O MILAGRE DE JESUS CRUCIFICADO EM PORTO DAS CAIXAS – ITABORAÍ (RJ)

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Brasão do Santuário Arquidiocesano de Jesus Crucificado e a imagem original que sangrou no dia 26 de Janeiro de 1968 (Foto: Jorge de Almeida Santos)

ÀS ORIGENS

Em 1571 Miguel de Moura doou sua sesmaria aos Padres Jesuítas que nela se estabeleceram dedicando-se à catequese. Como em outras do território nacional, também aqui deixaram o marco de sua atividade apostólica.

A eles se deve a igreja de Nossa Senhora da Conceição, hoje Santuário de Jesus Crucificado de Porto das Caixas.

Construído de massudas paredes de pedra, seria muito de desejar que os pósteros a houvessem conservado em seu estado original. Infelizmente, por falta de melhor critério, praticaram nela diversas reformas, apagando sua antiga austeridade. Entretanto à direita de quem entra, foi deixado a descoberto um laço da primitiva construção de pedra. Há outras partes da construção primitiva que foram cobertas de argamassa.

O portão de ferro que fica à direita é o mesmo que dava entrada ao cemitério que se estendia até atrás da igreja. Nele foram inumados personagens ilustres como o Visconde de Itaboraí. Defronte do Santuário, sobre um pilar, há uma estatueta de mármore, espólio de um jazigo.

Os primeiros cristãos de Jerusalém faziam questão de ter seu túmulo perto do sepulcro de Jesus. Daqui o costume de sepultar os fiéis junto da igreja e mesmo nela. Isto perdurou no Brasil até 1891 quando a Constituição decretou que, daquela data em diante, os novos cemitérios seriam administrados pelas autoridade civil, continuando a Igreja com a posse dos anteriores ao decreto.

No começo de 1650, em Macacú, a uns 5 quilômetros de Porto das Caixas, a pedido da população, uma pequena comunidade de Franciscanos se instalou em uma residência erigida no ano anterior. Em seguida construíram no local um grande convento para 25 ou 30 Frades, sendo inaugurado a 4 de fevereiro de 1670. A igreja anexa possuía três altares: o altar mor com a imagem do padroeiro, São Boaventura e dois laterais, um a imagem de Nossa Senhora da Conceição e outro dedicado a São Francisco.

A imagem de Jesus Crucificado de Porto das Caixas, durante cerca de dois séculos, esteve com os Franciscanos, em Macacú.

Passados alguns anos, em torno de 1850, a dita imagem foi conduzida em procissão para a igreja de Nossa Senhora da Conceição, que é o Santuário Atual.

Penetramos agora, prezado leitor, no coração desta história que deu origem ao Santuário de Jesus Crucificado.

Apresentá-lo-emos, fielmente, como no-la foi transmitida pelos que a testemunharam.

A IMAGEM

A devotíssima imagem de Jesus Crucificado de Porto das Caixas, de autor desconhecido, mede 1,30m numa cruz de 2,00m. Não nos consta a data em que foi modelada. Entretanto, sabemos que já em 1670 era venerada no convento dos Franciscanos.

É muito de admirar que, sendo material frágil como é o cartão pierre, se tenha conservado em perfeito estado durante mais de três séculos.

Desde tempo imemorial se lhe tem atribuído graças maravilhosas como o seguinte caso:

Certo dia, ocorrendo a festa de São Boaventura, patrono do convento, o Superior extremamente pesaroso por não dispor sequer de um bocado de pão, foi prostrar-se aos pés da sobredita imagem implorando socorro. E tanto bastou para que logo batesse alguém à porta, trazendo grande cópia de alimentos.

Também enquanto a imagem estava na igreja de Santo Antônio de Sá, sendo vedado aos escravos participar do culto religioso com os patrões, vinham eles, furtivamente, ajoelhar-se aos pés da referida imagem, obtendo assinaladas graças.

