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Amor e Verdade

“A Verdade unida ao amor compreendido corretamente, é o valor número um.” – Santo Papa Emérito BENTO XVI

Em tempos de profundos impasses ético-morais e de uma crise jamais vista chamada relativismo que, vem afundando todas nossas convicções objetivas a respeito de nossa existência e de seu significado mais profundo, que vem destruindo a Igreja por dentro e desmoralizando o Sagrado diante dos nossos olhos vemos a oportunidade de mais uma vez fazer a verdadeira contextualização do que se anuncia, de como se anuncia e porque se anuncia, falamos a respeito da Verdade. O momento é de recuperarmos a motivadora esperança do anúncio ainda que por esse mesmo anúncio sejamos sacrificados.

1 O AMOR

O que é o Verdadeiro Amor? O que significa? Como direcioná-lo?

Questões tão fundamentais como essas tem de ser e estar sempre em nossas lembranças como fontes asseguradoras de nossas convicções acerca do que oferecer e do não esperar nada em troca, da dinâmica de buscar a Deus acima de tudo e todos. A isso o Santo Padre BENTO XVI nos relembra em sua Encíclica sobre o amor cristão, nos mostrando a fonte de todo esse misterioso entendimento e compreensão:

Na sua morte de cruz, cumpre-se aquele virar-se de Deus contra Si próprio, com o qual Ele Se entrega para levantar o homem e salvá-lo — o amor na sua forma mais radical. O olhar fixo no lado trespassado de Cristo, de que fala João (cf. 19, 37), compreende o que serviu de ponto de partida a esta Carta Encíclica: « Deus é amor » (1 Jo 4, 8). É lá que esta verdade pode ser contemplada. E começando de lá, pretende-se agora definir em que consiste o amor. A partir daquele olhar, o cristão encontra o caminho do seu viver e amar.” – Deus Caritas Est, §12

Nisto consiste toda misteriosa e profunda dinâmica do Amor verdadeiro: A vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Daí nos deriva toda a plenitude de amar revelada plenamente em Sua vida e que nos foi e nos é transmitida pela fidelidade da Igreja Apostólica, a Igreja de Cristo, A Santa Igreja Católica que nos expõe tais ensinamentos através da correta interpretação das Santas Escrituras, pelo seu Sagrado Magistério e sua Santa Tradição. Nosso maior exemplo e referencial, nosso único modelo perfeito de Amor e do Amor é Nosso Senhor: “O verdadeiro amor esta em obedecer e crer no que se ama.” – Santo Agostinho

2 A VERDADE

Segundo Aristóteles a verdade pode ser definida como: “Negar aquilo que é, e afirmar aquilo que não é, é falso, enquanto afirmar o que é e negar o que não é, é a verdade.” (Met.,IV,7,1011b 26 e segs.;v.V,29.1024b 25). Vemos numa simples síntese uma bela definição do que vem a ser a lógica da Verdade, mas sabemos que o mesmo nos levaria a uma profunda reflexão entre dúvidas e respostas o que agora ficaria inviável pelo fato de não ser a intenção do referido artigo, fiquemos no momento com esta reflexão. Sabemos porém que, para nós cristãos, a Verdade é uma pessoa, é um ser: Jesus respondeu-lhe: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim.” – (João 14, 1-6)

Vemos então que nosso único referencial também é Nosso Senhor Jesus Cristo fundamentado em sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição. Dessa forma podemos afirmar que a Igreja a que ele deu o Magistério – A Santa Igreja Católica – possui então o múnus de multiplicar a Verdade pelo seu ensinamento fiel à Fé de sempre por possuir em sua plenitude a Verdade que é o próprio Cristo. Nisto também consiste uma importantíssima reflexão:

  • A verdade não depende do que cada um acha, mas depende do objeto, A Verdade é objetiva: Nesta afirmação vemos que a opinião pessoal (o subjetivismo) de nada vale contra a Verdade revelada por Nosso Senhor e ensinada pelo Santo Magistério da Igreja bem como por seu múnus Pastoral. A verdade não depende do que achamos e nem do que a maioria acha. A maioria ficou contra Cristo, nem por isso Barrabás se tornou inocente e Cristo culpado.

