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Da ilusão de exclusão da fé pela razão

O que vejo em debates “intelectuais” cotidianamente é o total desprezo da religião, o menosprezo à fé em troca de um cientificismo que atinge vários estudantes no meio acadêmico. Talvez a razão, por limitar-se a si mesma, oferece uma posição intelectual totalmente cômoda em relação à sua crença. Como Kant diz, nossa razão é preenchida apenas pelo meio empírico. No campo do conhecimento, somos limitados ao que vemos e ao que sentimos, ouvimos; estabelecer uma posição totalmente isenta de questionamentos metafísicos, basear-se apenas na ciência, pode não chegar a ser um “tiro no pé”, mas com certeza não “preenche” todos os espaços que há em nossos questionamentos. Farei uma breve reflexão sobre estas questões e tentarei fundamentá-las da melhor forma possível: como a razão não basta ao homem e como o Dom da Fé nos guia, não para uma total gratificação intelectual, mas para uma certeza de que podemos confiar num caminho seguro para o Conhecimento.

Como já relatei nas redes sociais, um dia estava assistindo um programa do History Channel, canal fechado de televisão a cabo, que se chama “Decifrando Milagres”… Os caras ofereciam “explicações racionais” para certos acontecimentos “sobrenaturais” que ocorriam ao redor do mundo, e como em todo programa fajuto, o final não tem uma conclusão propriamente dita, sempre deixam aquela dúvida no ar do tipo “acredite se quiser” ou “há explicações científicas que ‘podem’ desmascarar isto, mas é você quem sabe…”. Pra mim isso não passa de um positivismo totalmente furado, onde o seu título tão promissor não cumpre nenhuma de suas promessas estabelecidas. O programa não se sustenta, ele oferece um produto que nunca poderá entregar… Para seguir uma investigação mais rígida, devemos chamá-lo de “Decifrando o ‘deciframento’ de milagres”, pois nem sempre a razão é tão confiável.

E por que isso ocorre? Será que tudo o que acontece em nosso meio pode ser explicado de uma forma racional ? Vejam, não estou querendo dizer que não devemos procurar respostas para nossos questionamentos, muito menos propor uma posição de inércia onde respondemos que tudo é inexplicável. O homem, principalmente pelo o que vejo hoje em dia, está cheio de uma “arrogância filosófica”, como bem pontua nosso Beato João Paulo II na Encíclica Fides et Ratio <<Historicamente isto gerou muitas vezes a tentação de identificar uma única corrente com o pensamento filosófico inteiro. Mas, nestes casos, é claro que entra em jogo certa “soberba filosófica”, que pretende arvorar em leitura universal a própria perspectiva e visão imperfeita>>.

O arrogante pretende transcender os limites da razão, ou seja, julgar de forma irracional a fé como se a mesma fosse produto da própria razão. Nisto ele se engana, se joga num poço sem fundo e se agarra à ideia de que não existe nada além do que a razão pode compreender, confia cegamente na ciência como solução genérica; e nos casos que a mesma não basta, idealiza que um dia ela poderá responder o que hoje não é respondido racionalmente. Quando olha pra fora do poço, a luz da Verdade faz doer sua visão, e pela sua ignorância, se recolhe ainda mais, praguejando. O que nos resta a fazer é refletir sobre a importância da fé no próprio caminho do conhecimento e mostrar a realidade por trás desta ilusão de que o homem basta a si mesmo.

Como partidário de uma filosofia existencial “negativa”, derivada de Kierkegaard, não pretendo mostrar que você DEVE acreditar em algo sobrenatural; como Soren diz, ou você acredita na Ressurreição de Jesus Cristo, ou não. Não preciso que as pessoas se convertam para o cristianismo, é uma questão muito pessoal para ser discutida e analisada de forma universal. Porém, como Católicos, devemos acreditar no Verbo que Se fez Carne, morreu, e Ressuscitou por nós, e esta Verdade, Inspirada nas Sagradas Escrituras é de extrema importância para seguirmos este caminho do Conhecimento.