Não é possível descrever as emoções de quem fixa o olhar nessa comovente imagem. A cada qual dirige misteriosas locuções interiores que iluminam e confortam.

A cabeça coroada de espinhos está inclinada em gesto de perdão e de infinita doçura. Com os braços abertos, parece que nos quer abraçar e apertar o coração.

Os olhos orvalhados de lágrimas e de sangue, bem como a dolorosa expressão do semblante, revelam, além da suprema dor da agonia, a tristeza por ver tantos pecadores que recusam o seu amor.

De fato, um dos maiores martírios de Jesus foi o ver seu amor traído pelos que não se aproveitam de seu Sangue derramado até a última gota…

Pesar de suspenso na cruz pelos cravos que lhe traspassaram as mãos e pés, a respiração ofegante, abandonado de todos, não devemos esquecer que é Ele o Filho de Deus que desceu do Céu, assumiu nossa natureza mortal. Oferecendo-se voluntariamente a esse doloroso e humilhante martírio para nos obter o perdão dos nossos pecados e a salvação.

Ele nos fala de amor, do grande amor, do infinito amor de Deus por nós, humildes criaturas! De tal modo amou Deus o mundo que lhe deu seu Filho único para que todo o que n’Ele crer, não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3,16.)

Entretanto, não nos esqueçamos de que Jesus não permaneceu na cruz. Ele ressuscitou e continua presente entre nós, revelando-se através da Fé.

Contudo, preferimos contemplá-lo crucificado porque, presentemente, esta é a nossa condição de sofredores. Vivendo porém em comunhão com Ele, temos a firme esperança de que há de converter em flores os espinhos da vida e as sombras da morte nos resplendores da Ressurreição.

Passemos agora a relatar o maravilhoso desta história, o que sucedeu nessa comovente imagem de Jesus Crucificado que vinha recebendo a veneração dos fiéis durante mais de três séculos.

FENÔMENO MARAVILHOSO

Damos aqui, sem preâmbulos, o depoimento textual do Pároco de então, Padre Carlos Guillena:

Faltavam quinze minutos para as 19h de sexta-feira do dia 26 de janeiro de 1968.

Era o segundo dia do tríduo a Jesus Crucificado pelas vocações sacerdotais e pela santificação do clero.

Estavam presentes umas quarenta pessoas.

Como não havia chegado quem devia preparar o altar, subi até o pedestal da imagem a fim de colocar velas nos castiçais. Fiquei surpreendido ao deparar uma mancha vermelha. Voltei e comentei que teríamos a imagem por pouco tempo, pois, estava soltando a tinta e pensei que iria desmontar-se em breve. Enxuguei o líquido do pedestal até ficar limpo por completo.

Celebrei Missa e no final houve bênção do Santíssimo.

Foi então que outras pessoas perceberam que dos joelhos e das chagas do Crucificado gotejava sangue. Procurei olhar aquilo com naturalidade e dizer a todos que era a tinta que se desprendia da imagem.

Após a insistência do sr. Jonas, sacristão, decidi subir novamente e constatei juntamente com outras pessoas que, de todas as chagas, inclusive da boca, estava saindo um líquido vermelho que escorria gota a gota até o pedestal. Depois de analisado, comprovou-se que esse líquido era sangue humano.

Eu, Padre Carlos Guillena Rodrigues, Vigário, posso atestar isso.

O Dr. Enéas Henriger, Farmacêutico e Bioquímico, examinou o líquido vermelho que manou da imagem de Jesus Crucificado, INRI, atestando “tratar-se, realmente, de sangue” cujo atestado vai aqui reproduzido:

COMENTÁRIO

Sobre este tão simples quão assombroso depoimento, é natural que ao leitor ocorram mil interrogações… E não encontrando resposta que o satisfaça, acabe negando simplesmente o fato apesar dos muitos testemunhos como adiante veremos. Todavia, esta atitude pode ser um expediente para se subtrair de qualquer possível comprometimento.