Após essas duas pequenas explanações acerca do Amor e da Verdade podemos então rebater algumas objeções quando defende-se a proclamação da Verdade ainda que isso cause dores que de vez em outra são necessárias.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

1 – QUESTÃO: Qual Verdade devemos por obrigação proclamar?

A Verdade que é Cristo, a Verdade da Igreja que infalivelmente nos é revelada por ação do Espírito Santo que a assiste desde todo o sempre, aquilo que está contido em suas colunas: Santa Tradição, Santo Magistério e nas Santas Escrituras. A essa Verdade devemos nossa obediência, reverência e fidelidade.

2 – QUESTÃO: A quem Cristo, Nosso Senhor, confiou-se como Verdade fundamental e plena e que por consequência tem o múnus de ensinar e nos direcionar a respeito de tais evidências sobre a Verdade?

À Santa e indefectível Igreja Católica, a ela e somente a ela, foi confiado o múnus de nos ensinar a Verdade em seu sentido pleno e em todas as dimensões mensuráveis e imensuráveis(Cf. Mt 16, 16):

Cân. 747 – § 1. À Igreja, a quem Cristo Senhor confiou o depósito da fé, para que, com a assistência do Espírito Santo, ela guardasse santamente a verdade revelada, a perscrutasse mais profundamente, a anunciasse e expusesse fielmente, compete o dever e o direito nativo independente de qualquer poder humano, usando também de seus próprios meios de comunicação social, de pregar o Evangelho a todos os povos.

§ 2. Compete à Igreja anunciar sempre e por toda a parte os princípios morais, mesmo referentes à ordem social, e pronunciar-se a respeito de qualquer questão humana, enquanto o exigirem os direitos fundamentais da pessoa humana ou a salvação das almas. – Código de direito Canônico

Unido ao que a Igreja (Santo Padre o Papa e ao Colégio dos Bispos, quando a ele ligados) nos revela podemos ou não aderir aos que nossos líderes, sejam eles ligados ao clero ou não, nos ensinam a respeito da Verdade sobre questões fundamentais de nossa existência e tudo mais. A isso damos o exemplo de algumas situações atuais como o aborto, o uso de métodos anticoncepcionais e outros, sabemos que a Verdade defendida e anunciada pela Igreja é diferente, e muito diferente, da “verdade” anunciada e proclamada pela maioria nos dias atuais, mas nem por isso a Verdade muda ou se inclina as mentalidades ignorantes e egoístas de tais seres humanos:

Cân. 750 § 2. Deve-se ainda firmemente aceitar e acreditar também em tudo o que é proposto de maneira definitiva pelo magistério da Igreja em matéria de fé e costumes, isto é, tudo o que se requer para conservar santamente e expor fielmente o depósito da fé; opõe-se, portanto, à doutrina da Igreja católica quem rejeitar tais proposições consideradas definitivas. – Código de Direito Canônico

Na dúvida temos, por obrigação, recorrermos a Santa Igreja Católica e suas veneráveis e indefectíveis respostas e direcionamentos, ela que possui em sua plenitude à Verdade que é Cristo.

3 – QUESTÃO: Por que devemos defender e proclamar essa Verdade?

Por causa do conhecimento dela, após chegarmos ao conhecimento de tais revelações temos por obrigação proclamar dos telhados (Cf. Lc 12, 3) para que outros que estão nas trevas da ignorância do erro possam vir ao conhecimento da Verdade em sua plenitude, por isso o bem aventurado João Paulo II nos relembra em uma de suas Encíclicas o valor deste anúncio falando a respeito do jovem rico:

Se quisermos então penetrar no âmago da moral evangélica e identificar o seu conteúdo profundo e imutável, devemos procurar diligentemente o sentido da questão posta pelo jovem rico do Evangelho e, mais ainda, o sentido da resposta de Jesus, deixando- -nos guiar por Ele. De fato, Jesus, com delicado tato pedagógico, responde conduzindo o jovem quase pela mão, passo a passo, em direção à verdade plena.” – Encíclica Veritatis Splendor §8

