Ícones são janelas para o eterno

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Um ícone, mais do que uma imagem comum, é a representação de uma realidade espiritual. Não quer ser uma reprodução naturalista. Pretende, antes, transmitir uma realidade teológica, abrindo o invisível aos olhos e à alma daquele que se dispõe a contemplá-lo. No ícone, portanto, não há confusão entre mistério e símbolo: “quanto mais [os santos] são contemplados no ícone que os reproduz, tanto mais os que o contemplam são levados à recordação e ao desejo dos modelos originais e a tributar-lhes (…) respeito e veneração; não, é claro, a verdadeira adoração própria de nossa fé, reservada só à natureza divina, mas como se faz para a representação da cruz preciosa e vivificante, para os santos evangelhos e outros objetos sagrados (…). Pois ‘a honra prestada ao ícone passa para o modelo original’ e quem venera o ícone venera a pessoa de quem nele é reproduzido” (Concílio de Niceia II, DS 601).

Diante de um ícone é preciso usar os olhos da alma, mais do que os olhos do corpo. A visão física, natural, capta os símbolos, enquanto a visão da alma, e somente ela, pode perceber a realidade espiritual por eles transmitida.

Trata-se de contemplar, mais do que apenas olhar; mergulhar no mistério, mais do que simplesmente ser tocado pela devoção sensível: “o ícone transcreve pela imagem a mensagem evangélica que a Sagrada Escritura transmite pela palavra” (Catecismo da Igreja Católica, 1160).

É então que o fiel que está diante do ícone (e contempla o mistério que ele encerra e descortina) percebe-se também contemplado. Pois o ícone é a janela pela qual o homem, ainda neste mundo, pode ver a eternidade e deixar-se ver por ela. Pela via da contemplação o ícone torna-se o ponto de encontro entre o olhar do homem, que busca seu Criador, e o olhar de Deus, que deseja, procura e chama insistentemente por Sua criatura.

“Graças a um rosto visível, o nosso espírito será transportado, por um atrativo espiritual, até à majestade invisível da divindade, através da contemplação da imagem em que está representada a carne, que o Filho de Deus se dignou assumir para a nossa salvação. E, sendo assim, nós adoramos e conjuntamente louvamos, glorificando-o em espírito, este mesmo Redentor, porque, como está escrito, ‘Deus é Espírito’ e é por isso que nós adoramos espiritualmente a sua divindade” (Papa Adriano I).

“O crente de hoje, como o de ontem, há de ser ajudado na oração e na vida espiritual mediante a visão de obras que procurem exprimir o mistério sem nunca o ocultar. (…) [O ícone] trata-se de fato de uma imagem que faz chegar até nós o olhar de um Outro invisível e que nos dá acesso à realidade do mundo espiritual e escatológico(…) A nossa tradição mais autêntica, que compartilhamos plenamente com os nossos irmãos ortodoxos, ensina-nos que a linguagem da beleza, posta a serviço da fé, é capaz de atingir o coração dos homens e de os levar a conhecer, a partir de dentro, Aquele que ousamos representar nas imagens, Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, o mesmo, ontem e hoje e por todos os séculos (cf. Hb 13, 8)” (Papa João Paulo II, Carta Apostólica Duodecimum Saeculum).

O olhar ocidental, acostumado apenas a imagens naturalistas, estranha a beleza do ícone e tem dificuldade em apreender a realidade espiritual que ele transmite e compreender a carga teológica nele contida. Por isso, vamos, brevemente, tentar contemplar aqui o ícone conhecido como Pantokrator do Sinai, um dos mais belos ícones que representam a Cristo na tipologia do pantokrator – “Aquele que tudo rege”.