As manifestações de Deus são produzidas por causas misteriosas fora de nosso alcance. Não devemos pois conceber esse acontecimento simplesmente com critérios humanos.

Os Santos místicos, agraciados pela experiência do sobrenatural, nos advertem que as manifestações divinas não podem, de modo algum, ser objeto de nossas especulações porque nos falam através de sinais tão estranhos que tão independentes da lei da natureza que a razão humana não pode alcançar.

Bem sabemos que Cristo, em seu estado glorioso não pode mais derramar sangue, todavia, aqui se trata de um fenômeno em que nos quis transmitir salutar mensagem que pode ser por todos facilmente entendida.

Sangue a gotejar da imagem!

É este um tocante apelo à conversão. É uma advertência para que façamos memória de quanto Cristo padeceu pelos nossos pecados e para nos salvar. É uma comovente admoestação a fim de que tenhamos presente a brevidade da vida terrena e o nosso destino eterno. Sobretudo, é uma dramática manifestação do infinito amor de Deus…

Jesus Crucificado de Porto das Caixas, em si, não representa mais que os milhares de Crucifixos espalhados pelo mundo. Mas, quantas vezes olhamos para Ele com total indiferença e frieza, sem despertar em nós o mínimo sofrimento…

No entanto, aos pés do Cristo de Porto das Caixas, por nos ter dado sinal sensível e comovente de verter vivo sangue de suas chagas, milhares de pecadores vêm prostrar-se aos seus pés, convertidos! Famílias desajustadas se reconciliam. Incalculável número de enfermos recobram a saúde enquanto todos encontram alivio para seus males…

A imagem de Cristo vertendo sangue, nos lembra que sexta-feira santa, ao meio dia, apesar de ter sido declarado inocente, foi pregado no lenho da Cruz e, após três horas de agonia, em presença de sua desolada Mãe, Maria Santíssima, expirou, bradando: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. (Lc 23,46.)

Pelo Sangue que Cristo derramou na Cruz, Deus quis fazer a paz com suas criaturas de terra e do Céu. (Cl 1,20.)

Prosseguindo o assunto, apresentaremos novos atestados e as tentativas para explicar naturalmente o fenômeno, deixando ao leitor benévolo plena liberdade para tirar suas conclusões.

RECONFIRMAÇÃO

No começo de abril de 1977, o Padre Carlos Guillena foi entrevistado pelo eminente parapsicólogo, Edvino A. Frideriche, SJ, membro da Equipe Latino-americana de parapsicologia. Ao perguntar-lhe este em torno da possibilidade de fraude, o Padre Carlos respondeu:

Não me consta, em absoluto, que houvesse qualquer fraude. Isto nem me passou pela cabeça naquelas circunstancias.

Ele também observou que a imagem, sendo de cartão pierre (papelão), antes que verter o líquido deveria absorvê-lo. Sendo arranhada a imagem, não foi descoberto por dentro nenhum vestígio de Sangue. E não deixa de ser surpreendente que aquele sangue, verdadeiro sangue humano, não houvesse coagulado logo. Este fenômeno durou das 18:45h às 22:00h, ou seja, três horas e quinze minutos, permanecendo o Sangue líquido.

A mesma testemunha acrescenta:

A Imprensa, especialmente “O Dia” do Rio de Janeiro, divulgou o fato criando grande movimento em Porto das Caixas. Isto me deu muito medo, pois, meu desejo é que nada disso houvesse acontecido. Pessoalmente, aquilo me trouxe muitos aborrecimentos, mas não posso negar que vi: Em verdade, a imagem de Cristo gotejou sangue de todas as chagas.

E tornou a repetir:

Gostaria mesmo que tal houvesse acontecido. Muitas pessoas piedosas de Porto das Caixas viram o fenômeno e ele é autêntico.

Em 20 de março de 1981 o mesmo Sacerdote leu e confirmou este seu depoimento.

