São Policarpo e o mais precioso dos tesouros

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Por Carlos Evaristo e Fábio Tucci Farah

Era 14 de março de 2013, quase dez da noite. O abade estava hospitalizado, tornando a vigilância do Mosteiro de Panagia Ambelakiotissa, na ilha grega de Nafpaktos, menor do que o habitual. Sem dificuldade, um imigrante da Albânia conseguiu invadi-lo por uma janela. Após espalhar digitais pelo santuário, ele colocou as mãos em um tesouro que chegara ali há mais de meio milênio. Assim que o furto foi anunciado, centenas de pessoas tiveram a sensação de que o ladrão estrangeiro invadira suas próprias casas, furtando-lhes algo mais precioso do que o dinheiro lhes permitia desfrutar. Para entender a grandiosidade do tesouro e a gravidade do crime é preciso voltar quase 1900 anos.

Dois anos após o martírio de São Pedro e São Paulo, vinha ao mundo, em Esmirna – atual Turquia –, Policarpo. Com a família convertida à nova religião, ele teve a sorte de conhecer pessoas que “viram o Senhor” e, segundo a Tradição, tornou-se discípulo de São João Evangelista. Pelas mãos do Discípulo Amado, foi sagrado bispo e redigiu diversas cartas para fortalecer a fé do crescente rebanho. Escrita provavelmente entre 110 e 140 depois de Cristo, a Epístola aos Filipenses é o único texto de sua autoria que sobreviveu até os nossos dias.

Considerado um dos principais Padres Apostólicos – santos que tiveram contato direto com os apóstolos –, São Policarpo deixou à Igreja um precioso legado, sobretudo, nos derradeiros momentos de sua vida. E uma herança inestimável que transcendeu suas exortações. Em fevereiro de 155 (ou 156), ele foi arrastado ao estádio de Esmirna. Coube ao procônsul romano a tentativa de fazê-lo abjurar: “Faze o juramento e eu te libertarei. Insulta o Cristo”. Policarpo respondeu: “Há oitenta e seis anos que O sirvo e nunca me fez mal algum. Como poderia blasfemar contra meu Rei e Salvador?”. Os eventos que se seguiram ao diálogo foram minuciosamente descritos em uma carta endereçada à “Igreja de Deus, estabelecida em Esmirna, à Igreja de Deus estabelecida em Filomélia e a todas as comunidades da Igreja santa e universal”. O que faz de um documento de pouco mais de duas mil e quinhentas palavras – em sua tradução para o Português – um dos mais importantes da Igreja Primitiva?

O que se tornou conhecido como Martyrium Polycarpi é o primeiro texto cristão que descreve o martírio e nomeia como mártir o cristão que entrega a vida pela fé. Após se despir calmamente e fazer uma prece, Policarpo foi envolvido pelas chamas. Segundo o relato, a morte chegou apenas quando o algoz transpassou-lhe com um punhal. O valor histórico da epístola – elaborada por Marcião e escrita por Evaristo pouco tempo após os eventos no estádio de Esmirna – é inquestionável. Ela revela crenças fundamentais de nossos antepassados na Fé e responde, assertivamente, algumas críticas dos ímpios da época: “Ao Cristo adoramos como Filho de Deus, aos mártires amamos como discípulos e imitadores do Senhor, dignos da nossa veneração pela fidelidade inquebrantável ao seu Rei e Mestre. Oxalá, pudéssemos unir-nos a  eles e tornar-nos seus condiscípulos”. A resposta continua atual e serve para solapar os maliciosos argumentos protestantes contra o culto aos santos que ignoram a distinção entre latria e dulia, entre adoração e veneração.

Leia o texto completo do Martírio de São Policarpo: http://cleofas.com.br/martirio-de-sao-policarpo-156/

O martírio de Policarpo e o desejo subsequente de seus discípulos também nos brindam com um dos maiores sacramentais do catolicismo – a veneração às Sagradas Relíquias – ao mesmo tempo em que apontam, inequivocadamente, o Inimigo por trás de tantos embustes e sacrilégios ao longo da história: “o espírito maligno, invejoso, perverso adversário do povo dos justos… fez tudo que pôde para impedir que seu corpo fosse levado por nós, embora muitos desejassem possuir seus santos despojos”.

