Falsos profetas ou lobos em pele de pastor?

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No dia 13/01, sábado, foi programado em Maringá-PR, a criação do comitê popular pelo direito do Lula ser candidato, com a aguardada presença dos senadores Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, e Roberto Requião, do PMDB. Em torno de 400 militantes do Partido dos Trabalhadores reuniram-se na Câmara Municipal da cidade que ansiavam pela chegada dos senadores para oficializarem o ato de lançamento.

Ao tomarem conhecimento do evento, parcela de cidadãos da cidade organizou-se e fez uma manifestação de repúdio contra o algo que consideraram afrontoso, porquanto Maringá é terra natal do juiz Sérgio Moro, o magistrado que vem conduzindo a maioria dos processos que envolve a Operação Lava Jato.

Os senadores Gleisi Hoffmann e Roberto Requião, quando informados da manifestação, nem mesmo desembarcaram em Maringá e retornaram às suas origens.

Qual a surpresa que o Pe. Leomar Antonio Montagna, da cidade de Maringá, resolveu publicar um texto, numa rede social, atacando a manifestação dos cidadãos maringaenses dizendo que “essa turma do verde-amarelo é o maior engodo que o Brasil já viu”, e ainda os nominou de “patosidiotas e não patriotas”!

O motivo do desabafo do presbítero foi sua indignação pelo fato da “turma do verde e amarelo” não estar contribuindo com a democracia ao fecharem os olhos para crimes gritantes como o caso da “mulher do Cunha”, das “malas do Aécio, Temer” e do “apartamento cheio de dinheiro do Gedel” enquanto o Poder Judiciário age com “parcialidade” ao processar e condenar “uma simples reforma de um triplex sem provas concretas”.

O curioso desta situação é que o sacerdote nem mesmo se esforçou para absolver o Lula, quando muito asseverou em seu texto não existirem “provas concretas”. Entretanto, utilizando um duplo padrão moral, típico da esquerda mais rançosa, afirmou que os crimes praticados pelos outros são “tanto maiores”. Como se vê, não se trata de ignorância ou ingenuidade na interpretação dos fatos, mas de uma visão míope, motivada por uma mente ideologicamente deturpada que perde a capacidade de reflexão sobre a realidade.

É importante frisar que os crimes pelos quais Lula está sendo devidamente processado não estão simploriamente restritos a uma “simples reforma de um tríplex” e tampouco este caso poderá ser avaliado isoladamente e distante do contexto do maior escândalo de corrupção já praticado no mundo entre os países democráticos. O ex-presidente Lula, por ora, é alvo de 06 (seis) processos-crime e já condenado em um deles a 9 (nove) anos de prisão. Os processos criminais envolvem desde acusações de chefiar uma quadrilha, passando por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, até chegar a obstrução da Justiça. Ora, são crimes gravíssimos, principalmente em se tratando de uma pessoa que foi o maior mandatário da nação e nesta condição teria cometido os crimes.

O discurso ideológico raso do padre, diametralmente oposto à prudência e aos verdadeiros valores cristãos, repete a mesma cantilena vazia que convence somente a ralé ou aqueles militantes lobotomizados que conseguem professar uma ideologia maldita que destruiu todas as nações por onde passou deixando apenas um rastro de miséria, fome e mais de 200 milhões de cadáveres.

Entretanto, o mais lastimável nas palavras do clérigo é a sua insensibilidade pastoral. Certamente muitos daqueles que ele denominou “patosidiotas” são ou poderão vir a ser seus paroquianos. Ao tratá-los desta forma criou uma espécie de “fiéis de segunda categoria” e maus cidadãos. Ou pior: se pela sua perspectiva ideológica distorcida os “patosidiotas” estão equivocados, teologicamente, sua postura como pastor foi sofrível, senão indigna, vez que parece ter abdicado de salvar as ovelhas que pudesse entender perdidas.

Não bastasse, em um segundo texto, com o título de “Questões Políticas”, o Pe. Leomar faz alguns esclarecimentos que deixam dúvidas se se trata de um falso profeta ou um lobo sob pele de pastor, especialmente por utilizar o Magistério da Igreja para chancelar algo que é fruto da sua estolidez ideológica. Num primeiro momento, citando o Documento de Puebla e a Constituição Gaudium et Spes (do Concílio Vaticano II), afirma que o campo da política é próprio dos leigos. Entretanto, sem definir qual é o verdadeiro papel do sacerdote, faz uma incursão no campo que pertence à liberdade dos leigos para condenar aqueles que não escolheram, pelo seu ponto de vista, o lado certo e, portanto, não estariam sendo… coerentes com sua fé e a ação social-política.

A concepção de que os cidadãos maringaenses que protestaram contra a instauração do comitê pró-Lula estariam sendo incoerentes sobressai quando reconhece existirem grupos ideologicamente diferentes, mas atribui legitimidade, ainda que não direta e expressamente, àqueles que vislumbram nos crimes que teriam sido praticados pelo ex-presidente Lula apenas “uma simples reforma de um triplex sem provas concretas”.

Será que os “pastosidiotas”, pelo fato de manifestaram democraticamente o seu repúdio contra um ato em defesa de um condenado pela Justiça, estariam desta forma absolvendo os bandidos de outras agremiações partidárias? Seria interessante que essa generalização fosse esclarecida pelo sacerdote, que em seu texto deixou transparecer esta leviandade. Será que todos os cidadãos brasileiros têm bandidos de estimação e, portanto, estariam moralmente impedidos de se manifestarem contra a criminalidade na política e pedirem a prisão dos corruptos? Os socialistas e comunistas sempre avocam para si o monopólio da moralidade como forma de definirem os crimes e quem são os criminosos. A narrativa e o discurso político identificam nos seus adversários as mazelas da sociedade. Os “outros” são sempre os corruptos, os opressores e os ladrões. Em tempos de Operação Lava Jato parece que já estão se contentando em serem no mínimo iguais aos seus “inimigos”. Lastimavelmente esse engodo inunda as palavras do padre.

Se a “política é exercer o poder em vista do bem comum”, como esquecer o desastre que se tornou o Brasil nestes últimos 15 anos que culminaram com mais de 20 milhões de desempregados e subempregados, mais de 200 mil empresas fechadas ou quebradas, milhões de pessoas que retornaram para a linha da miséria, maior crise econômica e recessão da história e mais de 60 mil assassinatos por ano? E a quase destruição da Petrobras? Essa desgraça é consequência do desprezo ao bem comum e transcorreu no período em que estiveram no Palácio do Planalto o ex-presidente Lula e sua sucessora, a ex-presidente definitivamente afastada, Dilma Rousseff. Estamos falando de quem promoveu esta hecatombe na nação brasileira, e dela tirou proveito político e parece que também financeiro, conforme os processos em que figura como réu. Mas o Pe. Leomar reduziu essas responsabilidades a apenas uma “simples reforma de um triplex sem provas concretas”.

Por José Antonio Rosa da Silva, advogado.