Além do Padre Carlos, o fato foi observado não somente por cerca de quarenta pessoas que participavam do tríduo, mas por muitas outras que afluíram de todos os lados para ver a imagem sangrando, entre elas, o Prefeito de Itaboraí.

Posteriormente, quão muito se desvelou em verificar a autenticidade do fato, foi a distinta senhora Denise Eichler, jornalista, de cuja sinceridade não se pode duvidar. Legou-nos farta documentação em torno do assunto. Apraz-nos oferecer ao leitor alguns excertos de suas investigações sob o título que ela mesma no-las apresentou.

A HISTÓRIA É ASSIM

MINHA PRIMEIRA ENTREVISTA

“Cheguei a Porto das Caixas pela primeira vez em 1973 como a maioria dos peregrinos, doente, aflita mas confiante. Sofria de uma enfermidade uterina. Ajoelhei aos pés da imagem de Jesus Crucificado. Implorei sua misericórdia e regressei emocionada. Em breve fiquei totalmente curada.

Em sinal de gratidão, me decidi a divulgar as maravilhas que, através de sua imagem, Cristo vinha operando em favor de seus devotos. Além disso, tomei a resolução de orientar todos os que necessitassem de alívio para suas dores e angustias.

Mas, para bem desempenhar esta missão, devia conhecer a história da igreja de Nossa Senhora da Conceição, a origem da imagem de Jesus Crucificado e, sobretudo, devia certificar-me da veracidade do fenômeno maravilhoso sucedido na tarde de 26 de janeiro de 1968. Para isto devia entrevistar as testemunhas que assistiram ao acontecimento e, em primeiro lugar, o Padre Carlos Guillena.

Em maio de 1973, apresentei-me a ele alegando tratar-se de uma simples entrevista pessoal, sem objetivo publicitário.

Recebeu-me muito triste e abatido. Eram tantos os que iam importuná-lo, pedindo-lhe explicações em torno do fato! Não queria tocar no assunto, dizendo que haviam deturpado suas declarações, confundindo a opinião pública com grave descrédito de sua pessoa. Minha primeira impressão foi a de estar diante de um Sacerdote piedoso cuja principal preocupação era a evangelização de seus paroquianos. Este meu conceito ia-se confirmando ao mesmo passo que discorríamos em torno das inúmeras graças que o Cristo vinha dispensando aos seus devotos. Aos poucos foi confiando mais em mim e acabou relatando-me tudo minuciosamente, desfazendo as falsas interpretações.

Estava eu vinculada pela declaração que fizera de não publicar a entrevista. A certa altura ousei pedir-lhe que, para o bem das almas, me permitisse publicar quanto me havia declarado, prometendo-lhe evitar qualquer encarecimento ou interpretação pessoal.

Foi assim que, como repórter de O Dia, obtive a desejada licença e, desde então venho redigindo uma coluna diária nesse jornal, relatando nela as graças concedidas aos devotos de Jesus Crucificado de Porto das Caixas. Espero que Deus me conceda boa disposição para prosseguir por muito tempo nesta minha tarefa, em cumprimento da promessa feita.”

A mesma Denise Eichler continua relatando sua pesquisa em torno desse acontecimento que ela costuma denominar de FENÔMENO MARAVILHOSO.

“De 1973 até a presente data, entrevistei inúmeras testemunhas.

Aqui vai, em primeiro lugar, o depoimento do menino Niromar Macabu, coroinha que, enquanto limpava o altar e apagava as velas, viu as gotas de sangue pingando da imagem de Jesus Crucificado. O garoto, com sua natural dificuldade de expressar, assim me contou como viu, espantado, o sangue fluir:

Gritei. O Padre Carlos me ralhou porque não acreditou. E ninguém acreditou, nem meus pais que também ficaram aborrecidos e me disseram que era pecado inventar histórias. Mas eu tinha certeza do que dizia.