Pantrokrator

A primeira coisa que chama a atenção neste ícone é o rosto de Cristo. Há nele, propositadamente, aspectos abstratos e aspectos naturalistas, mais humanos. E há, ainda, uma assimetria: os dois lados da face do Senhor foram representados de forma diferente. Nada, em um ícone, é colocado ao acaso. Tudo isso serve para ressaltar o mistério da dupla natureza – divina e humana – da única pessoa de Jesus Cristo. Ainda mais: mostra-O como o Juiz, justo e misericordioso ao mesmo tempo, pois a expressão de um dos lados da face é mais suave, branda e acolhedora, enquanto a expressão do outro lado da face e do olhar é mais severa e grave.

Depois, vê-se a mão direita de Jesus, que está erguida para abençoar e acolher. Abençoa “à maneira grega”, isto é, unindo os dedos de tal modo que formam o nome de Cristo. Outras interpretações do desenho da mão que abençoa neste ícone veem, nos dedos indicador e médio unidos, mais uma representação das duas naturezas de

Jesus Cristo, enquanto que os outros três dedos, também unidos, indicariam a Santíssima Trindade.

As vestes de Cristo devem ter sido, originalmente, de cor púrpura (o ícone, em madeira, data do século VI e já passou por restaurações), para ressaltar sua dignidade imperial. A faixa dourada indica também seu caráter sacerdotal. E é possível ver o espaldar de um trono, onde o Senhor estaria sentado, além de um horizonte onde se encontra representado um céu estrelado, mar e montanhas – simbolizando a majestade real e o senhorio de Cristo sobre todo o universo.

Por fim, Jesus traz, na mão esquerda, o livro dos Evangelhos, o livro da Vida. O livro, ricamente ornado, está fechado, como que indicando que somente o Cordeiro de Deus imolado é “digno de receber o livro e de abrir os seus selos” (cf. Ap 5, 1-13), pois Ele é o Leão da tribo de Judá, o Rebento de Davi, o vencedor da morte.

Foti Kontoglou, escritor, poeta e iconógrafo grego, escreveu:

 “Ele é, ao mesmo tempo, o Filho de Deus humanado e o Deus que reina, que tudo rege, o Pantokrator. Ele é pintado ao mesmo tempo severo e manso. De toda a sua pessoa transpira fragrância de perfume espiritual. De sua cabeça imaculada e da sua cabeleira se desprende uma refinada grandeza; dos seus olhos, amor, mas também severidade, aquela de quem ‘perscruta os corações e os rins’; do seu nariz, equidade e misericórdia; da sua boca, paz e perdão; das suas faces, clemência e bondade; do seu pescoço e dos ombros, misericórdia e piedade; da mão direita, bênção e indulgência; da esquerda, que segura com força o santo Evangelho, se origina a Lei vivificante que conforta os abatidos; o seu queixo redondo manifesta doçura e longanimidade. Da sua barba emana o óleo da santidade; do manto que o envolve, como a nuvem ao sol, se efunde a imensidão do todo. O Pantokrator infunde na alma devota todos os santos sentimentos, sendo, Ele, grande, poderoso, criador, onividente, suave, amigo dos homens, salvador, juiz, humilde, severo, misericordioso. Ele é, segundo a palavra de Ezequiel, ‘a Águia grande de grandes asas, que voa eterno e incorrupto sobre o mundo caduco’. Para Ele ‘mil anos são como o dia de ontem que passou’. Ele é duro para os maus, ao passo que para os que creem e os humildes é Sol imortal, Fonte de vida e vivificante. Erguendo para Ele os seus olhos, estes gritam com júbilo: ‘Na luz gloriosa da tua face caminharemos para sempre’ Ele vigia lá em cima dia e noite, de manhã e de tarde, no inverno e no verão, sem mudança, eterno, desde antes dos séculos e nos séculos dos séculos. O sol sensível nasce e se esconde, mas o Senhor não se cansa de abençoar da sua morada o mundo pecador. O Senhor vigia sereno sobre o mundo, dia e noite, no século do século”.

GHARIB, Georges. Os ícones de Cristo: história e culto. São Paulo: Paulus, 1997.