Obedecendo ao costume pagão, o corpo de São Policarpo foi queimado, mas não ficou totalmente destruído. Nem os inimigos de carne e osso nem os demônios foram capazes de impedir os discípulos de São Policarpo de colocarem as mãos no mais precioso dos tesouros. Conforme o Martyrium Polycarpi: “Deste modo pudemos mais tarde recolher seus restos, mais preciosos do que pedras raras e mais valiosos do que ouro, para depositá-los em lugar conveniente, onde todos, quando possível, nos reuniremos com a ajuda do Senhor, para celebrar com alegria e júbilo o dia do seu nascimento pelo martírio…”. A epístola inaugurou a fundamentação da veneração às Sagradas Relíquias no Magistério e na Tradição.
Martirizado décadas antes do companheiro com quem se correspondeu inúmeras vezes, Santo Inácio de Antioquia teve o relato de seu martírio escrito tardiamente. Embora a precisão histórica possa ser contestada, o texto traz uma informação interessante sobre o culto às relíquias nos primórdios do cristianismo. Após ser dilacerado e devorado pelos leões, os seguidores de Santo Inácio precipitaram-se sobre os “ossos que as feras não trituraram”. Consideradas um “tesouro inestimável” que o santo deixara à Igreja, suas relíquias foram trasladadas para Antioquia que era, então, a Sede Primacial da nova Igreja Cristã. Mais tarde, o imperador Constantino designaria Roma como Sede de Pedro e, Constantinopla, Sede do novo Império Bizantino.

brasao_arqueologiaComo já visto no início deste artigo, o tesouro deixado por São Policarpo não permaneceu para sempre em Ermirna. O crânio ou a “testa”, segundo um manuscrito medieval da Ordem do Templo, dos afamados cavaleiros templários, teria sido trasladado de Jerusalém para a França e, mais tarde, desaparecido sem deixar vestígio. Pouco após a Queda de Constantinopla, em 1453, quando a capital bizantina passou para o comando de Maomé II, Sultão do Império Otomano, os monges Arsenio e Samuel conseguiram se apropriar de outra valiosa relíquia do antigo bispo: uma parte do braço direito, desde o cotovelo até os dedos. Essa relíquia era considerada tão preciosa como a cabeça, na qual se acreditava habitar a alma do santo em vida. Em 1475, esse tesouro passou para a custódia do Mosteiro da Panagia Ambelakiotissa, na ilha Grega de Nafpaktos, atraindo multidões de peregrinos. A mão da relíquia insigne, colocada em posição de abençoar, continuava a ser o sinal de que, do Paraíso, o santo continuava a zelar por seus devotos. E de que Deus distribuiria Suas graças através da relíquia de seu mártir.

Quinhentos e trinta e oito anos depois, o ladrão albanês – com dois comparsas – roubaria do mosteiro grego o grande tesouro espiritual e cultural. Um tesouro com quase 1900 anos de história. Um tesouro mais valioso do que ouro e pedras preciosas, capaz de unir o povo cristão em torno de alguém que conhecera os discípulos de Cristo. Um tesouro que enriqueceu milhares de pessoas, espiritualmente e fisicamente, sem nunca ter pedido o brilho. Um tesouro que até hoje jamais foi encontrado e que deixou um vazio abissal no mosteiro e em inúmeros lares. Para a polícia local, foi um simples furto, pois as relíquias, como objetos arqueológicos e de arte sacra, alcançam lances históricos em leilões e preços vultosos no mercado negro. Mas à luz do Martyrium Polycarpi – e na crença dos seus muitos devotos – é possível enxergar um personagem oculto na cena do crime. Um personagem que não deixou suas digitais: “o espírito maligno, invejoso, perverso adversário do povo dos justos”, o inimigo das Sagradas Relíquias, que são os troféus dos campeões da fé em Cristo.

    Atualmente, algumas relíquias autenticadas como sendo de São Policarpo podem ser veneradas no Mosteiro Radu Vodă, em Bucareste, no Mosteiro Zagrafou, no Monte Athos, na Capela Santo Antônio, em Pittsburgh, e na Real Lipsanotheca, Sede da Cruzada Internacional pelas Relíquias Sagradas, em Fátima. Carlos Evaristo é arqueólogo, historiador e representante do Gabinete dos Patronos dos Museus do Vaticano para países lusófonos. Especialista em Iconografia Sacra Medieval e perito em relíquias sagradas de renome internacional, já examinou e autenticou, nos últimos 30 anos, as principais relíquias da Cristandade. Diretor de vários museus, é presidente da Fundação Histórico Cultural Oureana para a Pesquisa Religiosa e fundador e presidente da International Crusade for Holy Relics e do Apostolado pelas Relíquias Sagradas.

  Fábio Tucci Farah é membro do Apostolado pelas Relíquias Sagradas, cavaleiro guardião de relíquias da International Crusade for Holy Relics (ICHR) – e seu Delegado no Brasil –, especialista em relíquias da Arquidiocese de São Paulo e fundador e diretor geral do Departamento de Arqueologia Sacra da Academia Brasileira de Hagiologia (ABRHAGI)