Outra testemunha consultada foi a professora Sandra Silva, a quem o Padre Carlos, da sacristia, pedira que fosse ao altar para verificar o que estava acontecendo. Para ele era a tinta que estava se desprendendo por causa do calor.

Da sobredita professora recebi a seguinte declaração:

Coisa inacreditável! Era mesmo sangue, mas eu não me atrevi a afirma-lo. Chamei o Padre Carlos para que ele mesmo visse. Cheguei a dizer-lhe que parecia sangue embora eu tivesse disto certeza.

Naquela tarde a Igreja ficou subitamente tomada por fiéis que se ajoelhavam compungidos entre os quais havia quem não ousava fitar a imagem. Chamaram-se, às pressas, as pessoas gradas para verificar o fenômeno. Chegou também Prefeito de Itaboraí o sr. Símaco que forneceu um documento em que atesta haver assistido, durante quase duas horas, ao gotejar do sangue. Ele próprio saiu à procura do Dr. Éneas Heringer, pedindo-lhe examinasse o líquido que se acumulava no pedestal da imagem.

Tanto que correu a noticia do acontecimento, Dom Antônio de Almeida Morais Junior, Arcebispo de Niterói, dirigiu-se a Porto das Caixas para obter esclarecimentos a respeito do caso.

Após ouvir demoradamente o Padre Carlos, quis indagar todas as testemunhas oculares, uma por uma, em separado. As declarações foram cuidadosamente anotadas e estudadas, verificando-se ao cabo que todas foram unânimes, sem discrepância alguma.

Nesta mesma ocasião o sr. Arcebispo recebeu do Dr. Enéas Heringer um laudo, atestando ter colhido o material em várias lâminas e que, após diversos exames, verificara tratar-se de puro sangue humano.

Noutro encontro com o mesmo Arcebispo, um médico que pediu anonimato confessou ter sido convidado pelo Dr. Enéas para acompanha-lo no exame do material. Foi este repetido diversas vezes e, diante da evidência, aconselhara o Dr. Enéas a firmar o laudo, atestando que o líquido colhido das chagas da imagem de Jesus Crucificado e do pedestal era sangue, puro sangue humano.

Comovente declaração foi a do antigo sacristão da igreja Nossa Senhora da Conceição, o sr. Jonas Anselmo da Silva, que viu de perto e tocou na imagem enquanto manava sangue. Mas ele jamais falara do assunto, não só por ser de caráter retraído e tímido mas, muito especialmente, por exercer o ofício de sacristão, encargo que não poderia desempenhar se fosse continuamente molestado pelos romeiros. Além disso temia ser alvo de remoques e zombarias.

Vítima de câncer, sentindo a morte próxima, mandou chamar o Padre Landan e lhe disse:

Sei que vou morrer. Estou mais perto de Deus que dos homens. Por tanto, não tenho necessidade de mentir. Além disso, me sinto na obrigação de dizer que aquela tarde, coloquei o dedo nas chagas da imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo. Estavam todas molhadas de sangue. Eu as enxuguei e elas voltaram a molhar-se até o sangue formar gotas e pingar.

Nesta ocasião o Dr. Luís de Souza Aguiar e eu, pudemos estar presentes a esta declaração, pois, tínhamos ido a Porto das Caixas para examinar alguns atestados médicos sobre curas maravilhosas.

A mesma Denise Eichler continua com as seguintes notas suplementares:

Se o espetáculo de ver a imagem de Jesus Crucificado vertendo sangue causou em todos profunda emoção, o Padre Carlos se sentiu tão abalado que, naquela mesma noite foi levado a uma casa de saúde com hipertensão arterial.

Desde que o menino Niomar lhe anunciara a presença de sangue na imagem, sentiu-se tomado de forte constrangimento.

Tanto que a notícia se propalou teve de atender inúmeros fiéis, curiosos e até fanáticos que se precipitavam sobre ele com uma chuva de perguntas. A todos dava a mesma resposta. Por fim, exausto, pedia ajuda para conter a multidão bradando que aguardassem a comprovação do fato.