Conduzir o quanto possamos e quantos possamos a tal caminho, o da Verdade, não só nos remete a caridade, mas a uma obrigação de cristãos, a omissão a isso é um pecado gravíssimo que nos direciona de maneira rápida e eficaz a perda de nossa dignidade e amizade divina, por isso os Santos nos ensinaram tais disposições:

“Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é negá-la.” – Santo Tomás de Aquino

“Que deseja a alma com mais veemência do que a verdade?” – Santo Agostinho

“Se o mundo for contra a verdade, então Atanásio será contra o mundo.” – Santo Anastácio

“Fomos enviados para curar os feridos, unir os que estão separados, mostrar a verdade aos que estão perdidos no erro.” – São Francisco de Assis

“Não se opor ao erro é aprová-lo e não defender a verdade é suprimi-la; com efeito, não denunciar o erro daqueles que praticam o pecado quando o podemos fazer não é pecado menor do que apoiá-los.” – (I Epístola do Papa São Félix III ao Bispo Acácio, de Constantinopla, de 483.)

Ainda na Encíclica citada acima do bem aventurado João Paulo II ele nos exorta:

“Se existe o direito de ser respeitado no próprio caminho na busca da Verdade, há ainda, antes, a obrigação moral grave, para cada um, de procurar a verdade e de aderir a ela, uma vez conhecida.” – João Paulo II, Encíclica Veritatis splendor

Fica então expressa dessa forma os motivos, talvez mais importantes, para difundir tal disciplina santificante e santificadora.

4 – QUESTÃO: A que custo devemos proclamar a Verdade?

A todo custo, ainda que isso cause desavenças, ainda que nos custe relacionamentos, ainda que nos custe a dignidade, ainda que nos custe status social, ainda que nos custe a própria vida… A Verdade de Cristo que, por consequência, é a da Igreja tem de prevalecer em todo momento e a qualquer custo:

“Ama a verdade, mostra-te como és, sem fingimentos, sem receios, sem respeito humano. Se a verdade te custa a perseguição, aceita-a; se te custa o tormento, suporta-o. E se, pela verdade, tivesses que sacrificar-te a ti mesmo e a tua vida, sê forte no sacrifício.” São José Moscati

“Quem diz a Verdade perde amizades.” – São Tomás de Aquino

“Chega sempre um momento na história em que quem se atreve a dizer que dois e dois são quatro é condenado à morte.” – A Peste, Albert Camus

É evidente que haverá situações em que dizer a Verdade para que sua luz ilumine as trevas da escuridão do erro de alguém ou de alguma situação acarretará em sacrifícios, por isso devemos sempre lembrar do nosso maior referencial, Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas há também nas Santas Escrituras testemunhas vivas de tais proclamações, é só recorrermos ao livros dos Atos dos Apóstolos e lembrarmos do primeiro mártir e padroeiro dos diáconos Santo Estévão que foi em meio aqueles que haviam assassinado o Mestre e desferiu sobre todos eles a Verdade sobre Cristo e sobre seus ensinamentos, o que posteriormente causou seu martírio (Cf. At 7).  

5 – QUESTÃO: A Ordem do Amor: A Verdade

Santo Agostinho nos mostra uma bela síntese acerca disso, quando nos demonstra a ordenação do Amor:

“Vive justa e santamente quem é perfeito avaliador das coisas. E quem as estima exatamente mantém amor ordenado. Dessa maneira, não ama o que não é digno de amor, nem deixa de amar o que merece ser amado. Nem dá primazia no amor àquilo que deve ser menos amado, nem ama com igual intensidade o que se deve amar menos ou mais, nem ama menos ou mais o que convém amar de forma idêntica. O pecador, contudo, enquanto pecador, não merece ser amado: mas todo homem, enquanto tal, deve ser amado por causa de Deus. Deus, porém, por si próprio é digno de amor. E já que Deus deve ser amado mais que todos os homens, cada um deve amar a Deus mais do que a si próprio.” A Doutrina Cristã, Livro I §28

