Relíquias e seus guardiões

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Foto  Há quase vinte anos, em uma visita a um dos maiores museus londrinos, uma peça do acervo prendeu minha atenção. O imponente objeto dourado, com preciosos ornamentos, servia de suporte a dois fragmentos de madeira. Formavam uma cruz. Sua origem remontava a uma das relíquias mais cobiçadas da Cristandade. E sua dimensão histórica era colossal.

  Nos dias que se seguiram ao passeio, vieram à tona lembranças de minha história pessoal há muito engavetadas. Uma delas, particularmente, persistente: a imagem do crucifixo pendurado acima do altar na igreja de minha infância. A reminiscência se transformou em chamado. O chamado para retornar a um velho caminho.

  Desde que meus olhos se abriram para a dimensão sobrenatural das relíquias, passei a dedicar parte de meu tempo – e de minhas viagens – ao seu estudo. Em minha busca, conheci herdeiros de uma missão sagrada. E milenar. Alguns dos guardiões de relíquias eram descendentes de antigas linhagens da nobreza europeia e zelavam pelo espólio familiar. Um dos casos mais notórios era a custódia do Santo Sudário pela dinastia de Savoia até 1983, quando a relíquia foi doada ao Vaticano.

  A maior parte dos guardiões que conheci, no entanto, não recebera o ofício de antepassados notáveis. Mas fazia parte de uma tradição que remontava aos primórdios do cristianismo e era valiosa, sobretudo, nos momentos mais sombrios. Momentos em que os “tesouros celestes” poderiam ter sido destruídos e profanados. Para citar apenas alguns episódios: as invasões bárbaras ao Império Romano, as guerras de religião, a Revolução Francesa e o comunismo. Durante as Guerras Napoleônicas e a Guerra Civil espanhola, por exemplo, o Santo Graal foi salvo por pessoas do povo recrutadas pela divina Providência.

  No século XXI, as relíquias enfrentam outros inimigos, alguns bastante sutis, como a crescente secularização e o desprestígio no seio da Igreja Católica, legítima proprietária de todas as relíquias cristãs. Nos últimos tempos, centenas de templos foram despojados de suas joias. Milhares delas tornaram-se alvo da cobiça de colecionadores de antiguidades, que em nada se assemelham aos autênticos guardiões. E várias passaram a fazer parte do acervo de importantes museus. A despeito do discurso sobre a preservação do patrimônio da humanidade, expor relíquias em museus, incluindo os sacros, onde não podem ser devidamente veneradas, é reduzi-las à dimensão histórica.

  Em certo momento da jornada, um dos maiores guardiões do mundo cruzou meu caminho. Carlos Evaristo transformou a missão sagrada em apostolado internacional, abençoado pela Irmã Lúcia, uma das três videntes de Fátima, e por Madre Teresa de Calcutá, canonizada em setembro do ano passado. Mais do que resgatar e proteger relíquias, ele conseguiu congregar milhares de guardiões, de várias procedências, em uma única associação, a International Crusade for Holy Relics (ICHR), e iniciou uma bem sucedida campanha para restaurar o apropriado culto às relíquias. Também fundou o prestigiado Apostolado das Relíquias, responsável pelo estudo científico do tesouro sacro e pela autenticação de relíquias, cujo trabalho é requisitado até pelos Museus do Vaticano. Não poderia ter desejado melhor mestre. E dos mais generosos. Por suas mãos, tornei-me membro do Apostolado e fui investido cavaleiro guardião do ICHR. Dois anos depois, recebi de Dom Odilo Pedro Scherer, cardeal e arcebispo de São Paulo, a tarefa de promover a reta devoção às relíquias na maior Arquidiocese do País.

  Há algumas semanas, fui questionado sobre a importância de um guardião de relíquias em pleno século XXI. Prestes a dar uma resposta enfatizando os aspectos históricos, lembrei-me dos fragmentos de madeira no museu londrino. Em minha segunda visita, poucos dias após aquela primeira, a relíquia reluzia mais que o ouro ao seu redor. E apontava para algo além deste mundo. Sua história atravessava quase dois milênios e se cruzava com a de milhões de pessoas. E eu estava entre elas. Abri um sorriso e respondi à pergunta insidiosa: “Ajudar as pessoas a espiar o Paraíso”.

 Fábio Tucci Farah é membro do Apostolado de Relíquias, cavaleiro guardião de relíquias da International Crusade for Holy Relics (ICHR) – e seu delegado no Brasil –, especialista em relíquias da Arquidiocese de São Paulo e fundador e diretor geral do Departamento de Arqueologia Sacra da Academia Brasileira de Hagiologia (ABRHAGI)