Lembra-me que, em 1973, conversando sobre o assunto, em dado momento, me disse que não conseguia esquecer, passados cinco anos, o filete de sangue que escorria, sem cessar, dos lábios da imagem.

A partir daquela data, começou a se dedicar com mais zelo ao atendimento dos fiéis, evitando qualquer publicidade a respeito do sucedido como também de sua pessoa.

Ao ser transferido para outra Paróquia redigiu um documento que se encontra nos arquivos, ratificando tudo quando havia declarado a respeito do maravilhoso acontecimento.

De 1973 a esta data, tenho ido semanalmente a Porto das Caixas. Entrevistei milhares de peregrinos que receberam graças de Jesus Crucificado, muitas delas verdadeiramente admiráveis. Constatei outrossim inúmeros casos de surpreendentes conversões e de famílias desajustadas que se reconciliaram…

E vejo, com surpresa que afluência dos peregrinos vai aumentando…”

Até aqui a jornalista Denise Eichler.

CONCLUSÃO

Declaramos no inicio que “descrever e comentar a história de Jesus Crucificado de Porto das caixas é tarefa de grave responsabilidade”. Temos consciência de não termos omitido nem alterado um ponto sequer dos fatos.

Vamos pois concluir.

Há acontecimentos que produzem as mais diversas impressões. Assim sucede com o que aconteceu na imagem de Jesus Crucificado de Porto das Caixas. Os incrédulos recebem a noticia com galhofas; os indiferentes, com apatia; os cristãos remissos, com certa perturbação, ao passo que os fervorosos, com viva emoção.

Entretanto, depois de meticulosas averiguações, somos levados a concluir que é mesmo verdade que a dita imagem verteu sangue.

Nas pesquisas não faltou a investigação atenta do Padre Oscar Gonzalez Quevedo, de fama internacional. Permaneceu ele diversos dias em Porto das Caixas para investigar a natureza do fenômeno e acabou dando oralmente ao Padre Lucas A. Costa que assistia no Santuário, a seguinte explicação:

A projeção de sangue é naturalmente possível e chama-se aporte. Atinge no máximo 50 metros. O sangue, porém, é lançado momentaneamente e em forma de jato e em determinado lugar, como alguém que arremessa um ovo.

Este caso porém não se aplica ao que sucedeu na imagem de Jesus Crucificado que verteu sangue de todas as chagas e durante mais de três horas. Por isso aqui se trata realmente de um fato inédito e maravilhoso para o qual não há explicação…

Em outras palavras:

No aporte o sangue é projetado. Na imagem brotava de todas as chagas mesmo após enxugadas.

No aporte o fato é quase instantâneo. Na imagem durou mais de três horas.

No aporte o sangue é projetado em determinado lugar. Na imagem foi visto verter de todas as chagas.

No aporte o sangue se coagula. O que manou da imagem conservou-se líquido.

Ora, já que para esse acontecimento não há nenhuma explicação natural, somos levados a atribuí-lo a uma disposição sobrenatural.

Costuma Deus manifestar-se por meio de sinais ou representações; Da mesma forma nos transmitiu sua mensagem através do sangue manado da imagem de Jesus Crucificado. É este um apelo para fazermos memória d’Ele e de seu preciosíssimo Sangue, visto que, por nossa salvação, o derramou, de fato, no Jardim das oliveiras, na flagelação, na coroação de espinhos, na crucificação e enfim de seu Coração alanceado. Além disso, continua a dar-nos o seu Sangue redentor através da Divina Eucaristia. E tudo isso reclama, a grandes brados, nossa Fé, nossa gratidão e nosso amor!