Pode parecer duro, a primeiro instante, os pressupostos do anúncio e defesa da Verdade indo até a interpretação de que isto chegue a ser um ato odioso, ou seja, de desamor, mas é justamente o contrário, é um ato de Caridade, é um ato de extremo Amor dizer a Verdade, ensiná-la e proclamá-la a todo custo ainda que isso possa ferir sentimentos ou a dignidade humana o respeito humano não conta nesse momento. E isso nos leva a profundidade da questão aonde o Santo Padre Bento XVI soluciona a questão da objeção da parte de alguns que de forma alienada acham que o Amor esconde-se em uma espécie superficial e aliviada de adequar o anúncio da Verdade ao cúmulo de muitas vezes não dizê-la ou ensiná-la por causa de certo “respeito humano”, na sua Encíclica Caritas in Veritate o Santo Papa emérito nos ensina:

“Pela sua estreita ligação com a verdade, a caridade pode ser reconhecida como expressão autêntica de humanidade e como elemento de importância fundamental nas relações humanas, nomeadamente de natureza pública. Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida. A verdade é luz que dá sentido e valor à caridade. Esta luz é simultaneamente a luz da razão e a da fé, através das quais a inteligência chega à verdade natural e sobrenatural da caridade: identifica o seu significado de doação, acolhimento e comunhão. Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade; acaba prisioneiro das emoções e opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra abusada e adulterada chegando a significar o oposto do que é realmente. A verdade liberta a caridade dos estrangulamentos do emotivismo, que a despoja de conteúdos relacionais e sociais, e do fideísmo, que a priva de amplitude humana e universal. Na verdade, a caridade reflete a dimensão simultaneamente pessoal e pública da fé no Deus bíblico, que é conjuntamente « Agápe » e « Lógos »: Caridade e Verdade, Amor e Palavra.” – §3

Ora, vemos então que o sentimentalismo nos distancia muito da verdadeira essência do Amor, que é o mesmo que Caridade, nossa tendência de sempre de sempre preferir não dizer nada com medo de machucar os sentimentos do outro, com medo de não nos aceitarem, com medo de tantas e tantas situações nos acovardam quando a necessidade dos tempos atuais é esta Verdade, a Verdade que é Cristo, a Verdade da Igreja seja anunciada ao mundo inteiro leve o custo que for. Bento XVI continua:

“Porque repleta de verdade, a caridade pode ser compreendida pelo homem na sua riqueza de valores, partilhada e comunicada. Com efeito, a verdade é « lógos » que cria « diá-logos » e, consequentemente, comunicação e comunhão. A verdade, fazendo sair os homens das opiniões e sensações subjetivas, permite-lhes ultrapassar determinações culturais e históricas para se encontrarem na avaliação do valor e substância das coisas. A verdade abre e une as inteligências no lógos do amor: tal é o anúncio e o testemunho cristão da caridade. No atual contexto social e cultural, em que aparece generalizada a tendência de relativizar a verdade, viver a caridade na verdade leva a compreender que a adesão aos valores do cristianismo é um elemento útil e mesmo indispensável para a construção duma boa sociedade e dum verdadeiro desenvolvimento humano integral. Um cristianismo de caridade sem verdade pode ser facilmente confundido com uma reserva de bons sentimentos, úteis para a convivência social mas marginais. Deste modo, deixaria de haver verdadeira e propriamente lugar para Deus no mundo. Sem a verdade, a caridade acaba confinada num âmbito restrito e carecido de relações; fica excluída dos projetos e processos de construção dum desenvolvimento humano de alcance universal, no diálogo entre o saber e a realização prática.” – §4

Pode-se então perceber que sem a Verdade o Amor não tem sentido pleno, mas fica esfacelado causando prejuízos internos, impossibilitando relações sólidas e distorcendo a essência de Deus que é o Amor em sua totalidade. Podemos resumir toda esta misteriosa e profunda questão num belo pensamento e reflexão de um dos gigantes da Igreja:

“Devemos amar o nosso próximo, ou porque ele é bom, ou para que ele se torne bom.” – Santo Agostinho

O Amor então torna-se na Verdade o encontro número um para uma correta aprimoração com a vontade de Deus.

Conclui-se então que o Amor e a Verdade estão em um e a mesma coisa, que ambos são de uma mesma e inseparável substância, que não são ou estão isolados, o Amor e a Verdade estão em uma mesma pessoa: Nosso Senhor Jesus Cristo.

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