criação de Deus. O puritanismo é um dado presente em certas ramificações protestantes.

Para melhor juízo, recomendo que leia a série completa de catequeses do Papa João Paulo II sobre a teologia do corpo. Limitar-me-ei ao assunto:

“No decurso das várias épocas, começando da antiguidade — e sobretudo no grande período da arte clássica grega — há obras de arte, cujo tema é o corpo humano na sua nudez, e cuja contemplação consente concentrarmo-nos, em certo sentido, na verdade inteira do homem, na dignidade e na beleza — também a ‘suprassensual’ — da sua masculinidade e feminilidade. Estas obras trazem em si, quase oculto, um elemento de sublimação, que leva o espectador, através do corpo, ao inteiro mistério pessoal do homem. Em contacto com tais obras, em que não nos sentimos determinados pelo seu conteúdo para ‘olhar desejando’, de que fala o Sermão da Montanha, aprendemos em certo sentido aquele significado esponsal do corpo, que é o correspondente e a medida da ‘pureza de coração’. Mas, há também obras de arte, e porventura ainda mais vezes reproduções, que provocam objeção na esfera da sensibilidade pessoal do homem — não por motivo do seu objeto, pois o corpo humano em si mesmo tem sempre uma sua inalienável dignidade — mas por motivo da qualidade ou do modo da sua reprodução, figuração e representação artística. Sobre aquele modo e aquela qualidade podem decidir os vários coeficientes da obra ou da reprodução, como também múltiplas circunstâncias, muitas vezes de natureza mais técnica do que artística.”
(Papa João Paulo II, Responsabilidade ética do artista ao tratar o tema do corpo humano, Audiência Geral de 6 de maio de 1981)

E, para continuar, mais uma citação, agora do renomado teólogo Pe. Dr. Miguel Ángel Fuentes, respondendo sobre a diferença entre o nu nas artes:

“Certamente, há uma grande diferença entre as artes que ‘representam’ (pintura, escultura) e as que ‘reproduzem’ (fotografia, cinema). As primeiras têm a faculdade de ‘sublimar’, ‘transfigurar’ o corpo. De alguma maneira, podem espiritualizar e fazer prevalecer na representação (e, portanto, aos olhos de quem vê) o aspecto estético, a beleza, a verdade do corpo humano. As segundas “reproduzem” o corpo vivo e, portanto, estão mais imediatamente ligadas à experiência do homem (experiência ferida pela concupiscência).”

O que podemos absorver disso tudo?

Primeiramente, que um corpo nu não é ruim; porém, pela concupiscência, consequência do pecado original, uma imagem mais detalhada ou feita com o propósito de excitar os sentidos, como reproduzir o corpo vivo de uma pessoa, pode gerar desejos desordenados, causar queda e ser obstáculo à pureza e castidade de quem vê. Em vez de elevar o observador a Deus, muitas vezes o induzem ao pecado.

O que dificilmente podem fazer as pinturas artísticas presentes na Capela Sistina.

A nudez não é em si uma coisa imoral: Deus, após formar o corpo humano e toda a obra, julgou tudo como muito bom (Gênesis I,31). A mudança vem com o pecado original, que introduz uma desordem na atividade humana. Surge a desonra, que na esteira do pecado é chamada de “luxúria”, que nada mais é que desordem no plano da sensualidade e sexualidade. Deixa-se de ter os olhos do amor universal para dar chances aos nublados olhos do egoísmo, vendo o outro como objeto.

Dito isso, podemos concluir que o Cristianismo não impugna logo de cara a representação do corpo humano despido, mas recomenda ao artista bem intencionado que suas obras não sejam entregues a um público a quem falta a maturidade ou o senso artístico necessário para apreciar e interpretar o verdadeiro valor que querem transmitir. Mesmo porque o conceito de imagem obscena é um conceito objetivo, ou seja, não pode ser julgado de acordo com as disposições subjetivas de cada um, mas pelo conteúdo da própria imagem. Querer relativizar isso é separar a arte da moral, que, embora distinta, não pode ser autônoma, sob pena de tomar qualquer impudência como coisa “bela” e admirável, por exemplo, o que é inadmissível para cristãos.

De fato, é isso que muitas vezes tem acontecido desde o Renascimento. A emancipação da verdade, da bondade e da moral acabaram por considerar o disforme como bonito, o aleivoso como coisa apreciável, o maldoso como “interessante”… E isso acontece com todas as obras de arte cujo espírito artístico não se prende mais aos ditames da moral objetiva. A beleza pode até estar lá, mas a bondade da obra fica por um fio. Por isso, o Papa Bento XVI, em uma mensagem enviada ao presidente do Conselho Pontifício para a Cultura em 2008, disse que “a beleza sem verdade nem bondade é só aparência vazia”. Do que compreendemos que: Sim!, a bela arte sempre será uma via para chegar a Deus.

“Ué, mas Michelangelo é renascentista”, argumenta o leitor.

Exatamente. E consequentemente as pinturas na Capela Sistina receberam alguma influência do estilo. E por isso a necessidade de determinados afrescos serem retocados, como comentado no início. Mas é arriscado dizer que a obra de Michelangelo é uma completa ausência de bondade e verdade. Julgue você mesmo.

Contudo, é preciso cuidado na sentença. Compor uma imagem declaradamente de aspecto indecente é sempre pecado, pois a intencionalidade supõe uma redução do corpo a objeto de entretimento, para a satisfação da luxúria, que atenta contra a dignidade do ser humano. Não se pode dizer isso da Capela Sistina. Por outro lado, os problemas não estão apenas na nudez da obra, mas na disposição do espectador em conceber uma mensagem sobre a imaginação.

Observar pinturas como a dessa majestosa Capela é pecado apenas para aqueles que o fazem com má intenção ou estão em risco de consequências desordenadas. A nudez em si, portanto, não é condenável, tudo dependerá das circunstâncias.

Esperando tê-lo atendido.

In Corde Iesu et Mariae,
Emerson Silva

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