APLICAÇÃO

Sangue a verter da imagem!…

Ele nos lembra que Jesus continua sofrendo e sangrando em seus membros…

É o sangue de milhões de mártires imolados pela impiedade a começar do sangue de Abel!… Sangue das guerras fratricidas!… Sangue dos espantosos genocídios!… Sangue dos injustiçados!… Sangue roubado a milhões de seres humanos, espectros elanguescentes, a morrer de fome!… Sangue de milhões de inocentes massacrados no seio materno, enquanto Deus os vem formando carinhosamente para a vida!…

É bem verdade que Cristo, em seus membros estará em agonia até o fim dos tempos!

Sangue a verter da imagem de Jesus Crucificado!…

É também um clamoroso apelo para que reproduzamos em nossa vida o amor de Jesus:

Jesus deu sua vida por nós. Também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos. (1Jo 3,16)

Devemos também convir em que Jesus se serviu desse sinal em sua imagem para que façamos memória de quanto padeceu por nós e para seguirmos seus passos, carregando com paciência nossa cruz de cada dia, de acordo com sua exortação: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. (Mt 16,24.)

Ademais, tenhamos em mente que o nosso culto não se dirige para a dita imagem mas àquele que ela representa e que está vivo e presente.

Se nesta altura o leitor nos acoima, e com razão, de termos exorbitado em repisar este assunto, pedimos vênia apesar de termos assim procedido de caso pensado para que fique bem assentado em nossa alma este assunto que diz respeito à nossa eterna felicidade.

Concluindo, referimos que sendo os judeus dizimados pelas mordeduras das serpentes, mandou Deus a Moisés, levantasse uma serpente de bronze e todo o que olhasse para ela seria livre da morte. (Nm 21,6-9.)

Jesus aplicou a si esse acontecimento, dizendo:

Assim como Moisés levantou no deserto a serpente, deve ser levantado o Filho do Homem para que todo o homem que nele crer tenha a vida eterna. (Jo 3,14-16.)

Assoberbados de tantos e tão perversos inimigos que conspiram nossa ruína, e oprimidos de tantos sofrimentos físicos e morais, fixemos constantemente nosso olhar em Cristo Crucificado e assim, além de conservar-nos livres do pecado, obteremos alívio em nossas dores e conquistaremos a vida eterna.

SANGUE DE VIDA

Segundo o conceito judaico, o sangue é vida. Ou nele se contém a vida. Por isso, derramar sangue é matar e o sangue derramado clama vingança contra o assassino, como contra Caim aos qual Deus disse: Eis que a voz do sangue do teu irmão clama por mim desde a terra. De ora em diante serás maldito… (Gn 4,10-11.)

Mas o Sangue de Cristo, de infinito valor e de Vida eterna, derramado por amor, só tem brados de misericórdia.

No Antigo Testamento, sobretudo no sacrifício expiatório, era oferecido o sangue das vítimas, figuras do Sangue de Cristo. E sem derramento de sangue não há perdão. (Hb 9,22.)

O sangue era usado também no ato de estabelecer aliança com Deus. Moisés aspergia o povo com o sangue da vítima, proclamando: Eis o sangue da aliança que o Senhor fez conosco (Ex 24,3-9.) Estabelecer aliança com Deus é comprometer-se de viver de acordo e em comunhão com Ele, observando os Mandamentos. O sangue aspergido sobre o povo significava que quem violasse a aliança havia de morrer. Mas isto só podia acontecer por parte do homem que é tão inconstante.

É por isso que o Sangue de Cristo se destina a alcançar o perdão dos nossos pecados: Deus destinou Jesus para ser, pelo seu sangue, vítima de propiciação mediante a Fé. (Rm 3,25.)

O Sangue de Jesus nos justifica: Cristo morreu por nós. Portanto, muito mais agora que estamos justificados pelo seu Sangue, seremos por Ele salvos da ira. (Rm 5,6.)

São Pedro nos adverte: Não foi por prata ou ouro que fostes resgatados… mas pelo precioso Sangue de Cristo, o Cordeiro Imaculado… (I Pe 18, 19.)