Aproveitando o lançamento da primeira Encíclica de nosso Papa Francisco, saliento que a fé, por si própria, é concreta e isenta de erros pois <<Uma vez que Deus é fiável, é razoável ter fé n’Ele>>. Mas ao mesmo tempo, João Paulo II também diz que a razão ajuda a compreender a fé pela suma contribuição do existencialismo filosófico… Com efeito, fé e razão estão consolidadas por completo, pois, tendo a Verdade Revelada por Deus como base, nossa razão tenderá para a própria Verdade.

Mesmo neste âmbito, fé e razão são coisas bem distintas. O mistério entendido pela crença, como bem explica Bento XVI na Constituição Dei Verbum do Concílio Vaticano II, <<é excesso de significado, de verdade. Se, ao olhar para o mistério, a razão vê o escuro, não é porque não haja luz no mistério, mas sim porque há luz demais. Assim como, quando os olhos de um homem se dirigem diretamente para o sol, eles veem apenas escuridão. Mas quem diria que o sol não é brilhante? Quem diria que ele não é a fonte da luz? A fé nos permite olhar para o “sol”, Deus, porque é o acolhimento da sua revelação na história e, por assim dizer, recebe realmente todo o brilho do mistério de Deus, reconhecendo o grande milagre: Deus veio até o homem, se ofereceu ao seu conhecimento, condescendendo à limitação natural da razão humana>>.

Este é o objeto da fé: o mistério, o acaso, ou a Providência. Como diz o Sumo Pontífice atual, bem como João Paulo II, ter fé é ouvir pacientemente, é aceitar o Mistério que nos guia para um fim objetivo que por nossa limitação não compreendemos, e isso incomoda o homem, me incomoda, essa é a graça da coisa, não saber o porquê de estarmos aqui e pra onde vamos. Este ponto de interrogação intriga, coça, mas se queremos entender, precisamos mais do que a razão, precisamos da Fé. Credo ut intelligas.

A rejeição de Kant da razão como meio universal do conhecimento despertou em mim esta visão mais ampla: <<Pensamentos sem conteúdo, sublinha Kant, seriam vazios; intuições sem conceito seriam cegas. Por isso, a razão não deve, em caso algum, ultrapassar o campo da experiência. Só há conhecimento possível daquilo que se oferece nesse campo, ou seja, dos “fenômenos”>>.  Dado isto, como a razão, por si mesma, pode julgar o Transcendental se ela se limita às próprias experiências fenomenológicas?

Se criticam a Bíblia por ela “justificar-se a si mesma”, não é por que  conhecem toda a história de sua canonização, mas simplesmente por não entenderem a sua importância e toda a sua complexidade, por não admirarem – simplesmente pela falta de fé – o tamanho e a intensidade adimensionais da Inspiração Divina, parafraseando Bento XVI, com seu excesso de sentido.

Portanto, não adianta tentar questionar a fé usando da simples razão, você pode elaborar o argumento mais forte do mundo contra a existência de Deus, mas nunca poderá mostrar isso racionalmente, simplesmente porque a fé excede a razão. A mesma coisa se dá com o teísmo apologético, você pode criar o maior motivo do mundo para se acreditar em Deus, mas nunca poderá demonstrar isso, a razão alimenta-se da experiência.

Citando Wittgenstein, se o mundo tem um sentido, esse sentido não deve se encontrar nele, mas fora dele. Assim, se existe um “sentido para a vida”, ele não pode ser representado. O mesmo acontece com a estética, bem como a religião, o misticismo; pois são transcendentais e visam um plano através do Bem e do Belo, condições “fora” deste mundo.

Com efeito, a fé, como Luz, pode ser descrita como uma Representação da Vontade Divina onde o homem encontra a si mesmo e justifica sua busca pela Verdade usufruindo da razão. Se o homem acha que o único meio seguro para o conhecimento é o próprio intelecto, então se esquece do motivo que o fez cair perante a serpente na Aurora dos tempos: a utilização arrogante da sua razão.

Por Caio Vinícius Santos

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