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Seres de outros planetas e fé em Deus

No meu primeiro emprego, trabalhava como redator em um jornal. Daquela manhã de 21 de julho de 1969, recordo-me bem dos olhos inchados de todos, por causa do sono. Ninguém havia dormido. Todo mundo havia passado a noite em claro para ver o que significava de verdade um verbo até então apenas teórico: “to moon-land”, “alunizar”. A lembrança desses dias nos faz voltar o olhar para o céu: para a lua — agora com alguns resíduos espalhados pela superfície (o lixo sempre acompanha a presença humana) — mas também além, até a imensidão do espaço.

Sobre esse tema, a mais surpreendente entre todas as reflexões, talvez a mais profunda, considero a de André Frossard, o homem que nunca se esquece que “Deus existe”, pela simples razão que — tal como repete insistentemente há meio século — “eu o encontrei”.

Ouçam-no: “A maior descoberta do século XX é que não havia nada para descobrir. Quero dizer que todas as nossas explorações no universo mostram que está vazio, inabitado. O homem está só. É impressionante: esta enorme montagem teatral, com milhões de projetores, para um único ator representar a comédia, da qual não conhece o primeiro ato e nem o último.”

O que se deduz disso? Frossard responde: “Que os antigos, Aristóteles, Ptolomeu, os teólogos do Papa, tinham razão do ponto de vista filosófico, embora não a tinham do ponto de vista físico. Sim, tinha razão o sistema de Ptolomeu e não o de Copérnico e Galileu: é verdade, no centro do universo está o homem, a Terra. Era uma astronomia equivocada, mas uma filosofia correta, que a ciência de hoje em dia não faz mais do que confirmar. Então a Igreja teve razão em condenar Galileu? Digamos que um erro judicial puniu um erro metafísico. A partir de Galileu, tivemos o mau costume de nos considerar como insignificantes vermes sobre a crosta de um pequeno queijo. Não se podia admitir um Deus que se encarnou para sofrer por causa da imensa dignidade do homem. Mas agora, a ciência moderna, nascida com Galileu, parece confirmar justamente isso.”

Nem nós, nem nossos descendentes, no prazo de uma vida inteira, poderemos ir além do sistema solar: só poderiam chegar vivos netos e bisnetos de casais que procriassem durante a viagem. Ele está angustiantemente vazio — agora sabemos com segurança, graças às sondas. Mas lá onde não pode chegar o corpo pode chegar o ouvido: desde 1931 os radioastrônomos estão em alerta, mas nunca captaram sinais de outros seres inteligentes. Conseguirão no futuro? Ninguém pode descartá-lo, mas é evidente que não saberemos o que fazer com eles. Esses sinais nos chegariam de civilizações que os teriam emitido há alguns milhares ou milhões de anos e talvez no momento de recebê-los, sabe-se lá, nós já teríamos desaparecido. Ou a nossa “resposta” demoraria o mesmo intervalo de tempo para chegar.

Fica assim confirmada a decepcionante conclusão: por tudo que sabemos até agora, não há mais ninguém. E se houvesse, o diálogo seria impossível. Por isso, tornam-se inaceitáveis a priori os sonhos sedutores dos “estudiosos de OVNIs”, dos muitos que creem nos “discos voadores”: ainda que dispusessem de meios de transporte tão rápidos quanto a luz (ir mais rápido, sabe-se, é fisicamente impossível) estes “alienígenas” não poderiam ir e vir, ou tampouco poderiam comunicar-se com sua “base” remota.

 

Nada a temer. A hipótese de que existem outros seres inteligentes no universo não é incompatível com a fé cristã. Na foto, cúpula de um dos telescópios do Observatório Vaticano.

Realmente a fé não tinha (e nem tem) nada a temer ante o eventual descobrimento de outros seres inteligentes. Na vila do Papa em Castelgandolfo, eu caminhava pela varanda com vistas para o lago Albano e dominavam a paisagem duas cúpulas nas quais se avistavam grandes telescópios. Embaixo, umas letras em bronze exortavam: Deum creatorem venite adoremus (Venham adorar o Deus criador). Eu estava ali para uma entrevista com o padre Georges V. Coyne, jesuíta, americano de Baltimore, astrônomo de fama mundial, diretor do glorioso Observatório Vaticano, o observatório astronômico do Papa: o mais antigo do mundo, em funcionamento desde 1579.

O padre Coyne me confirmava a sua convicção: poderia haver vida em outro lugar, mas é uma possibilidade, não uma certeza. E eu o recordava (surpreendeu-se, disse que nunca havia pensado nisso) que — se um dia descobríssemos “outros” no universo — talvez servisse para jogar um pouco de luz sobre a misteriosa palavra de Jesus: “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor ”. (João 10, 16)

A fé não tinha e nem tem nada a temer. Ou melhor, se alegraria em comprovar a fecundidade de um Deus Criador por puro amor.

Apesar disso, um certo cientificismo ateu tem buscado outros mundos habitados para encontrar apoio às suas teses de que a vida pode e deve desenvolver-se por acaso, por probabilidade, nos milhares e milhares de corpos celestes do universo. Para muitos teria sido uma satisfação poder falar de outros “caldos primordiais” que — com o tempo e por meio dos cruzamentos — teriam produzido seres capazes de lançar transmissões radiofônicas no espaço. Se assim fosse, o homem teria deixado de ser um mistério tão escandaloso por ser único: quereriam nos rebaixar, pois parece intolerável que tudo existe só para nós.

Mas assim é: em sessenta anos de escutas não captamos a voz de nenhum outro “ser”; ao contrário, nós escutamos o que parece ser a voz do Ser. O extraordinário descobrimento da radioastronomia é que o universo tem “som”, as galáxias têm uma “voz” que recentemente foi decodificada e gravada em uma fita, dando vida a uma impressionante sinfonia. Segundo Jó (38, 7), as estrelas cantam em coro; segundo Isaías (44, 23) os Céus têm que cantar; segundo Zacarias (9, 14) é Deus mesmo quem toca; enquanto que para o Salmista (148, 3 e seguintes) o sol, a lua, os astros reluzentes, o firmamento, louvam ao Senhor.

Metáforas, poderia-se dizer, igual a centenas de outras que se poderia escolher tanto do Antigo quanto do Novo Testamento (que é aquele som da “criação inteira”, que, segundo Paulo, mais do que produzir “som” ou “cantar”, “geme”? Rom. 8, 22). Mas metáforas que agora encontram singular e concreta correspondência nas gravações dos radioastrônomos.

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