E São João: Se andamos na luz como Deus está na luz, temos comunhão recíproca entre nós, e o Sangue de Cristo nos purifica de todo o pecado. (I Jo 1,7.)

Enfim, todos os pecadores purificados pelo preciosíssimo Sangue de Jesus, voltam a ser objeto da complacência de Deus.

Repare o leitor nesta passagem do Apocalipse:

“Depois disso vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda a nação, tribo, povo e língua: conservavam-se de pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas nas mãos e bradavam em alta voz:

A salvação é obra de Deus que está assentado no trono, e do Cordeiro! Então um dos anciãos me perguntou:

Esses que estão vestidos de branco, quem são e donde vêm? E eu disse:

-Tu o sabes. E ele:

Esses são os sobreviventes da grande tribulação, lavaram suas vestes e as alvejaram no Sangue do Cordeiro… Já não terão mais fome, nem sede… Deus enxugará toda lágrima de seus olhos.” (Ap 7, 9-16.)

CONCLUSÕES PRÁTICAS

Pelo que acabamos de ver, o sangue deve possuir algo misterioso, dever ser mesmo um elemento vivo e vital.

Haja vista que no seio da mãe se transforma no admirável complexo fisiológico do filho; e após o nascimento, é o sangue que lhe desenvolve o organismo até a plena maturidade.

Semelhante ao sangue deve ser a seiva vegetal que se transforma em tronco, ramos, flores e em frutos que alimentam o mundo. E repare o leitor neste caso singular. Embora as plantas de diversas espécies estejam no mesmo terreno, as raízes de cada qual elaboram diferente seiva de acordo com a planta. Em cessando a circulação da seiva, a planta morre.

Indiretamente, Jesus comparou seu Sangue à seiva das plantas, quando disse: Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim e eu nele esse dará muito fruto… se alguém não permanecer em mim… secará… (Cf Jo 15,1-7.)

São Paulo nos diz que Cristo é a cabeça e que nós somos os seus membros, à semelhança do corpo humano. Em virtude dessa união com Ele recebemos o seu Sangue que nos comunica sua mesma vida.

E de que maneira entramos em comunhão com Cristo?

Por meio dos sete Sacramentos a saber: Batismo, Crisma, Eucaristia, Confissão, Unção dos Enfermos, Ordem e Matrimônio. São sinais eficazes da graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja, através dos quais nos é dispensada a vida divina.

Cada sacramento consta de matéria e forma.

No Batismo, por exemplo, entornar a água é lavar, purificar. É a matéria. As palavras que dão o sentido religioso ordenado por Cristo, eu te batizo em nome do pai e do Filho e do Espírito Santo, é a forma.

Santa Catarina de Sena, desde os seis anos de idade recebia freqüentes comunicações sobrenaturais. Sua espiritualidade girava em torno do preciosíssimo Sangue de Jesus. Eis algumas de suas declarações:

O Sangue de Jesus dá aos homens a vida da graça, gerando a santidade. Promana de Cristo-cabeça e percorre toda a Igreja… É este Sangue nos vem através dos Sacramentos… A Igreja é um jardim regado com o Sangue que mana de Jesus Crucificado…

Aqui vai uma oração jaculatória ao preciosíssimo Sangue de Jesus:

Eterno Pai, ofereço-vos o Sangue preciosíssimo de Jesus em reparação dos meus pecados, pela conversão dos pecadores, pelas almas do Purgatório e pelas necessidades da santa Igreja.

Texto extraído do livro: JESUS CRUCIFICADO DE PORTO DAS CAIXAS – NOTAS HISTÓRICAS COMPILADAS PELO PE. SILVIO MAZZAROTTO, CP. Impresso pelo próprio Santuário Arquidiocesano de Jesus Crucificado. Av. Nossa Senhora da Conceição, s/n Porto das Caixas – Itaboraí (RJ), CEP: 24830 – 080 , RJ. Tel. (21) 3639.6205